Feliz no empate
Os últimos dias foram intensos, cheios de sentimentos, pensamentos e intuições variadas. Ficar um tempo sem telas é bom, mesmo que sirva para perceber que estamos mesmo é confusos, cheios de lugares sem rumo, de coisas sem sentido, de copos meio-cheios e meio-vazios.
No final de semana, fiz algumas coisas que estavam na minha lista de coisas pra fazer nos próximos dias. Algumas resolvi por completo, como assinar o Premiere, plantar o bambu no vaso novo, conversar com S. sobre o jogo, assistir ao filme A Odisseia. Outras, pela metade: as burocracias da Receita Federal, as aulas de Astrologia, o reparo do cano de esgoto. Outras, ainda, nem me lembrei da existência, como a bandeja de legumes e a cúpula do abajur. Como eu disse, copos meio-cheios e meio-vazios. Mas sem pressa, ainda temos tempo para resolver tudo isso e muito mais.

No final de semana, também aproveitei para sair um pouco e me tornei mais sociável do que fui no último mês inteiro. Passei horas fora de casa, fui a livrarias, ao cinema, comi fora, apreciei alguns quadros. Conversei muito, extensamente, com amor e verdade com gente que me importa. Conversei muito também com gente que não me importa tanto, e me desculpem se isso soar um pouco frio. Também conheci gente nova, ouvi um pouco de suas histórias, de sua origem, de seus gostos. Me impressionei porque considerei este garoto uma pessoa bem falante e aberta em comparação a outros exemplares da “gen z” que eu conheço. No geral, tenho um pouco de dificuldade de conversar e de entender muitas coisas desse povo, mas isso não quer dizer que não os admire em muitos aspectos. É só uma falta de sintonia. Dessa vez foi diferente.
É bom e é estranho ser sociável. De um lado, sinto que fui muito de verdade com a gente que me importa e com os novos conhecidos. De outro, recebi notícias boas de outras coisas, pessoas e situações, nas quais, em certa medida, estou sempre em uma posição de “não completa verdade”. E, assim, essas notícias, mesmo que super boas, me deixam em uma posição de felicidade, sim, mas de uma qualidade diversa. Não é uma alegria de criança, voraz, violenta, que consome. É diferente.
Percebi isso esses dias sobre mim. Sou verdadeira com poucos. Sou falsa, em certa medida, com os demais.
Mas eu mesma acredito verdadeiramente que a verdade é também e sempre uma máscara. Por trás da máscara, há sempre outra máscara, e outra máscara, e outra máscara... Fato é que, mesmo assim, com certas pessoas me sinto nua, de verdade, de carne e osso, olho no olho, com fome de viver. E, com outras, distante, desinteressada. Triste, talvez até na felicidade.
Fiz a aula de Libra do curso de Astrologia e achei também uma coisa incrível1. É essa balança de Libra o que atravessa todo esse meu texto. Libra gosta do belo, mas, para isso, tem pavor do que é feio. Libra precisa encontrar o peso adequado para as coisas, a medida certa de seus elementos. Afinal, há sempre a possibilidade (e quantas histórias existem sobre isso!) do belo ser também falso. A recusa pelo feio e a busca pela harmonia a qualquer custo podem fazer também do libriano alguém que prefere um falso equilíbrio em vez de uma verdade radical.
E não pensem vocês que essas minhas colocações sobre Libra me deixam isenta da crítica. Pelo contrário, tenho uma Libra muito forte no meu mapa, que eu diria até que me conduz em muitos aspectos. Por exemplo, nesse texto mesmo expus que sei que sou de verdade apenas com algumas pessoas. Sei jogar esse jogo de máscaras quando eu preciso, monto as minhas próprias quando quero me blindar de tudo – e isso não significa que não haja também sofrimento. No entanto, para ser sincera, sincera mesmo, também não me faço de rogada. De vez em quando, é isso que eu quero. Que ninguém saiba determinadas coisas sobre mim. Só sabem aqueles com os quais eu me sinto com fome de viver.
Pensando, no silêncio de um mundo relativamente sem telas, percebi que só me abro com gente como as apresentadas na Odisseia (2026). Que glória, que força, que vontade de ser maior!! Sempre e sempre maior. No final, há busca por equilíbrio nisso tudo? Ou se trata apenas de constatar que o dito equilíbrio é apenas uma disposição das forças que emergem da guerra? A guerra já está feita – qual é o futuro que nos espera?
Para mim, todo o amor de verdade vem da guerra, ou, se essa palavra for feia demais, do combate, da luta, da batalha. A gente só conhece o outro verdadeiramente nesses momentos. Aqui, não falo da guerra gratuita, da discussão boba, da violência ridícula, exacerbada, mesquinha, cruel, estúpida, imensa. Mas do verdadeiro combate: quem é capaz de te desafiar nas suas verdades e, mesmo assim, te amar? Quem é capaz de te ver admitir o erro e mesmo assim te admirar? Quem é capaz de te indicar pensamentos, falas e comportamentos duvidosos que você tem de uma maneira que te faça ouvir? Quem é capaz de construir com você uma ideia, uma obra, um mundo a 4 mãos? Esse processo de construção não será sempre de concordância. Quem é capaz de aceitar e abraçar com vontade as suas necessidades mais verdadeiras, mais cruas, mais sinceras nesse novo mundo? Viram? Toda essa disposição de forças não provém da guerra, do combate, da batalha?
Voltando para coisas menores e cotidianas: fiquei super a fim de ler Darwin e comprei A origem das espécies. Estou achando sensacional. Comecei a ler o prefácio de Pedro Paulo Pimenta, professor incrível da USP, fôlego inesgotável de pesquisa. Parei na metade do texto dele na manhã de ontem, com a intenção de ler mais no período da tarde. Chegou gente aqui, passei a tarde conversando. De noite, quis ler antes de dormir... mas quem disse? Me peguei assistindo ao YouTube Shorts até umas 23 horas. Em geral, quando eu faço isso, quer dizer que algo não vai bem comigo. Mas o que exatamente não vai bem? No momento não consigo saber, depois de tantas coisas, pessoas, sentimentos, agitos para uma vida relativamente pacata que eu levo.
Também andei bastante pensativa sobre o Bear Blog. No meu texto passado, compus odes de amor para esse nosso meio. No entanto, não pude concordar mais com o texto da Diel. E notei também que o texto dela desapareceu depois de um tempo da aba do Discover. Achei isso super esquisito. Novamente aquela sensação da balança e (por que não?) da guerra: duas coisas em confronto. Qual vai pesar mais?
Outro texto que achei sensacional foi o “Morte em vida”, do blog Garrafas ao mar. Acho que esse meu texto de hoje conversa um pouco com tudo aquilo que a autora falou por lá. Mas gostaria de dizer para ela, e realmente não sei se isso serve de consolo, que aqui em São Paulo também não se faz amigos! Talvez aqui nós vivamos mesmo em uma cidade falsa – admirável, com certeza, quando vista de uma longa distância – mas, no momento em que aqui nos inserimos, vemos como são raros os diamantes da verdadeira amizade.
E, por falar em São Paulo, de vez em quando me sinto um pouco como o meu time, precisando aprender a ficar feliz com o empate. Afinal, não é todo dia que é possível segurar o Flamengo em pleno Maracanã lotado.
Segue o placar da rodada.
São Paulo 1 x 1 Flamengo
São Paulo 1 x 1 Cidades do interior
Beleza 1 x 1 Falsidade
Máscara A 1 x 1 Máscara B
Gente de verdade 1 x 1 “Pessoas esquisitas”
A Odisseia 1 x 1 Gente desinteressada
Darwin 1 x 1 YouTube Shorts
Vontade de se abrir para o mundo 1 x 1 Vontade de selecionar quem navega comigo
Vontade de ser maior 1 x 1 Vontade de encontrar quem quer ser maior também
Quer comentar esse texto? Dê um alô no Guestbook do blog.
- Para escrever para mim, clique aqui. Caso aguarde uma resposta, verifique também a sua caixa de spam.
Falei para vocês que eu ia morder a minha língua!↩