A Odisseia, de Christopher Nolan, e a crítica

Podem ficar tranquilos, meus amigos que ainda não foram aos cinemas. Não vou dar nenhum “spoiler” sobre o filme ou sobre a poesia de Homero hoje. Por ora, desejo apenas indicar uma coisa que tem me infernizado sobre esse filme e outras coisinhas mais.
É evidente que sempre que algo grandioso é feito, e, nos dias de hoje, feito e lançado em nível global, muita gente tem muita coisa a dizer sobre aquele feito em questão. E, quanto a isso, tudo bem. O mundo é assim.
Recentemente, conversei com pessoas que não gostaram do filme A Odisseia (2026), e, quanto a isso, também tudo bem. Eu adorei, e também tudo bem. No entanto, essas pessoas que não gostaram não parecem satisfeitas com isso. Me enviam mensagens e me pegam pelos corredores por aí para propagar a sua fé. Querem me convencer de que o filme é ruim. Me enviam notícias e vídeos de especialistas e acadêmicos que apontam incoerências, defeitos, transgressões.
Nada feito, vocês já sabem. Sou firme quando o assunto é o meu gosto.
Mas vejamos o argumento central, que, para mim, é no mínimo engraçado. Tal argumento envolve muitos aspectos, mas pode ser resumido em: o filme não é fiel a Homero. Ok, eu também posso concordar com isso. Mas isso significa que ele é ruim?
Vamos para uma breve viagem histórica.
Hoje não há consenso entre os historiadores sobre a existência de Homero – o famoso poeta cego que compôs Ilíada e Odisseia no século VIII a. C. Tomando como dado a existência de Homero ou a inexistiência de Homero, essa questão não muda. Os poemas estão aí.
Mas que poemas são esses? Como eles chegaram até nós?
Inicialmente, esses poemas eram músicas, cantadas em rituais nas mais diversas partes do que hoje chamamos Grécia Antiga. Portanto, eles eram memorizados, e não escritos. Esses textos chegaram até nós graças às cópias encontradas na Biblioteca de Alexandria, no século III a. C. Homero narra uma história que ocorreu, datada pela Arqueologia recente, no século XIII a. C.
Resumindo essa linha do tempo, estamos assim: a guerra de Tróia e o retorno de Ulisses para Ítaca aconteceram por volta de 1250 a.C. Homero compôs os poemas por volta de 750 a.C. Os primeiros manuscritos que conhecemos hoje foram encontrados em mais ou menos 300 a. C.1 Ou seja, cerca de 900 anos separam os acontecimentos narrados por Homero do primeiro manuscrito ao qual temos acesso. Qual é a chance de existir alguma “fidelidade a Homero” em meio a tudo isso?
No entanto, o argumento dos detratores de Nolan não é injusto apenas do ponto de vista das datas e das milhares de alterações que podem ter ocorrido nesse meio do caminho.
É certo que os próprios gregos faziam muitas versões para os mitos que, entre outras coisas, serviram de base para esses cantos. E, como essa tradição oral se prolonga em inúmeras pontas, as pessoas gostavam de alterar um pouco as histórias, inventar outra característica de Odisseu, Aquiles, Ajáx e os demais heróis, apresentar um novo fim para as coisas que se passaram naquele acontecimento2. Até a famosa morte de Aquiles não é narrada por Homero na Ilíada, que termina com o funeral de Heitor. Muitas versões foram feitas dessa morte, e a mais antiga da qual temos notícia é a de Arctino de Mileto, em A Etiópida, composta em VII a. C.
Ou seja, essas histórias eram contadas e recontadas muitas e muitas vezes. E, sempre e sempre, eram alteradas! Homero, se é que ele existiu em carne e osso, é apenas o poeta que conseguiu extrair daquele caldo, cozinhado por milhares de vozes, algo que, por acaso, por sorte, por destino, por beleza, por capacidade, por potência, se tornou mais duradouro. Ele é o homem que compôs o enunciado. Mas esse enunciado era tecido por quem? Por muitos!!! Homêros, em grego, significa “aquele que sabe juntar” e não aquele que criou as coisas3.
Portanto, dizer que o filme não é “fiel” a qualquer coisa que seja é argumento fraco, fraquíssimo, meus amigos. E aqui vos fala uma amante desenfreada de toda a literatura e cultura gregas. Aquém desse amor, também estou envolvida com estudos sobre a questão da democracia grega há uns bons anos e tenho muito apreço pelos estudos clássicos. E, justamente por isso, por mim, A Odisseia de Nolan seria exibida para todo o mundo, nas universidades, escolas, praças, botecos e esquinas. E seria seguida de um debate, uma conversa, levada por especialistas, estudiosos e também “gente comum”. Ilíada e Odisseia são o caldo fervido de vários povos, ou seja, são, além de objeto de estudo de gloriosos centros acadêmicos, histórias populares.
É por isso que eu sempre gosto das adaptações novas dessas histórias, que são frequentemente criticadas pela sua “falta de pureza”: dos livros de Madeline Meier aos filmes como Tróia (2004) e, agora, A Odisseia (2026). Se incorporamos elementos contemporâneos, se damos novos ares aos personagens, se inventamos uma nova forma de viver e de morrer, tudo isso faz parte. Essa é a maior prova de que “ainda somos gregos”. Não paramos de querer recontar essas histórias ao nosso próprio sabor.
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Carlos Alberto Nunes. A questão homérica. Ilíada. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.↩
As últimas notícias apontam para o achado de um manuscrito da Ilíada em uma múmia egípcia de 1600 anos, ou seja, de aproximadamente 400 d. C. Os manuscritos mais completos são da Idade Média, e datam do século X d. C. No entanto, isso não muda a argumentação que pretendo abordar no texto.↩
Pierre Judet de La Combe. Aquiles ou Ulisses? Tradução de Cecília Ciscato. São Paulo: Editora 34, 2024. p. 11↩