A vida de uma garota de 30 anos

Arar a terra, amar a terra

Fazenda


Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.1


Sonhei que uma amiga que não vejo há muitos anos me ligava para me dizer que estava muito doente. Tinha apenas mais dois meses de vida. As lágrimas jorravam dos meus olhos e escorriam pelo meu rosto de maneira quase inconsciente. Eu não conseguia entender: como assim só mais dois meses de vida? O que aconteceu? Alguma coisa deveria estar errada, algum laudo médico equivocado, algum exame mal feito. Não pode ser! Acordei assustadíssima e aos poucos percebi que já era manhã de domingo.

Na noite de sábado chorei muito, ouvi diversas músicas caipiras, estava assim em um ritmo da vida um pouco mais lento depois de ter domado um dia ansioso e agitado. Resolvi a agitação com xícara de chá de camomila, som de cortador de unhas a cortar as unhas, cobertas, livros, caminhadas para ouvir o som das ruas. Troquei o meu colchão mole por um colchão mais duro que estava guardado. A roça tem essa coisa de cama dura. O quarto está uma bagunça porque o tal do colchão duro é de solteiro e o estrado da cama é de casal. Fiz do restante do estrado o meu ninho: o preenchi com uma tábua revestida de cortiça e ali apoiei todas aquelas miudezas que compõem uma mesa de cabeceira. Tudo meio bagunçado, mas aconchegante como eu gosto2.

Depois me recordei que ontem era a noite que antecede a entrada da lua cheia em Sagitário. Notei um padrão mais recorrente do que eu imaginava: nesses dias pré-lua-cheia me sinto ansiosa e chorona. Como se tudo estivesse se desarranjando, tornando a minha vida desconfortável. Vou me ajeitando para que as coisas se encontrem novamente, e, aos poucos, passo a me sentir melhor. Sagitário é um bom signo para fincar objetivos. E, como vocês sabem, estou com várias coisas novas que necessito dar corpo. Com essa ansiedade, me senti um pouco insegura em relação a essas coisas: eu quero mesmo isso? Ou estou apenas a me forçar para querer? Depois, com essas práticas de aterramento, percebi que realmente quero. Hoje mesmo, não ia escrever para o blog. Ia levar um dia sabático. Mas fui tomar banho agorinha mesmo e, lavando os cabelos, me veio esse texto todo prontinho na minha cabeça. Enfim, Sagitário mira a flecha no objetivo e cavalga em direção a ele. Não olha para os lados, não olha para trás, não tem medo da estrada pois ali é onde ele descobre tudo o que queria ser3.

Estamos no fim do mês de maio, para ser mais precisa, no seu último dia. Já teve início a temporada geminiana, mas maio é, para mim, um mês muito taurino (talvez porque várias pessoas da minha vida são aniversariantes de maio e todas elas são taurinas; os meus geminianos são todos de junho). E, ontem mesmo, antes de dormir, reli pela enésima vez, depois de muito tempo, trechos da estreia de Hilda Hilst no universo dos poetas, presentes em Presságio – poemas primeiros. Ela mesma, uma taurina bem do comecinho (21 de abril).

Hilda tinha apenas vinte anos quando esse pequeno livro foi lançado, em 1950, pela Revista dos Tribunais4. Conheci esse livro também aos meus vinte e poucos. Fiquei obcecada com a sua obra poética e com Fluxo-Floema (1970), sua primeira prosa. Hilda tem essa capacidade de aterrar o leitor. No meio da leitura, meio que de repente, descobrimos que temos um corpo. E esse corpo é água, vísceras, sangue, órgãos, desejos, pulsações, gritos, bocas e dentes arreganhados. Esse corpo é também terra. E é também bicho.

Hilda sempre esteve rodeada de bichos, e seus poemas e prosas, seus desenhos, suas cartas e sua Casa do Sol são prova disso. E o que é engraçado é que ao ler Hilda me lembrei das coisas que estudei recentemente sobre Arqueologia e Idade do Bronze. (Eu sei, agora essa frase parece um tanto despropositada, mas o sentido dela está a caminho.) Estava cansada de ouvir falar da Idade do Bronze, de ler em algum lugar que tal coisa aconteceu na Idade do Bronze, e, ainda assim, não saber bulhufas do que aconteceu na Idade do Bronze. Afinal, que raios de Idade do Bronze foi essa que as pessoas falam como se fosse óbvia? De um modo geral eu entendia que ela era importante porque o homem tinha dominado o uso dos metais e que esse movimento revolucionário o havia retirado da Idade da Pedra. Mas eu não entendia como era a vida na Idade do Bronze, o que existia e o que não existia na Idade do Bronze, em que se acreditava na Idade do Bronze, como eram as casas, as camas, as refeições, as relações sociais, as conversas, as aspirações e os sonhos da Idade do Bronze. E sim, eu sei que muitas dessas perguntas não possuem respostas diretas. Tudo bem, eu estava somente à procura de pistas!

E foi assim que eu finalmente compreendi o que é a tal “revolução do arado”, que aprendi muito superficialmente na época do colégio. O arado foi importante porque ele aumentou a produção de alimentos e proporcionou um aumento da população etc. e tal. Mas o que eu não conseguia entender muito bem é por quais razões aquelas pessoas desejariam aquilo. Em que contexto era indicada essa necessidade? Ou se tratou o arado de uma invenção genial que rompeu com tudo o que estava estabelecido, em prol de uma vida superpopulosa para os padrões de até então? Questões que permaneceram comigo até hoje. Em breve farei outro texto sobre isso, relacionando esses questionamentos com o surgimento da metalurgia, porque, na realidade, nesse momento me interessa situar os bois. (E aqui estou imaginando esses bois no contexto do signo de Touro, da Hilda Hilst, da terra, do arado etc.)



De acordo com Gordon Childe, em O que aconteceu na história, depois de terem domesticado o gado a fim de obter carne e leite, os seres humanos tiveram a ideia de transferir para os bois as tarefas pesadas. Amarraram a eles as enxadas, antes utilizadas pelas mulheres, trazendo ao mundo o arado. Os bois são especiais para esse tipo de tarefa, pois suas costas amplas permitem a colocação de uma canga sem impedir o movimento ou a respiração dos animais. Documentos atestam o seu uso em 3.000 A.C. na Mesopotâmia e em data próxima na Índia. Por volta do ano 1.000 A.C. o arado chegou aos limites de sua difusão na antiguidade.

O arado transformou as plantações de cultivo de faixas de terra em agricultura generalizada atrelada à pecuária, libertando as mulheres do trabalho mais enfadonho. Foi preciso cultivar uma alimentação adequada para os bois (o feno), e seu esterco foi acumulado para adubar os campos. Abundância da vida. A nova força motriz foi atrelada ao uso do trenó, nas planícies poeirentas da Ásia Menor e nas neves da Europa Setentrional, e ao uso da roda como meio de transporte.

No entanto, o boi não era o animal mais adequado para o transporte de carga. O asno foi o primeiro animal utilizado para esse fim, antes do ano 3.000 A.C. Ossos de cavalos foram encontrados por volta do quarto milênio nos arredores da Mesopotâmia. É possível que o habitat natural desses animais fosse ali na região, e, mais precisamente, é possível que o oásis de Merv tenha sido o centro de sua domesticação. Os cavalos eram utilizados como alimento (carne e leite) e como transportadores de carga e puxadores de carros. Em 3.000 A.C. já existiam entalhes que representam figuras de cavaleiros. A montaria acelerava as viagens e facilitava o intercâmbio. No entanto, os equinos não eram adequados para a força de tração como os bois. Suas costas não são largas e as correias amarradas no pescoço lhes causavam uma pressão no peito, levando-os ao sufocamento. Esse incômodo causado ao animal foi resolvido somente no século IX, na Idade Média, com a invenção da coleira5.



Cavalos transportam as trocas entre os povos antigos. Os cavaleiros são seus parceiros montadores.

Vi as éguas da noite galopando entre as vinhas
E buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual à noite
E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.6



Os bois são adequados à tração, ao trabalho da terra, à luz do nascer do sol. Arar a terra, amar a terra. Libertar as mulheres do trabalho exaustivo, fornecer alimento, abundância de vida que gera mais vida. Os bois, os touros, as vacas e os ruminantes zelam pela terra, cuidam das crianças, abundam as colheitas, enriquecem os solos. São revolvidos na mansidão e no tempo da Terra. São férteis. Os equinos são mensageiros, velozes, guerreiros7.

Hilda é taurina, mas também sabe despertar os equinos. Nesse vídeo, sua amiga diz que a escritora gostava da “terapia de choque”. Quando ela via que alguém estava deixando de lado seus próprios objetivos, punha a pessoa contra a parede e falava: cê vai fazer ou não vai?


E eu estou aqui a escrever esse texto, a tomar sol e a observar uma borboleta amarela que me rodeia. Ainda hoje pretendo descansar até aquilo que não precisa mais de descanso e alongar o corpo em exercícios demorados. Para finalizar, vou assistir ao jogo de futebol da seleção brasileira, como aquecimento para a Copa do Mundo que começa em breve. Me prometi iniciar aquele projeto de pesquisa que tenho em mente e que adio há meses, mas aproveitei para adiar também por hoje. Para afastar todo o mau agouro e honrar a fé e todas as superstições, amanhã é segunda-feira e o primeiro dia do mês, seguido de uma lua cheia sagitariana. Amanhã, vai!


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  1. Hilda Hilst. IV (Presságio – poemas primeiros). Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. P. 20.

  2. Uma casa com o tom de família Weasley, de Harry Potter, sempre aquece o meu coração.

  3. Como em “Tudo o que você podia ser”, de Milton Nascimento.

  4. Apresentação in Hilda Hilst. Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. P. 10.

  5. Gordon Childe. A barbárie superior da Idade do Cobre. O que aconteceu na história. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.

  6. Hilda Hilst. I (Da noite). Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. P. 486.

  7. Como em “Jorge da Capadócia”, de Jorge Ben, que musicou uma oração para São Jorge. Minha versão preferida é a de Caetano Veloso, no álbum Qualquer coisa.