A vida de uma garota de 30 anos

Sobre o filme Vivarium, a greve na USP e novos projetos

Yonder, Vivarium

No sábado passado assisti ao filme Vivarium com a minha prima. Debaixo das cobertas e no modo dublado, porque ela não consegue prestar atenção nas legendas e nas imagens simultaneamente. Ao mesmo tempo, é claro, ela tinha que checar as mensagens que chegavam em seu aparelho celular. Do meu ponto de vista, a dublagem retira bastante a emoção do filme, porque o som original está diretamente conectado com a intenção do ator, do diretor, da produção em geral. No entanto, como se tratava mais de assistir um filme com ela do que do meu gosto, aceitei sem questionar. O filme também não é aquelas coisas, apesar de ser uma boa forma de passar o tempo no final de uma tarde fria, como era a nossa.

A premissa é simples. Um jovem casal procura por uma casa para morar em uma imobiliária. O vendedor prontamente leva os jovens para conhecer uma das casas de um condomínio. Lá, os dois ficam presos em um mundo onde tudo é igual e ninguém o habita. Todas as coisas ali são artificiais. A casa, a comida, o céu, os móveis. Não há vizinhos. No dia seguinte, um bebê chega para os recém mudados dentro de uma caixa de papelão. Um bilhete os informa que eles devem cuidar do bebê para que eles sejam libertados.

Coisas estranhas então começam a acontecer. O bebê cresce rápido demais. Se torna um garoto que aprende tudo por meio da repetição. Ele copia os gestos, as frases, a entonação, a postura daquelas pessoas, que são as únicas que conhece. O casal se divide: o homem deseja se livrar daquela criatura e a mulher desenvolve sentimentos maternais com a criança. Um dia, o homem tranca o garoto dentro do carro que os trouxe até ali e pretende matá-lo por sufocamento. Ele e a mulher brigam ferozmente. A mulher liberta a criança. (“A tristeza a gente respeita e deita fora. A tristeza, a gente respeita e, na primeira oportunidade, deita fora. É como algo descartável. Precisamos de usar mas é bom não ficar guardada.”)1 Rapidamente, o garoto cresce e se torna um jovem maior que “os pais”.

Então, o homem começa a cavar um buraco para buscar uma saída daquele local. Depois de cavar metros abaixo da terra, esbarra em um corpo enterrado. Aí, sem ainda saber, se encontra com a sua ruína. Com o garoto crescido, o casal cumpriu sua missão e pode ser libertado. Os dois serão enterrados naquele mesmo buraco ao final do dia. O jovem adulto que foi ali criado toma o lugar do vendedor na imobiliária e procura por um novo casal para continuar com a sua reprodução artificial.



As discussões que o filme suscita são várias: estaria o jovem casal fadado a viver essa vida de qualquer forma (criar uma criança em uma casa do subúrbio, totalmente idêntica às demais, e levar uma vida insossa, também idêntica às demais?)?2 Estaríamos todos presos dentro de uma vida como essa? Temos essa sensação agravada por conta da pandemia?3 Será que vivemos assim, de modo tão perturbador, claustrofóbico, estranho, surreal?

Logo depois que o filme acabou, não consegui elaborar muita coisa. Num primeiro momento, nem essas questões que coloquei acima me vieram à mente. Segui com a minha vida ordinária por um tempo. Depois, me perguntei: sobre o que é esse filme? E respondi da seguinte maneira.

Toda cópia grotesca é sustentada por algo autêntico e verdadeiro. O garoto é uma falsa vida, uma “vida inorgânica”. A vida orgânica é o leque de emoções e de possibilidades, cheio de nuances, apresentado pelos seres humanos: suas vitórias e suas derrotas. Essas emoções vão da vontade de matar aquele protótipo de vida ao desenvolvimento de um afeto pela “coisa”, das brigas ferozes ao amor que sentiram um pelo outro, do nojo da comida artificial ao prazer de sentir o cheiro do interior do carro estacionado em frente à casa, porque ele ainda carrega uma nota olfativa do mundo que existia antes. Quantas cópias grotescas alimentamos por dia com nossas ideias, pensamentos, suor, carne, sangue, enfim, com a nossa vida?

Me lembrei também do vídeo de Hayao Miyazaki, um dos fundadores do Studio Ghibli, quando apresentado para a inteligência aritificial. Não há muito o que elaborar, só vou colocar o vídeo aqui.


Dentro das contradições de seu estúdio de animação, vemos a efervescência da vida humana. Ao mesmo tempo em que os artistas trabalham exaustivamente para que A viagem de Chihiro (2000) seja lançado, Miyazaki e outros artistas cozinham lámen para todos se alimentarem. Esse jantar às 11h da noite não foi uma prática determinada previamente, surgiu da necessidade do momento e de forma espontânea entre os que ali habitam. Conhecer o outro nesse grau de exaustão, de entrega e de amor pela arte é próprio das relações humanas. Não deixemos que a cópia grotesca se torne um padrão desejável. Não deixemos que nos roubem a vida assim!!



Sobre a greve da USP

Alguns dias atrás, escrevi uma nota de rodapé dizendo que me emocionava com a adesão dos professores à greve estudantil da USP. No decorrer da semana, acompanhei as notícias e li uma nota de apoio à reitoria, assinada “pelos dirigentes da USP”, diante do "ocorrido no último Conselho Universitário".

Eu não estive presente em nenhum desses acontecimentos, muito menos no último Conselho Universitário, mas o meu “mal de socióloga” não deixa escapar algumas coisas que pesco no noticiário. No momento seguinte em que os professores apoiam os estudantes, e, cabe frisar, após desocupação com uso de violência por parte da Polícia Militar, os “dirigentes da USP” decidem fazer um pronunciamento de apoio ao reitor, e ainda utilizam o termo “magnífico”? Não pude deixar de dar um sorriso de escárnio.

Ao que tudo indica, se trata de uma reação ao impedimento do Conselho por alguns estudantes em greve, e os tais dirigentes consideram um ultraje à democracia o fato de uma minoria ter interceptado o Conselho, enquanto a maioria queria participar etc etc etc. Fica o questionamento: a minoria foi escutada em suas reivindicações até o momento? O diálogo está estabelecido com ela? O mal da democracia é imaginar que a minoria deve acatar a maioria, enquanto, na realidade, é essa minoria incômoda que mantém a democracia de fato democrática. Essa minoria que fala por si e que não reivindica se tornar maioria é a corrente pulsante da democracia. Se ela for massacrada, estaremos diante da democracia da maioria para a maioria. Nos tempos em que vivemos, e do ponto de vista eleitoral, o que importa é formar maioria. Mas é a minoria que aponta a criação de outra possibilidade.

Alguns estudantes começaram a pressionar outros para que a greve seja encerrada. Ontem, a Faculdade de Direito encerrou a greve por uma diferença de 46 votos (vejam que glória essa composição da maioria!), após a reitoria abrir grupos de trabalho para a discussão das pautas estudantis. Sabe o famoso “vô ver e te aviso”? Pois é. Vai greve e volta greve, vai ocupação e vem ocupação, e as coisas são como elas são. Sorte é a de quem viveu esses momentos em seu fervor e que agora pode, a partir disso, criar os seus rumos para uma vida outra.



Novos projetos

Pretendo aproveitar essa minha vontade de escrever tanto para me dedicar a dois outros projetos. Um deles venho adiando há meses.

Aqui para o blog, vou criar uma page separada para falar sobre mulheres (e garotas). Nela, vou agrupar os meus textos, que não devem ter caráter biográfico ou de “homenagem”, mas apresentar vislumbres de suas vidas. Quero captá-las em seus movimentos livres, em sua vida cotidiana, em seus pensamentos e criações. Uma forma de celebrar a nossa vida e suas variadas particularidades.

Para fora do blog, vou iniciar um novo projeto de pesquisa, dessa vez voltada para a arte e sua relação com os museus. Quero buscar o que se dá nesse caminho em que a arte passa da criação e para se tornar também uma forma de institucionalização da cultura por meio de sua entrada no museu. Vou focar um artista específico e sua relação com um museu específico. Enrolo há tanto tempo para fazer isso, mas agora me sinto com vontade e fôlego! Talvez isso diminua um pouco os textos do blog, mas imaginei que isso ocorreria hoje e, (veja só!), já falei pra caramba!!


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  1. Valter Hugo Mãe. O paraíso são os outros. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2018. P. 38.

  2. Como apontou Craig DiLouie em sua resenha "Vivarium (2019)", 2022. Disponível em: https://craigdilouie.com/vivarium-2019/

  3. Aspecto situado por Topazzi World. "Movie Review – Vivarium (2019)", 2020. Disponível em: https://topazziworld.com/2020/04/27/movie-review-vivarium-2019/