A vida de uma garota de 30 anos

As relíquias da Morte I

ATENÇÃO! Esse texto contém spoilers.


The cleaners are coming, one by one
You don't even want to let them start
[...]
They are knocking now upon your door
They measure the room, they know the score
They're mopping up the butcher's floor
Of your broken little hearts1


De início, todo leitor (aficionado ou não) de Harry Potter sabe que esse livro, o último da saga, trata das relíquias da Morte, apresentadas para nós por meio do conto dos três irmãos, escrito por Beedle, o Bardo. As três relíquias da Morte são a Varinha das Varinhas, a Capa da Invisibilidade e a Pedra da Ressurreição2. Como a Capa da Invisibilidade já foi extensamente trabalhada nos livros e nos filmes anteriores, no final da saga o foco fica em cima das outras duas relíquias.

Além disso, outra relação com a morte que aparece nessa reta final da saga é o desenvolvimento mais aprofundado das horcrux, os pedaços da alma de Lord Voldemort que estão espalhadas por aí, graças a uma magia macabra, na forma de objetos importantes para o vilão. O ponto auge do filme e da história é a descoberta de que o próprio Harry se tornou uma horcrux na noite em que sobreviveu à maldição da morte lançada sobre ele, ainda quando bebê.

Recentemente, reassisti aos filmes de Harry Potter visando me preparar para a série da HBO que estreará no final do ano. Já perdi as contas de quantas vezes assisti a esses filmes, mas, dessa vez, uma coisa que me pegou muito e me deixou pensando por muito tempo: a maneira pela qual a morte e a vida permeiam todo o desfecho dessa história tão amada. Nos dois últimos filmes, belíssimos, por sinal, vida e morte são uma constante. Hoje e amanhã falaremos especificamente desses dois filmes. Mas vamos por partes.


As muitas mortes

A parte um do filme As relíquias da Morte começa com três cenas muito breves.

Primeira cena: Harry Potter acorda esbaforido na casa de seus tios, mas eles estão de mudança. Os odiados Dursley são obrigados a mudar de casa depois do desenrolar dos últimos acontecimentos no mundo bruxo, a saber, a ascensão de forças mágicas que “prezam pelo sangue puro” e desejam excluir o mundo dos trouxas. Harry se despede de seus parentes e observa, pela última vez, o armário debaixo da escada, dentro do qual dormiu durante todos os brutos anos de sua infância. Morte de um modo de viver o mundo trouxa no qual Harry construiu toda a sua vida.

Mas é também o fim da proteção do feitiço por meio do qual Dumbledore vinculou a casa dos Dursley com o mundo bruxo, quando uniu o amor da mãe de Harry à sua irmã Petúnia e fez da moradia repulsiva dos tios um local de proteção contra as artes das trevas. Enquanto Harry chamasse aquele lugar de lar, ele estaria protegido. Morte da proteção, morte da casa. Harry vai, pela primeira vez, se tornar um “desterrado” pra valer.

Segunda cena: Hermione Granger, a bruxa que nasceu pai e mãe trouxas, apaga a memória de seus pais para que eles não sejam envolvidos na guerra que está por vir. Eles nunca mais se lembrarão que um dia tiveram uma filha. Morte em vida.

Terceira cena: Rony Weasley aguarda a chegada dos amigos na Toca, a casa bruxa mais amada do universo mágico. Ao mesmo tempo em que Rony olha para o céu, esperando o tempo passar, a atmosfera, o clima, o tempo nos levam a crer que este também será o fim da Toca como a conhecemos – um lugar inviolável de alegria, de reunião de amigos e amores. Morte de um mundo impenetrável.

Depois desse macabro preâmbulo, o logo da Warner, sombrio, toma conta.

Ao longo da parte 1 do filme, vemos morrer personagens importantíssimos: Edwiges, a coruja de Harry, morre para proteger seu dono nos primeiros minutos de tela, quando todos planejam a saída da casa dos Dursley rumo à Toca; Olho-Tonto Moddy morre por conta de uma traição de Mundungo Fletcher, na mesma ocasião da morte de Edwiges; Dobby, o amado elfo doméstico, morre atacado pela carniceira Belatrix Lestrange. Essas mortes são doídas e podemos chorá-las o quanto quisermos, mas elas certamente funcionam também como abertura de caminho para as outras mortes que ainda virão na segunda parte do filme: Fred Weasley, Ninfadora Tonks, Remus Lupin, Severo Snape.

Ao retornar para a que é de fato a cena inicial, logo após o logo da Warner, vemos que a morte está ali escancarada em sua forma mais brutal. Lord Voldemort está rodeado por seus comensais em uma mesa e tortura a professora de Estudos Trouxas de Hogwarts, Charity Burbage. Estão sentados ao redor da cena Draco Malfoy e Severo Snape, ambos membros da comunidade de Hogwarts e que travam contato direto com a professora no dia a dia. É ali que Draco vê a morte diante de si pela primeira vez de uma forma angustiada, apesar de compor a família Malfoy, envolvida até as tampas com as crueldades das artes das trevas. Dessa vez é diferente porque o jovem Draco, no seu último ano escolar, vê tortura, vê indiferença, vê frieza diante da vida com seus próprios olhos.

A última cena da primeira parte do filme é também uma marca central da morte: a violação do túmulo. Para pegar a Varinha das Varinhas, a varinha mais poderosa do mundo mágico, Lord Voldemort, acreditando que essa peça estava com Dumbledore, viola o túmulo do ex-diretor.


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A primeira parte do filme acaba nesse tom: morte de tudo o que é conhecido. Fim do período escolar de maneira incompleta, porque Harry, Rony e Hermione não retornarão mais para estudar em Hogwarts. Fim da Ordem da Fênix, uma vez que ela está sem sede, diluída, desarticulada e repleta de desconfianças por conta da traição de Mundungo Fletcher. Fim dos vínculos com o mundo trouxa, fim dos lugares invioláveis como Hogwarts e a Toca. Morte dos amigos, morte dos parentes, violação da própria morte por meio da tortura, da frieza, da invasão do túmulo. Morte do mundo bruxo que nos foi apresentado com tanto amor. A morte como o fim de todas as coisas.

Quais são, afinal, as suas relíquias?


Continua...




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  1. “Os higienistas estão chegando, um a um/Você nem mesmo quer deixá-los começar/Eles estão batendo na sua porta/Eles medem a sala, eles sabem o resultado/Eles estão limpando o chão do açougueiro/De seus coraçõezinhos partidos”. Nick Cave. O'Children. Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus, 2004.↩

  2. Resumindo, o conto narra a história do encontro de três irmãos com a morte. Os três viajavam por uma estrada ao anoitecer e chegaram a um rio fundo e perigoso demais para atravessar a nado. Como eram poderosos bruxos, usaram suas varinhas para criar uma ponte. No meio da travessia, se encontraram com a própria Morte, que ficou irritada por ter sido enganada. Assim, a Morte lhes ofereceu três presentes como forma de fazer uma brincadeira de inteligência. O primeiro irmão pediu a varinha mais poderosa que existisse, a Varinha das Varinhas. Matou seu inimigo com ela, e, depois de pouco tempo, foi roubado enquanto dormia e morto pela sua própria varinha. O segundo irmão pediu o poder de ressuscitar os mortos. A Morte lhe entregou a Pedra da Ressurreição. Com ela, o homem trouxe à vida a mulher que amava, com o intuito de se casar. Mas ela não fazia mais parte do mundo dos vivos, e estava sempre fria e triste. O homem se suicidou para conseguir encontrar a mulher. O terceiro irmão pediu algo com o qual conseguisse sair dali sem ser seguido pela Morte, e ela lhe ofereceu, a contragosto, um pedaço da sua própria capa – a Capa da Invisibilidade. O homem viveu por muitos anos, e só retirou a capa quando se tornou velho e pôde dá-la de presente ao seu filho. Diz a lenda que essa é a capa herdada por Harry de seu pai, já falecido, quando entrou no seu primeiro ano em Hogwarts.↩