A vida de uma garota de 30 anos

As relíquias da Morte II

ATENÇÃO! Esse texto contém spoilers.


O, children
Lift up your voice, lift up your voice
Children
Rejoice, rejoice1


Apesar do nome, não é só de morte que tratam esses filmes, porque morte e vida têm, ao longo de toda a saga, uma relação inseparável. É em meio a tantas mortes que o golden trio, como são conhecidos os três amigos Harry, Rony e Hermione, faz a si mesmo uma pergunta de ouro: enfim, como viver?


Enfim, como viver?

As horcrux, as partes do corpo de Voldemort, colocam os garotos diante de tais dilemas porque os fazem enfrentar não somente o poderoso inimigo externo, mas também, e sobretudo, seus próprios medos, seus “inimigos internos”. Peguemos o caso de Rony, que se vê nu diante de seu amigo, Harry, quando a horcrux faz emergir, diante de uma encenação horrenda, seu maior temor: Hermione e Harry formam um casal e, na sua frente, se beijam e o desprezam.

Harry vê com seus próprios olhos essa cena e, a partir desse momento, sabe que esse é o maior temor de seu melhor amigo. Como viver uma amizade depois disso? Como superar os dilemas do coração? Se os dois sobreviverem à grande batalha que se aproxima, certamente viverão uma vida na qual um conhece o outro de maneira extremamente íntima, conhece até mesmo de maneira visual os seus maiores temores. É ou não é uma forma diferente de viver? É ou não é uma amizade que suporta a verdade?

Neville Longbottom é outro personagem importante que responde à questão sobre como viver. Essa resposta aparece para nós durante sua atitude na batalha final, mas não na memorável cena em que Neville, o “amigo medroso,” é glorificado por meio do uso da espada de Gryffindor, fundador da casa da Grifinória, conhecida por abrigar somente os corajosos, e sim por meio da atitude de Neville diante da morte. Quando todos acreditam que Harry Potter está morto, Lord Voldemort começa a convocar os estudantes para o seu lado. Neville é o primeiro a se pronunciar. Afirma que Harry não morreu em vão e que essa morte será o motivo para que Neville nunca se renda aos “bruxos higienistas”.

Como viver diante de um mundo que dá por finalizado tudo aquilo que você ama? Reafirmando, a cada pequena e grande atitude, o tamanho do seu amor.

E, por fim, Harry Potter, que anteriormente havia morrido, mas somente para expulsar de dentro de si a parte de Voldemort que ali habitava, demonstra o valor da vida diante da morte. Mas não uma vida qualquer. Quando Harry se encaminha para a morte, utiliza a Pedra da Ressurreição2 não para negar a vida, mas para convocar os seus mortos, para que eles o acompanhem nesse caminho incerto. É quando aparecem, mais uma vez, seus pais, mas dessa vez acompanhados de Sirius Black e Remus Lupin.

Essa é a vida que é afirmada diante da morte – a vida que vale ser vivida por ter amado de forma incomensurável, ou, como quer Snape, outro personagem que nos ensina tanto sobre a vida e a morte na nossa viagem pelo mundo bruxo, de forma eterna.

Essas são, também, as relíquias da Morte.


O trem rumo à vida outra



Por fim, queria registrar aqui os motivos pelos quais eu amo tanto a cena desse vídeo.

Sei que esse texto pode ter ficado um pouco confuso e desconexo, mas é porque, para mim, as conexões são tantas que fica difícil traçar uma linha reta na argumentação. Além disso, essa história mexe muito com as minhas emoções, de uma maneira que só agora estou descobrindo. Talvez a conexão que eu tenho desde a infância com esses personagens, talvez as coisas que incorporei na minha vida sobre amizade, verdade, coragem, sobre se sentir diferente e incongruente em todo lugar, enfim, sobre “como viver”... talvez tudo isso me deixe um pouco à flor da pele e, consequentemente, inconclusiva, rodando em círculos.

Já escrevi e reescrevi o texto de ontem e de hoje incontáveis vezes. Nunca acho que estou lidando com as palavras da maneira adequada. Sempre percebo que poderia ter sido maior, mais clara, mais direta, menos confusa... mas o que importa é sair alguma coisa. Depois eu posso retomar quantas vezes eu quiser para ir “consertando” aquilo que nem precisa, na realidade, de reparo algum.

Enfim, vamos para a fatídica cena. Para mim é uma das maiores de todos os filmes pelos seguintes motivos.

  1. Ela aparece logo após Rony ter ficado totalmente perturbado por ficar muito tempo próximo a uma horcrux. Ele desaparece do acampamento e deixa Harry e Hermione sozinhos. Harry e Hermione ainda não sabem que Rony tem medo de perder sua amada para o amigo. Por isso, por mais que estejam na cena somente Harry e Hermione, a presença de Rony se faz sentir pela sua ausência.

  2. Harry e Hermione têm uma conexão ao longo dos filmes que o protagonista não possui com mais ninguém. Os dois se completam porque Hermione é extremamente inteligente e Harry é destemido, disposto a encarar o que vem pela frente. Os dois amigos enfrentam os maiores perigos do mundo bruxo, mas eles têm, além dessa vida comum na qual vivem juntos em Hogwarts, uma vida comum pregressa: ambos viveram, antes de se tornarem estudantes residentes do castelo, em um mundo trouxa que poucos personagens conhecem. Ambos não são bruxos completamente “puro sangue”. Nessa guerra, ambos têm um alvo gigantesco desenhado nas costas.

  3. Por isso é tão linda a execução dessa cena na ausência de Rony. Rony escutava o dia inteiro os programas de rádio para ficar atento aos nomes de bruxos desaparecidos. Ele temia pela sua família, bruxos de “sangue puro” que sempre lutaram contra essa baboseira de “sangue puro”. Quando Rony os abandona, Harry e Hermione escutam no rádio a música “O’Children”, de Nick Cave & The Bad Seeds, a única música “trouxa” de destaque em toda a saga.

  4. Harry convida Hermione para dançar ao ver a amiga cabisbaixa. Os motivos para ela estar cabisbaixa são muitos: a busca frustrante pelas horcrux, a vida em acampamentos escondidos, o fato de ela e os amigos estarem sempre correndo o risco de serem pegos por autoridades, sequestradores, seguidores de Voldemort, a ausência de Rony, o fato de ter apagado da memória de seus próprios pais que ela é a filha deles, a incerteza da vitória em uma guerra que já aniquilou muita coisa que ela ama, a convivência diária com notícias que repercutem a força daqueles que acreditam que ela é uma “sangue ruim”.

  5. Antes de iniciar os movimentos da dança, Harry retira do pescoço da amiga a horcrux, que deveria ficar com pelo menos um deles o tempo todo. Os dois amigos começam a se movimentar ao som da música, mas ambos estão um pouco travados. Aos poucos, se soltam, mas não chegam jamais a demonstrar alegria. Se trata somente de um breve alívio em meio a tudo o que estão vivendo.

  6. E quando paramos para analisar a letra dessa música... é aí que a casa cai. Se você ainda não estava com lágrimas nos olhos só pela beleza da composição da cena, é agora que você começa a pensar o quanto um filme como Harry Potter pode ser mais. Vejamos somente um trecho que aparece na cena:

Ei, trenzinho! Espere por mim!
Estive cego, mas agora vejo
Você guardou um assento para mim?
Será que é imaginação demais?3

  1. Agora, se você parar para reparar, essa música tem muitos motivos para ter sido escolhida como a única música “trouxa” de toda a saga. Se você parar para reparar, notará que ela faz muitos paralelos com a ascensão dos regimes autoritários no século XX e todos os seus efeitos. Ela cita os higienistas, ela cita os gulags, ela cita os trens cheios de gente a caminho do desconhecido (rumo à morte nos campos de extermínio ou à vida longe de todo o horror?). (Harry e Hermione se conheceram em um trem.) Ela roga para que as crianças reajam, levantem as suas vozes. Ela é um pedido de desculpas dos mais velhos para os mais novos por terem construído um mundo horrendo.

  2. Em Harry Potter e a Ordem da Fênix, Sirius Black, o padrinho de Harry, entrega para o afilhado uma fotografia da formação da primeira Ordem da Fênix. Em uma das últimas conversas antes da morte de Sirius, o temido e amado herdeiro dos Black diz para Harry que agora eles é quem são os jovens. A música se chama “O’Children”. Harry e Hermione (e todos os outros) são as crianças que herdaram esse mundo. No exato momento em que deveriam estar concluindo seus estudos na escola, os dois se veem obrigados a se preparar para uma guerra. Ao mesmo tempo, está nas mãos deles a construção de um mundo novo.

  3. É por tudo isso que a música pergunta: “Você guardou um assento para mim? Será que é imaginação demais?” Os dois amigos estão prestes a fazer o caminho para a vida outra. Estão às vésperas da grande batalha, onde sabem que vão viver em um mundo totalmente diferente ou vão morrer lutando por isso.

E eu poderia citar mais tantos outros motivos que são apenas da ordem da sensação, da emoção, mas que não cabem nas meras palavras. Essa é também a beleza dos filmes e da arte: uma cena de menos de dois minutos é capaz de nos fazer sentir emoções que demoramos anos para conseguir colocar em palavras. E, quando conseguimos, percebemos que o fazemos apenas parcamente, mesmo com tanto esforço.




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  1. “Ó, crianças/Levantem sua voz, levantem sua voz/Crianças/Alegrai-vos, alegrai-vos”. Nick Cave & The Bad Seeds. O’Children. Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus, 2004.↩

  2. Para ler sobre a Pedra da Ressurreição, ver o texto As relíquias da Morte I.↩

  3. Nick Cave & The Bad Seeds. Op. cit.↩