A vida de uma garota de 30 anos

Banda de garagem

Ontem eu estava puta da vida por inúmeras coisas. De certa forma, ainda continuo nesse clima. Ontem fechei o expediente da vida por volta das 18h. Já taquei o foda-se para o mundo e fui fazer absolutamente nada. Deitei na cama e fiquei por lá. Não quis nem ler. Comi um macarrão que tinha sobrado de dias atrás e abençoei o meu eu do passado por ter feito comida a mais e, assim, o meu eu do presente não precisou se preocupar com uma tarefa tão ordinária em um momento em que eu já estava só o “pó da rabiola”.

Nessas que deitei na cama, caí em um looping de ficar assistindo a uns YouTube Shorts, mas eles também são cansativos, não são? Então dei a sorte de reencontrar uns vídeos de uma banda com a qual eu fiquei encantada alguns meses atrás. E fiquei lá maratonando todos os covers desses quatro adolescentes dentro de uma garagem.

Alguma coisa em bandas adolescentes cura a minha alma. Não sei exatamente o quê. Talvez o fato de inconscientemente relacionar um mundo cheio de bandas a um mundo mais simples, mais verdadeiro, mais nosso. Talvez o fato de eu ter sido uma millenial bem típica, rodeada de posters dentro do quarto. Eu mesma fiz anos aula de violão que não tardaram para evoluir para aulas de guitarra. Compus algumas bandas imaginárias e outras reais, mas que logo se dissolveram em outras possibilidades. Sempre fui fascinada por música, desde os meus 5 anos de idade escuto os discos de Gilberto Gil e o louvo quase como uma crente. Apesar de não tocar com a frequência que eu fazia antes, sempre fui uma curiosa da música, dos instrumentos, das vozes. Sempre fui fã de ouvir o álbum inteiro. Sempre gostei até mesmo de programas de auditório que rodam em torno da música, como The Voice.

E tem uma coisa no mundo da música que parece meio aleatória, mas que sempre me levou às alturas: os covers. Eu simplesmente amo ver como um artista/uma banda vai se virar em cima de uma criação que não é sua. Como ele vai dar o seu toque pessoal para aquela nova versão. E como ele vai criar, em mim, uma combinação ainda inesperada, como se a análise combinatória matemática me mostrasse uma nova possibilidade de agrupamento, ainda desconhecida.

Para mim, duas coisas engrandecem um cover: 1) a capacidade de modificar um estilo, um ritmo, uma nota para se fazer fundir com o artista original; 2) quando o artista que faz o cover não altera o gênero da letra no qual a música foi escrita. Por exemplo: se uma mulher escreveu uma música de amor para um homem, e um homem faz um cover dessa música, ele tem duas opções: manter a música toda no masculino (e se declarar para um homem), ou trocar o gênero da letra só para se declarar para uma mulher. Não sei exatamente o porquê, mas acho uma coisa cafona demais quando a pessoa muda o gênero só para não cantar no gênero original. Como se cantar uma música fosse ferir algum princípio, fosse alterar a sexualidade da pessoa, fosse fazer com que ela parecesse algo que não é... sei lá. No mundo da arte, para mim, isso não cabe.

Mas voltando para as bandas de garagem adolescentes, qual foi a minha surpresa quando percebi, na noite de ontem, que esses quatro garotos, que são todos irmãos, fazem tudo isso e mais um pouco em uma garagem com uma luz quebrada piscante ao fundo? Só tem uma coisa que os diferencia dos millenial, mostrando mesmo que são representantes da já geração alpha: eles não fazem os covers completos, e vão embora com apenas 1 minuto de música completo. Nos deixam com aquele gostinho de quero mais. Mas, diante de tantas coisas boas, decidi que cabe a mim, milennial, também acolher o que vem do lado deles.

Escolhi os três covers que mais gostei deles, por todos os fatores que elenquei acima. Além disso, não posso deixar de pensar que a correia quadriculada da guitarra, bem no estilo emo dos anos 2000, o moletom da Hello Kitty e a originalidade de cada um desses pequenos, mas já grandes talentos... que tudo isso também pode ter colaborado para curar alguma coisa em mim, afastando um pouco da raiva que eu sentia no dia de ontem. Os três estilos são bem diferentes, para vocês verem bem como eles são capazes de deixar uma marca própria em cada estilo, mas também de se apropriar de tanta coisa que já é boa. Vejam vocês mesmos que personalidade!!






Quer comentar esse texto? Dê um alô no Guestbook do blog.


Anterior