A vida de uma garota de 30 anos

Borocoxô

Nós gargalhamos daquelas coisinhas mimadas, de tanto desprezo que sentimos delas! Quando você ia me pegar cobiçando aquilo que Catherine desejava? Quando você ia nos encontrar sozinhos, gritando, soluçando e rolando no chão, um em cada ponta da sala? Nem por mil vidas [...] 1


Hoje estou meio borocoxô por aqui. Na realidade, não é nem só hoje, e não é nem borocoxô. Apenas estou ansiando, nos últimos dias, por um silêncio eterno, por um não ter que responder a ninguém. Não sei exatamente o porquê disso tudo. Não fico a fim de muita coisa, não me sinto na obrigação de quase nada.

As pessoas, em geral, me cansam (mas quando é que elas não me cansaram?). Eu sou grande admiradora das pessoas ao longe. Mas, perto de mim, pouquíssimas não me geram algum tipo de incômodo, revolta, repulsa.

Minha psicóloga não pôde fazer a sessão na sexta de tarde, como sempre fazemos, e acabei conversando com ela ontem mesmo, no período da manhã. É muito bom ter clareza diante dos nossos processos e das nossas dores – mas será que eu queria mesmo entrar em contato com tudo isso às 10h da manhã do dia de ontem? Não sei.

Para mim a terapia é sempre uma surpresa. Mesmo quando eu penso sobre o que eu quero falar inicialmente, deixo que a coisa flua sozinha depois de um tempo. Não sei muito o que vai sair de mim quando estou conversando com ela. Isso é bom, eu acho. Me permito dizer o que penso na hora, quando vamos desenvolvendo juntas a conversa.

Há algumas sessões ela tem me falado sobre o podcast do Gregório Duvivier e do João Vicente, o Não importa. Eu não sou muito fã de nenhum dos dois, e nem mesmo acompanho muita coisa sobre eles. Mas isso “não importa”, porque o que ela queria é que eu visse como se dá uma conversa entre amigos em que os dois estão confortáveis para transitar entre assuntos bobos e sérios. Ela queria saber se eu tenho no meu dia a dia esse tipo de conversa com alguém. Assisti a alguns episódios e achei até certa graça. Me diverti com algumas bobeiras, outras coisas acabei por relevar. Mas é... não tenho alguém com que eu converse assim cotidianamente na minha vida. São raras as ocasiões em que encontro alguém com quem crio esse tipo de “intimidade”.

Tenho pessoas que amo muito, amo profundamente, amo de verdade até hoje, mesmo que nunca mais tenhamos nos falado. Por brigas, por afastamentos naturais, por mortes ou simplesmente porque as mensagens não foram respondidas nunca mais.

Ontem fiquei esgotada emocionalmente lá pelas 11h, no final da sessão de terapia. Não que isso seja ruim, mas é que muitas coisas voltaram à minha mente, coisas que não necessariamente têm a ver com essas que escrevo aqui agora.

Trabalhei durante a tarde e, no fim do dia, não sabia o que queria fazer. Aproveitei que tinha renovado a minha assinatura da HBO e coloquei para passar O morro dos ventos uivantes (2026), filme que fiquei com preguiça de ir ver no cinema por conta de toda a polêmica que ele despertou por aí.

Acho que ele tem pontos fortes e pontos fracos. Amo de paixão esse livro, de uma forma meio inexplicável – não só pela estrutura que a autora adotou (que já é, por si só, incrível), mas pelos personagens, sua densidade, a forma pela qual é revelada a violência na qual estão sempre imersos. No filme, tudo isso foi transformado em uma questão de traição, obscuridade, fetiche ou pompa à la Salvador Dalí. Tudo bem, é adaptação. Mas em Emily Brontë essa violência é bem mais embaixo, mais real, mais “sincera”. Enfim, não quero falar muito sobre esse filme agora. Depois, se eu quiser, posso fazer um texto sobre o livro e, quem sabe, também sobre o filme.

Só queria deixar registrado que, mesmo com toda essa “falta de sintonia” entre o texto e a tela, acabei chorando bastante com a história desses dois personagens tão apaixonados, contraditórios, difíceis. É raro conhecer alguém que ama Catherine e Heathcliff pelo que eles são.

Agora pensando enquanto escrevo: acho que estou ansiando, para acompanhar esse silêncio eterno, por um pouco de vento nos cabelos, de uns morros, de uma companhia de verdade. Daquelas que se faz enquanto a gente fala, sim, mas principalmente durante o silêncio.


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  1. Fala que Heathcliff dirige a Nelly, uma das muitas em que tenta explicar para os outros a natureza de sua relação com Catherine. Emily Brontë. O morro dos ventos uivantes. Tradução de Lídia Rogatto. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2021. p. 105.