A vida de uma garota de 30 anos

Mulheres e homens que escrevem

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Tilda Swinton como Orlando, no filme de 1992, adaptação de Orlando (1928), de Virginia Woolf.



Em seu último livro lançado no Brasil, Olga Tokarczuk discute sobre as diferenças entre a autoria masculina e feminina. Esse é o tipo de questão que vira e mexe se movimenta dentro da minha cabeça.

Como Virginia Woolf, penso que não há uma separação total entre os sexos: “as grandes mentes são andróginas”1. Isso porque “é fatal ser um homem ou uma mulher pura e simplesmente; é preciso ser feminil-masculino ou másculo-feminino”2.

Mas, mesmo que essa seja a minha perspectiva em relação ao que eu penso e admiro, vemos que há sim toda uma gama de nuances e de violências marcadas pelo gênero e pelos sexos, que, com certeza, podem refletir também na forma que cada um escreve. E, mesmo que um homem tenha a sua parcela de mulher, e uma mulher tenha a sua parcela de homem, a sociedade nos trata, na grande maioria das vezes, como uma coisa ou outra.

Assim, nunca deixei de reparar em um fato curioso e que me saltou aos olhos ainda mais depois de escrever o texto sobre Mary Shelley e seus parceiros de vida.

O poeta Percy Shelley, seu companheiro, é conhecido por aí como “o Shelley”. Já Mary Shelley é sempre Mary e, depois, Shelley. Quase ninguém diz “a Shelley” como uma coisa natural.

Poderíamos aqui gastar a tinta escrevendo que isso é consequência do nosso machismo de hoje e de ontem, que as mulheres, por herdarem os sobrenomes dos homens, precisam ser “especificadas”, porque aquele sobrenome não designa exatamente quem elas são, mas de quem elas são “propriedade”. Poderíamos também destacar outros casais famosos na literatura, como Zelda e Francis Scott Fitzgerald. Ele, o Fizgerald. Ela, a Zelda, esposa do tal do Fitzgerald. Ambos, escritores maravilhosos.

Poderíamos também ressaltar a grandeza de Sylvia Plath, associada por quase todos os seus biógrafos e admiradores a um casamento infeliz e reduzida, algumas vezes, à sua “vida de esposa”. Mas vejam como ela, ainda assim, se recusou a mudar seu nome para Sylvia Hughes depois de se casar com o então famosíssimo poeta Ted Hughes. O impacto de Sylvia Plath é, hoje, muito maior do que o de seu marido.

E, ainda, diríamos que Virginia Woolf roubou o sobrenome de Leonard para si – e ninguém associa mais este sobrenome a ele, e sim à autora que aproveitou para surrupiar também o coração de inúmeros leitores ao redor do planeta.

Mas percebam que ainda que existam essas variadas histórias de nomes e sobrenomes, nunca chamamos as mulheres apenas pelo sobrenome, como fazemos em muitos casos com os homens. Kafka, Dostoiévski, Tolstói, Dickens, Baudelaire, Poe e tantos outros... esses caras não precisam de nome. Quando vamos para os ramos da Filosofia e das ciências em geral, vemos menos nomes ainda. Não chega até a ser um tanto engraçado pensar que um tal de Descartes era chamado pelos seus íntimos de René?3

As mulheres, ao contrário, raramente são reconhecidas apenas pelo seu sobrenome e são, majoritariamente, identificadas por nome e sobrenome, como é o caso de todas as que citei acima.

Agora, deixando de lado o machismo e pensando um pouco por outro caminho (vocês sabem que eu gosto de inverter um pouco as coisas), interpreto isso como uma forma de carinho. Sabem por quê?

Muitas e muitas vezes, quando nos aproximamos dessas escritoras em nossas leituras, passamos a nos referir a elas apenas pelo seu nome. A Clarice? Todo mundo sabe que é a Lispector. A Virginia? Woolf. Hilda? Hilst. Mary, Zelda, Sylvia... E, assim, nos acostumamos com esses nomes tão comuns que poderiam ser também o nosso próprio nome. Seguindo essa vida comum, penso que elas são muito mais do que escritoras, pensadoras, sábias, estudiosas, cientistas. São pessoas de carne e osso, são filhas, mães, primas, tias, namoradas, avós, vizinhas; ficam felizes e tristes, são risonhas, sérias, invocadas, espalhafatosas, contidas, brilhantes. Têm personalidade! São, enfim, as minhas amigas.



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  1. Retirei essa citação do livro de Virginia, mas ela é de Coleridge. Nesse caso, Virginia busca estender esse pensamento do autor e tece algumas boas páginas sobre esse assunto. Virginia Woolf. Um teto todo seu. Tradução de Bia Nunes de Sousa. São Paulo: Tordesilhas, 2014. p. 139.

  2. Essa já é totalmente de Virginia. Op. cit. p. 146.

  3. Aqui, destaco um caso interessante que é o de Machado de Assis. Como as mulheres, é comum ser reconhecido apenas por “Machado”, e ninguém sai por aí falando que leu Dom Casumurro, do autor “de Assis”. Coisa semelhante acontece na Sociologia com o grandioso Florestan Fernandes, conhecido por muitos apenas como Florestan.