Contato
Dormi e acordei com Sérgio Buarque de Holanda. Estou relendo o clássico Raízes do Brasil para o projeto de pesquisa e a leitura está entusiasmada. Acordei, fiz o meu café, montei o meu pão com queijo branco e adiantei a leitura do primeiro capítulo. Holanda explica que a cultura ibérica dá uma enorme importância para o valor próprio de cada pessoa humana, de cada um dos homens em relação ao tempo e ao espaço; ou seja, considera toda forma de relação impessoal como externa, incômoda, coercitiva. A base dessa organização social – se assim podemos chamá-la – se dá nas relações pessoais, no convívio doméstico e nos amigos. A política e a sociedade são vistas a partir dessa perspectiva, e não é da alçada de sua compreensão uma regra geral e impessoal.
A própria nobreza, que em outros países é símbolo de enorme distinção social, em Portugal, se caracteriza por uma aproximação com o povo comum. A mobilidade social é algo muito mais frequente do que em todo o interior da Europa, que foi dominado pelo regime feudal. Todo qualquer em Portugal é um fidalgo, “cedo não há de haver vilão: todos d’el-Rei, todos d’el-Rei”1. Isso, junto com muito mais, culminará na famosa elaboração do “homem cordial” que conhecemos popularmente como “jeitinho brasileiro”. Porém, o problema “brasileiro” vem de um buraco que fica muito mais embaixo, ou melhor, mais distante: vem de lá do outro lado do Atlântico...
Dormi e acordei com Holanda mas pensei bastante em Darcy Ribeiro e no livro O povo brasileiro que há tantos e tantos anos adio a leitura. Para o projeto de pesquisa, creio que será interessante ler o capítulo “O Brasil caipira”. Estou me enfiando nessas coisas do caipira – coisas que sempre tive muito apreço e até conexão emocional, mas nunca estudei a fundo. Na faculdade, o meu forte nunca foi sociologia brasileira. Admito que estudei muito e até tirei boas notas, mas mesmo assim sentia que não compreendia nada. Tudo aquilo me parecia uma teorização qualquer porque não era um raciocínio que fazia sentido dentro da minha cabeça. Naquela época, aprendi mais sobre o Brasil vivendo e ouvindo os cantores da Tropicália. Hoje me sinto mais preparada para esse tipo de leitura, e me admiro com a compreensão quase absoluta que esses pensadores tiveram sobre as condições desse país tão difícil.
Não sei por que eu sempre achei O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, extremamente caro quando comparado com os demais clássicos – talvez porque eu mesma não avaliasse o seu valor de forma correta. Então, ontem de noite fiz uma pesquisa e constatei que deveria reservar cerca de 55 reais para comprá-lo. Hoje cedo, achei uma promoção por 47 reais e já achei bom negócio, mesmo que a diferença não seja tanta. Afinal, essa leitura será aproveitada e, sendo assim, as coisas têm o seu preço. Quando fui comprar o livro na internet, pensei que não escreveria hoje para o blog. E imaginei que, como eu tiraria uma folguinha, seria interessante estudar um pouco sobre como montar um Guestbook, porque já vi em outros blogs por aí e achei uma ferramenta interessante.
Enquanto tentava lidar com os códigos de CSS e pesquisava o melhor site para o Guestbook (eu evidentemente não sou da área, então nem sei se isso que estou dizendo faz sentido), meu pai recebeu uma ligação da minha prima. Ela disse que meu tio está muito mal, internado no hospital com pneumonia. Ele já está bem velhinho, e tacitamente todos já imaginam que aquele derradeiro momento se aproxima. Ela falou que ficou sem saber ao certo se deveria informar as pessoas sobre o estado atual, mas que achou melhor ligar para contar o ocorrido. Também acho que assim é melhor, o contato é bom para tirar o peso de cima dela. Estar junto é bom também por isso. Outra pessoa que vive aquela situação com você: às vezes só isso já basta.
Então pensei: que coisa louca é a vida; cá estou eu a montar um Guestbook, me virando com o que tenho, para poder entrar em contato com vocês. A minha prima entra em contato para falar da saúde do meu tio. Nesse exato momento em que digito isso, ouço a televisão ao longe informar que Wesley, o lateral direito, foi cortado da Copa do Mundo por conta de uma lesão na perna esquerda. Saiu mancando do campo no primeiro tempo do jogo de ontem, não suportava o contato com o chão.
Ontem, antes de pensar em Darcy ou em Sérgio Buarque – que fazem de certo tipo de “contato” um tema brasileiro – assisti aos amistosos do Brasil e da Argentina. A seleção brasileira fez um jogo frio, sem fogo, distante (com ressalvas para alguns jogadores do time reserva que demonstram ter mais vontade de fazer acontecer do que os do time titular – Alô, Ancelotti! Troca esse time!!); erro do zagueiro Marquinhos, que estava com a cabeça em outro lugar, e flagrante desentendimento entre ele e Casemiro: falta de contato. A seleção argentina aproveitou o amistoso para introduzir em seu time os jovens jogadores do futuro ao som de uma torcida que clamava ensandecida pela entrada de Lionel Messi: vontade de contato. Os argentinos ganharam sem fazer esforço e, ainda por cima, tomaram 4 cartões amarelos depois de inúmeras catimbadas no jogo contra (uau!) Honduras. Jogo de contato, de força física, de vontade, de adoração; o prato cheio do amor pelo futebol, mesmo em uma partida qualquer que não vale nada. Denílson, pentacampeão e agora comentarista da rede Globo, disse, na transmissão do jogo contra o Egito, que o Brasil não precisava dar tudo de si porque se tratava de um amistoso. A Argentina catimbou até no jogo contra Honduras, no amistoso. Imaginem o tamanho da vontade desse povo!!
Enfim, consegui montar o Guestbook no meio do meu enlace que pensa e imagina o Brasil sociológico e o Brasil do futebol – acompanhado dos inesperados, mas sempre presentes, descaminhos da vida. Se te apetecer, deixa uma mensagem lá! Dá um palpite pro próximo jogo do Brasil, na estreia contra o Marrocos. É só clicar em Guestbook (aqui mesmo ou no menu acima).
Ah! E já ia me esquecendo: para todos os que tentaram contato comigo via e-mail nos últimos dias, peço desculpas. Eu realmente não chequei a minha caixa de entrada porque genuinamente não imaginei que fosse encontrar mensagens por lá. Erro meu. Recebi palavras muito carinhosas. Agradeço a paciência e vou me esforçar para respondê-los em breve, pois, como vocês viram, o contato entre nós e a vida, às vezes, é também faltoso! Tomara que a próxima falta seja dentro da área. Aí pelo menos podemos torcer para marcarmos no pênalti. No cantinho, pra não ter como o goleiro pegar. Golaço.
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Sérgio Buarque de Holanda. Fronteiras da Europa. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.↩