Spirit (2002) não é um filme triste
Problemáticas geopolíticas e econômicas à parte, preciso admitir que tenho certo fascínio pela história dos Estados Unidos desde a época da faculdade. Nas aulas de Antropologia, conheci Enterrem meu coração na curva do rio, de Dee Brown; nas aulas de Política, estudei profundamente a Declaração de Independência dos Estados Unidos e a Guerra Civil Americana; conheci suas grandes figuras históricas, de Lincoln a Thoreau e John Brown. No meio do caminho, me encantei pela literatura de Herman Melville, Scott Fitzgerald, Edgar Allan Poe, Sylvia Plath e Paul Auster e, para falar de coisas menos sérias, me diverti muito lendo Vermelho, branco e sangue azul, de Casey McQuiston, e fico feliz quando escuto Party in the USA, de Miley Cyrus. A Copa do Mundo FIFA que se aproxima terá os Estados Unidos como um dos países-sede, em meio a muitas questões complicadas que vão do que chamam de “Guerra do Irã” às novas ameaças tarifárias ao Brasil. No entanto, deixemos o noticiário de lado. Analisemos que tipo de obra de arte esse país permite criar.
Sempre fui alertada sobre a tristeza do filme Spirit. Entendo que, quando crianças, de uma maneira mais forte, mas até mesmo quando adultos, nos chocamos com algumas cenas de violência que são perpetradas contra o corcel por parte dos “desbravadores americanos”. É realmente de partir o coração. Mas confesso que fiquei impressionada com o final do filme, onde tudo dá certo! Eu já estava preparada para a morte de Chuva, a companheira de Spirit, e de sua mãe – ou, ainda pior, estava preparada para a morte de toda aquela comunidade de cavalos selvagens da qual Spirit faz parte. De tanto que me disseram que esse filme era triste, eu já estava preparada para o pior. E o pior não veio. No final, até mesmo Chuva, que tem um ferimento grave e se despede de seus companheiros a caminho da morte, sobrevive, e aparece forte, saudável e integrada à vida selvagem. Maravilha.
Spirit demonstra a força do indígena e do selvagem na construção dos Estados Unidos, mesmo que eles tenham sido violentados de inúmeras formas por aqueles que se arrogam como criadores do país. E faz isso com a maestria de uma animação que fala do ponto de vista da vida animal. Demonstra, na relação delicada e intrincada de Pequeno Rio (Little Creek) com Spirit, que a amizade selvagem é feita de aliança, e não de domínio. Spirit: o corcel indomável se soma a uma série de artistas e pensadores estadunidenses que concebem na ideia de “natureza” ou na sua vivência selvagem o ponto de partida para imaginar uma vida comunitária. Muito diferentemente dos contemporâneos de outros países, os pensadores estadunidenses, como Mark Twain, Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau, Louisa May Alcott, Jack London e Walt Whitman, são criadores de uma literatura que faz nascer o homem e a dita “civilidade” junto do que eles chamam de natureza, e não contra ela.
Os efeitos dessa literatura, a maneira como foi incorporada ao “orgulho americano” ou aos programas neoliberais de governo pouco tem a ver com suas ideias e propostas. Essas figuras fizeram dos Estados Unidos paisagem de terra fértil, livre e selvagem para os homens, as mulheres e a vida natural. Como sabiamente disse Thoreau, em 1849: “o melhor governo é o que menos governa”. Mas não para por aí, e vai adiante: “o melhor governo é o que absolutamente não governa”1. Spirit reforça essa tradição estadunidense que escancara que a liberdade não tem relação nenhuma com o governo – seja ele qual for.

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Henry David Thoreau. A desobediência civil. Tradução de José Geral Couto. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.↩