Fora da ordem
Estou de pé em cima
Do monte de imundo
Lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio
No esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela
Do garoto de frete
Do Trianon
Eu sei o que é bom1
Cenário
O lixo mais pérfido da ordem mundial. Como diz o poeta: “aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína”2. O palco, dessa vez, não é pra “inglês ver”, mas para estadunidense se sentir assim “uma coisa extraordinária”. São eles que ditam a ordem, o que pode e o que não pode, quem pode existir e quem não pode existir, o que é o bem e o que é o mal. Mas esse é só o palco. O que acontece ali está longe deles. Nunca serão os artistas da bola. Sempre foram, no máximo, ávidos espectadores, famintos por coisa boa de verdade, como se soubessem, inconscientemente, que não são capazes de produzir aquilo com suas próprias mãos. A performance nunca é a arte. Não à toa, importaram Pelé e, agora, Lionel Messi, já no fim de suas carreiras. Querem também se sentir parte do deslumbre. Querem também dizer: “eu sei o que é bom”.
Em campo
Em campo: Cabo Verde, a força do sonho. Argentina, a força do real. Elas se encontram no imaginário.
O que imaginamos do futebol nunca mais será a mesma coisa depois da obra de arte produzida a muitos pés na noite de ontem. A estreante Cabo Verde, sangue jovem correndo nas veias, vontade de menino, olhos da experiência. A histórica Argentina com a pompa de sempre, mas dessa vez, com certa “razão”: dizem que não vieram para conquistar a taça, mas para defender o que já é seu.

O problema desse tipo de pensamento que está na cabeça dos argentinos é que ele te leva a imaginar que tudo já está ganho. Depois do gol de Messi, aos 29 minutos do primeiro tempo, os argentinos se acomodaram. Começaram a desfazer as malas nos seus quartos de hotel, colocar as roupas nos guarda-roupas, se esparramar lentamente nos saguões de entrada, enfim, começaram a fazer dos Estados Unidos a sua casa. E, em casa, a gente fica muito à vontade. A Argentina estava jogando de pijamas. Cabo Verde não queria saber de mordomia. Queria ganhar. Gol de Deroy Duarte, na volta do intervalo, aos 59 minutos.
Argentinos atônitos. Esqueceram de jogar bola? A seleção estava preguiçosa, lenta. Até a torcida, conhecida por fazer de cada estádio uma cancha, parecia querer descansar. A verdade é que a Argentina foi para o jogo achando que era o seu dia de folga. Topou com outra coisa. Era possível sentir aqui da televisão da minha casa tal desarranjo das coisas, tal desconforto se delineando. O ar foi ficando pesado. A torcida mais barulhenta da Copa estava em silêncio, prendendo a respiração. A transmissão captava torcedores da Albiceleste em puro choro de emoções confusas: não era berreiro de vitória, não eram lágrimas de desespero, era outra coisa.
Prorrogação
No reinício do jogo, Lisandro Martínez marca para a Argentina e, mesmo assim, nada parecia resolvido. Será que o cansaço era apenas físico? Ou era mais o emocional de quem pensa que vai ser fácil e descobre, de repente, que não é? Os jogadores argentinos pareciam viver uma situação que todos nós já vivemos algum dia na vida: aceitamos um trabalho porque, na primeira conversa, nos prometem que tudo vai ser muito fácil, que temos todas as habilidades para fazer funcionar. Nos dão todas as garantias. E, quando chegamos lá, percebemos que nos metemos numa fria. Cabo Verde, trabalho duro. Gol magnífico, esplendoroso. Nem Messi faria um desses nesse jogo. Com 23 anos de idade, o jovem Sidny Lopes Cabral marcou talvez aquele que será considerado o gol mais bonito da Copa do Mundo de 2026.
E foi nesse momento que tudo aquilo que parecia que ia acontecer começou, de fato, a acontecer. Sabe aquela tensão no ar da qual falei dois parágrafos acima? Pois é. Romperam-se todos os protocolos. Todos os papeis foram rasgados, tudo que é dito como certo já não era mais tão certo assim, tudo que era errado ganhou outro valor. Virou delírio. Sidny Lopes Cabral, como que sabendo do tamanho de seu ato histórico, invadiu a arquibancada da torcida para abraçar a sua amada depois do seu gol lindo. Coisa que só o amor produz. Ninguém entendeu nada. Torcedores o cercaram sem saber o que fazer. A câmera não sabia o que esperar. Os jogadores amigos o recolheram para dentro do campo. Não ganhou sequer uma advertência do juiz, cartão amarelo, nada. Já não era futebol, era futebol se tornando outra coisa.
Sonho (2) x (2) Real
Em determinado momento, o narrador Luizinho e seu amigo Casemiro teceram comentários que revelam a estranheza do que estava sendo produzido. Luizinho afirmou: “eu já não entendo mais nada de impedimento: é paralaxe, é semiautomático”. Ninguém mais sabia de nada. Luizinho perguntou: “o Sidny não vai tomar cartão amarelo depois de tudo isso que aconteceu?” Casemiro respondeu: “tem coisa que não vale a regra”.
Tem coisa que parece desatino, alucinação, miragem.
No final do jogo, os argentinos estavam estropiados. Não aguentavam ficar em pé. Enzo Fernández, que não podia ser substituído porque a Argentina, no seu esbanjamento inicial, não quis poupar, parecia à beira de um desmaio em campo. O cérebro já não funcionava mais. Câimbras para todos os lados. O nariz de Nicolás Tagliafico começou a sangrar. Trocou de camisa correndo, no desespero. Enfiou um papel higiênico dentro das narinas e voltou para o campo, pois Cabo Verde já estava no ataque. Não teve protocolo, não teve 1 minuto de espera, não teve sequer estancamento do sangue. É, “tem coisa que não vale a regra”. Vitória da Argentina por conta do pé esquerdo de Lionel Messi, que cruzou, do escanteio, uma bola abençoada na cabeça de Cuti Romero, no final da prorrogação.
Apito final. Jogadores de Cabo Verde choraram copiosamente, alguns nos colos de mulheres e de crianças. Choraram como garotos. Argentinos não tinham forças nem para comemorar. Messi ainda deu um pique para correr atrás da bola aos 122 minutos de jogo, enquanto seus companheiros se arrastavam em campo e produziam passes absurdos. Saiu ovacionado do estádio, com o punho erguido. Com a sua experiência, sabe muito bem o tamanho da luta. No túnel, mais leve, tira a camisa e esboça um sorriso. É sempre um prazer encontrar um adversário à altura.

Em toda a sua história no maior campeonato de futebol do mundo, a “pequena” seleção de Cabo Verde perdeu só para a atual campeã mundial. O sonho continua enorme. E o real? O real ainda terá que desdobrar todas essas camadas de delírio que nele foram introduzidas. O futebol é um jogo com regras, como qualquer outro. Mas quando entra em campo o sublime, tudo fica meio fora da ordem.
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