Guerreiras fortes e... lindas
O time feminino do São Paulo Futebol Clube comemorou, na tarde de ontem, um feito histórico. Ganhou do Corinthians na casa das rivais – coisa inédita para qualquer time do Brasil. Nunca ninguém tinha ganhado das brabas dentro do seu território. Hoje, só as soberanas. Os dois times jogaram bem a partida, mas ironicamente o São Paulo se manteve mais fiel à sua ideia, enquanto o Corinthians pareceu vacilar em suas propostas. Apesar do grandioso passo, ainda temos o jogo da volta no Morumbi e é só lá que descobriremos quem são as atuais campeãs brasileiras.
Por falar em Brasil, ao assistir ao jogo penso que podemos ficar empolgados com a seleção brasileira feminina na Copa do Mundo de 2027. Ontem: a melhor defesa contra o melhor ataque. Sobressaiu a defesa. Carlinha (goleira) e Tayla (zagueira e capitã), fortalezas do tricolor, vão enfrentar a Argentina no amistoso no mês que vem ao lado de Duda Sampaio, Jaqueline e Jhonson, articulação e ataque do timão. Na seleção, torcemos para que sobressaia o ataque.
É mesmo um assombro constatar a força dessas mulheres: física, emocional e até espiritual – afinal, defender qualquer um desses dois escudos não é tarefa simples. Mas também é notável, em meio à tanta garra, a beleza do futebol feminino e a sua diferença com o futebol masculino.
No jogo de ontem, tomado de emoção, um torcedor corinthiano mostrou enfaticamente os dois dedos do meio para uma jogadora do São Paulo que cometeu um erro e se desequilibrou na beira do gramado, deixando a bola sair em lateral para o Corinthians. Em um jogo de futebol masculino, é com isso que estamos acostumados. Imagino que esse ato passaria até despercebido. Mas, em campo feminino, esse gesto se torna um pouco estranho, deslocado. Soa desproporcional, violento, exageradamente precoce.
É porque o futebol feminino pratica um futebol diferente do masculino – e aqui não digo isso a fim de uma divisão dos sexos, mas a fim de destacar também que as diferenças fazem parte de certa saúde da vida. Meu sonho seriam campeonatos mistos: já pensaram nessa possibilidade? Seria uma loucura e uma delícia sem tamanho!
Quem acompanhou a Copa do Mundo feminina de 2023, que foi a primeira da modalidade na qual todos os jogos foram transmitidos no Brasil de forma aberta, sabe que a coisa ali é diferente. As meninas querem jogar. A beleza nasce disso: nenhuma delas está ali para ser bilionária ou famosa, uma vez que sabem que a realidade é outra. Ninguém escolhe ser jogador de futebol (garoto ou garota) pensando exclusivamente no dinheiro ou no reconhecimento internacional, mas, no caso das meninas, elas sabem que isso é talvez uma conquista impossível. Então jogam porque querem jogar. Jogam porque querem amar esse jogo. E isso fica estampado no rosto delas.
Por isso, destoa qualquer tipo de falta para machucar, qualquer forma de torcer que não seja para amar, qualquer forma de jogar que não seja para vencer. Não pensem que ao dizer isso eu concluo que os jogos não são pegados, que não tem discussão, que não tem gritaria. É claro que há. Mas de um tipo diverso: o inimigo em comum, afinal de contas, foi a proibição do futebol para mulheres ao longo de muitos e muitos anos, em inúmeros países. Hoje, quase todas têm a possibilidade de jogar, nem que seja como brincadeira de criança. Que esplendor!
A beleza está nessa força coletiva e nesse show de futebol. Mas está também nos cabelos que correm soltos para comemorar os gols, nos penteados que chamam atenção, nos sorrisos das garotas que se misturam com as rugas das experientes craques. É claro que elas não estão lá para isso, mas não é difícil notar como elas são, além de guerreiras fortes... lindas.
Quer comentar esse texto? Dê um alô no Guestbook do blog.
- Para escrever para mim, clique aqui. Caso aguarde uma resposta, verifique também a sua caixa de spam.