Sobre escrever ficção
Bom, é isso. Comecei a escrever ficção. Algo com o que sonho desde que sou muito menina, mas nunca me senti assim dona de uma história a ser escrita. Hoje, sinto que tenho uma história para contar. Talvez até mais de uma. Aos 24 anos, em março de 1920, o jovem Francis Scott Fitzgerald publicava seu primeiro romance, Este lado do paraíso. Na página que precede o início do texto propriamente dito, o autor nos deixa uma breve justificativa: “Escrevê-lo me custou três meses; concebê-lo, três minutos; reunir os dados nele utilizados, toda a minha vida”1.
Não digo que concebi a história que pretendo contar em três minutos, mas sei que, desde quando comecei a vivê-la, pensei, dentro de mim e comigo mesma: um dia vou escrever um livro sobre isso. E fiquei com aquilo na cabeça desde sempre, num vai e vem meio inconstante. Depois de enfiar essa história no fundo das minhas gavetas mal iluminadas e deixá-la sufocar por uns bons anos, percebo que talvez seja a hora de fazê-la respirar.
Não sei ainda o quanto quero expor do texto em si aqui no blog, apesar de entender que tal exposição poderia, em certa medida, me motivar a continuar escrevendo. No entanto, motivação meio que não é muito o meu problema e, no momento, sofro do mal de Sylvia Plath: tudo ainda me soa extremamente pessoal. Ou será que sou eu que, por ter vivido essa história, sempre vou associá-la a mim e a tantas outras coisas que me são caras que o leitor, que a vê de fora, jamais terá a menor ideia e, justamente por isso, ela sempre me soe pessoal? Afinal, como Fitzgerald, eu também reuni dados que pretendo utilizar durante toda a minha vida.
Essas são respostas que poderemos encontrar depois de desbravar alguns caminhos, que certamente serão abertos somente por meio do trabalho árduo. “Portanto, pense e trabalhe, pense e trabalhe.”2 Enquanto estamos ainda nos aquecendo, deixemos estar.
Admito para vocês que, inicialmente, me vejo expondo aqui no blog mais sobre o processo de escrever esse tipo de texto e menos o resultado em si. Porque eu mesma ainda não sei se quero que alguém leia esse livro, ainda mais sabendo que ele está em um estado tão cru. Quem sabe mais para frente eu mude de ideia e busque, em um devaneio, publicá-lo. Sonhar nunca é problema quando nos arvoramos nas miragens oníricas para agir em alguma direção.
A primeira coisa que pensei em compartilhar aqui no blog são as minhas influências. Eu amo muitos autores e suas obras, e disso vocês já sabem. Mas ser amado e ser útil são coisas totalmente diferentes. Então, por mais que as coisas que a gente ama nos formem, de vez em quando é preciso escolher de forma prática. Quais são, portanto, os autores e os pedaços de suas obras que me influenciaram a pensar em uma moldura para o meu texto que ainda está por ser feito?
As ondas (1931), de Virginia Woolf
Desse livro que é, para mim, a obra máxima de Virginia, busco apreender principalmente a forma pela qual ela conta uma história enlaçando diversas vozes. Ali, passamos pela vida inteira de seis personagens diferentes, com narrativas intercaladas. Nem sempre é explícito quem diz o quê. E não é como se fosse a mesma história contada por diversos pontos de vista, mas a construção de uma história que é contada por seis outras diferentes. Seis possibilidades de ser, cada uma nos levando para um lugar, um sentimento, uma perspectiva, uma visão. Nenhuma delas é maior ou menor do que a outra. Todas são possibilidades dentro de um grande pote da sorte.
A montanha mágica (1924), de Thomas Mann
De Thomas Mann, pretendo me utilizar da concepção de tempo que o autor evoca logo na primeira página. Essa ideia sempre me deixou com uma sensação de assombro. Acho que ela é meio que o suprassumo da literatura: a construção de uma ideia do tamanho de uma montanha. Cito o majestoso:
Acontece, porém, com a história o que hoje também acontece com os homens, e entre eles, não em último lugar, com os narradores das histórias: ela é muito mais velha que seus anos; sua vetustez não pode ser medida por dias, nem o tempo que sobre ela pesa, por revoluções em torno do sol. Numa palavra, não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade [...] Ela se desenrola ou — não avancemos com o uso do presente — ela se desenrolou numa época transata, outrora, nos velhos tempos, naquele mundo antes da Grande Guerra, cujo deflagrar marcou o começo de tantas coisas que ainda mal deixaram de começar. 3
E aí? Sentiram o tamanho da montanha? Precisa dizer mais alguma coisa?
Este lado do paraíso (1920) e O grande Gatsby (1925), de Francis Scott Fitzgerald
De Fitzgerald, pretendo surrupiar duas coisas: o entrelaçamento que ele dá entre histórias diferentes e a força de seus personagens. É também importante ressaltar a relação de Este lado do paraíso com A montanha mágica, ambos os livros situados nesse limiar das grandes guerras, ambos refletindo sobre o que éramos e o que fomos depois de viver tais acontecimentos.
Em O grande Gatsby, Fitzgerald é gênio máximo da literatura universal. Esse livro é clássico dos clássicos. E é, também, extremamente popular. História fácil de ser lida, instigante, cheia de reviravoltas mirabolantes e, sobretudo, entrelaçamentos magníficos. Fitzgerald dispõe todas as peças no tabuleiro e nos dá um xeque-mate quando estamos distraídos tomando os nossos drinks em festas luxuosas. Com personagens que entraram para a glória de todos os tempos, justamente porque são construídos de maneira a nunca mais os esquecermos, Fitzgerald nos alça aos céus. Sabe transformar o simples em sublime. Com ele, “o leitor permanece interessado nos personagens não apesar de suas imaturidades, mas justamente por causa delas”4.
Também é preciso apontar que a segunda parte de Este lado do paraíso, seu primeiro romance, tem como título “A educação de um personagem”. Cinco anos depois, o mundo foi presenteado com O grande Gatsby. E que presente!!
O grande caderno (1986) e A prova (1988), de Ágota Kristóf
Ágota Kristóf adota um recurso enigmático e eficiente para a sua Trilogia dos gêmeos: justamente os irmãos gêmeos. No primeiro livro, não conseguimos diferenciar um do outro e sequer sabemos os seus nomes. Os diálogos são travados de maneira a não importar muito a personalidade de um ou de outro, uma vez que os dois formam um todo coeso que garante o rumo das coisas.
Só passamos a identificar a diferença entre as pessoas a partir de A prova (1988), justamente quando há uma brusca separação dos gêmeos. A partir daí vemos personagens com nomes reais e pessoas identificáveis, com personalidades, vontades, pensamentos próprios. De alguma forma, acredito que isso me leva a pensar em algumas coisas para a história que pretendo escrever.
Os diários de Sylvia Plath (1950-1962) (2000)5, de Sylvia Plath
Com minha amiga Sylvia, gosto de pensar a relação entre realidade e ficção. Porque a história que eu pretendo contar foi vivida por mim e por pessoas que eu conheço, o que torna as coisas sempre um pouco mais complicadas. Sylvia sabe transpor a realidade para a ficção, e busca sempre fazer com que o que ela diz não seja algo extremamente pessoal, como eu mesma disse acima. Difícil equilíbrio. Sylvia é mesmo essa mestra dessa transposição, título que adquiriu com base em muito esmero. Também dela me encanta a construção da imagem.
E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques (1945/2008)6, de William S. Burroughs e Jack Kerouac
Esse ainda está em análise. Ainda não o li, mas foi um livro indicado para mim quando disse que gostaria de escrever o meu livro. O motivo: a maneira que os dois utilizaram para entrelaçar as duas escritas em um livro só. É um livro escrito a quatro mãos, que se inicia com capítulos curtos que ficam maiores à medida que os autores começam a “se abrir”. Conheço, no entanto, Burroghs e Kerouac de outros carnavais e admito que eles não são lá os meus preferidos. Mas é aquilo que eu mesma disse: ser útil é diferente de ser amado. Veremos.
Agora, não pensem vocês que eu sou inocente a ponto de achar que uma grande coletânea de referências será a minha solução. Afinal, é isso o que eu temo: serei capaz de escrever uma boa história só pelo fato de ser uma leitora apaixonada? Ler e escrever são coisas diferentes. E não se faz um livro como se faz uma receita: 10kg de Virginia Woolf com uma pitada de Thomas Mann e voilá. Não, eu não acredito que as coisas sejam assim.
No entanto, imagino que essa lista de nomes gloriosos sirva ao menos para me fazer companhia em minha árdua tentativa. E encaro essa empreitada toda como nada mais do que isso: uma tentativa. É claro que de toda tentativa sai um resultado. Mas com isso quero dizer apenas que eu posso sempre retornar para esse mesmo texto e ajustá-lo, modifica-lo, virá-lo do avesso. Até o momento em que eu mesma fique de saco cheio dele. E aí, talvez, seja o momento de jogá-lo ao mundo. Como ele é.
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Francis Scott Fitzgerald. Uma justificativa do autor. Este lado do paraíso. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2013.↩
Sylvia Plath. Os diários de Sylvia Plath (1950-1962). Tradução de Celso Nogueira. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017. p. 103.↩
Thomas Mann. Propósito. A montanha mágica. Tradução de Herbert Caro. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.↩
Luiza Franco Moreira, na 4ª capa de Este lado do paraíso. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2013.↩
Os diários de Sylvia Plath foram publicados de maneira póstuma e em duas edições. A primeira, editada por Ted Hughes, seu companheiro, foi publicada em 1982. A segunda, com textos que haviam sido suprimidos, saiu em 2000, com a organização de Karen V. Kukil.↩
E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques foi escrito em 1945, mas foi lançado somente em 2008. A obra permaneceu sem publicação por conta de questões legais envolvendo um crime real relatado na história.↩