Imanência
Eu não quero mais conversa
Com quem não tem amor
Gente certa é gente aberta
Se o amor chamar
Eu vou 1
Eu tenho um certo incômodo que quero trazer para a nossa mesa hoje.
De vez em quando, percebo que falamos sobre os povos indígenas de uma maneira um pouco abstrata – o que é engraçado quando pensamos em um pensamento tão concreto quanto o indígena. Dizemos coisas como: os indígenas têm uma relação diferente com a natureza, de respeito, de harmonia, de cuidado, e suas cosmovisões são moldadas a partir dessa relação. Isso vai muito bem, e seguimos a conversa como quem entende do assunto e segue reproduzindo sinais afirmativos com a cabeça. Mas, quando paramos pra pensar com mais calma, vemos que não conhecemos como é essa relação com a natureza, quais são as suas cosmovisões, como é que se dão os seus hábitos, seus valores, sua moral, sua ética, sua beleza, sua feiura. Não sabemos.
É estranho pensar que falamos abstratamente dos povos indígenas, povos da imanência. Aqui, a oposição entre abstrato e imanente não provém da ignorância de imaginar que os indígenas não possuem pensamento abstrato, mas de saber que eles sempre utilizam coisas concretas como operadores do pensamento. É daí que, exímios viventes naturais, os indígenas retiram toda a sua “filosofia”: do cru e do cozido, do fresco e do podre, do molhado e do queimado, do som e do silêncio2.
Nós condenamos a nossa “herança europeia” e louvamos os povos indígenas que sequer conhecemos. Por isso, sinto que, quando não estamos verdadeiramente abertos, à la Erasmo Carlos em “Gente aberta”, o entendimento entre nós e os povos indígenas passa por um descompasso, um estranhamento que, levado ao limite, se transforma em repulsa.
Peguemos o caso dos tupinambá e vejamos quantos de nós torcemos a cara para o canibalismo, o esfacelamento de crânios, a guerra e a vingança como motores sociais. Claro que, aqui, há sim uma fantasia do europeu que chega nas terras que viriam a ser o Brasil e redige aqueles tenebrosos relatos, transformando os tupinambá em monstros. Foi convivendo com os tupis que Pero de Magalhães Gândavo formulou, em 1576, a famosa frase: “sem fé, sem lei, sem rei”. Toda essa literatura vale para compreendermos o olhar do europeu sobre o indígena, mas devemos ter sempre em mente que se trata de uma colonização. No entanto, tampouco ajuda, para o entendimento desses povos, negar suas práticas e ritos, que incluíam, sim, o canibalismo, o esfacelamento de crânios, a guerra e a vingança.
A afirmação da guerra como propulsora de sociabilidade, totalmente diversa da atual, impulsionou formas sociais e políticas diferentes das quais estamos acostumados. É por isso que, os tupis, apesar de povoarem um extenso território, cobrindo toda a costa do Atlântico, nunca chegaram a se estabelecer em torno de um Estado forte e organizado ou de um Império, como o seu contemporâneo Império Inca. São formas outras, baseadas na convivência de grupos de guerreiros.
É certo que os tupinambá são apenas um povo e uma forma, entre tantas outras, de ser indígena no mundo, mas salta aos olhos como não sabemos do que exatamente estamos falando quando discursamos sobre “os nossos indígenas”. Sequer lhes damos a chance de não serem “nossos”...

Para conhecer mais sobre os tupinambá
Textos curtos
Carlos Fausto. Fragmentos de história e cultura tupinambá in Manuela Carneiro da Cunha. História dos índios do Brasil. Companhia das Letras: São Paulo, 1998.
Manuela Carneiro da Cunha e Viveiros de Castro. Vingança e temporalidade: os tupinambá in Journal de la Société des Américanistes. Tome 71, 1985.
Livros
Florestan Fernandes. A função social da guerra na sociedade tupinambá. São Paulo: Editora Contracorrente, 2022.
Hèlenè Clastres. Terra sem mal: o profetismo tupi-guarani. Tradução de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 1978.
Viveiros de Castro. Araweté: os deuses canibais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.
Bônus: livro sobre a guerra nas sociedades indígenas
- Pierre Clastres. Arqueologia da violência: ensaio de Antropologia Política. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Brasiliense, 1982.
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