A vida de uma garota de 30 anos

Don't cry for me, Argentina

Don’t cry for me, Argentina
The truth is I never left you
All through my wild days
My mad existence
I kept my promise
Don't keep your distance1


6 de outubro de 2026: o último tango de Lionel Messi. Tudo armado para o espetáculo feito todinho para ele. 85 mil pessoas no Monumental de Nuñez, na capital Buenos Aires. O celebrado é, no entanto, um pouco tímido. A postura é a de quem faz aniversário e tem vergonha do momento do parabéns, quando todos cantam, batem palmas eufóricas e observam com aquele olhar de quem pede por um discurso.

Lionel Scaloni, treinador orgulhoso de Lionel Messi, já circulava pelas redondezas horas antes do evento, como se fosse o responsável por encher os balões e montar a mesa de bolo do aniversariante. Queria garantir que tudo estivesse em ordem: roupa lavada, cabelo penteado, som calibrado, convidados acomodados, gramado preparado. Em pouquíssimos minutos de festa, as lágrimas já rolavam pelo rosto do treinador.

No começo do jogo, parecia que tinham esquecido de apresentar o aniversariante para a seleção de Benim. O primeiro tempo finalizou em um zero a zero, com mais garra do lado dos beninenses. Os argentinos pareciam não saber jogar sem a pressão de ter que ganhar. Afinal, a pressão, ontem, era outra. Era deixar tudo nos trinques, nas mil maravilhas. Na beleza que a ocasião pede.


Intervalo. As coisas se encaminham como elas devem ser. E também não é como se a Argentina não estivesse acostumada com esse tipo de situação. Não foi a Copa do Mundo de 2026 inteira galgada sobre reviravoltas contra times considerados “carta fora do baralho”?


Primeiro gol argentino: viagem ao passado. Saiu de um escanteio que Messi cruzou em cima de Otamendi, outro veterano que se despede da seleção no mesmo dia que o grande companheiro. De Paul, o escudeiro, Mac Allister, Tagliafico, Dibu Martínez, Lisandro Martínez, Cristian Romero, Enzo Fernandes, Julián Alvarez: todos em campo para compor aquele time que foi o campeão em 2022 e para jogar bola, mais uma vez, em torno de Lionel. E não podia faltar aquele que foi, ao lado de Messi, o responsável pela conquista da taça: Di María também estava por ali e, ainda que no banco de reservas depois de ter se aposentado, parecia um deles novamente.

Segundo gol argentino: passaporte carimbado para o futuro. Passe de Lionel Messi para Nico Paz, garoto que concorre para se tornar, quem sabe, o futuro camisa 10 da Albiceleste. Teve quem comentasse que Lionel ficou esperando Nico Paz devolver a bola para ele, e que não imaginou que o novo meio-campista fosse finalizar para o gol. Afobação da juventude: faz parte. Saiu um gol de pintura, que não deixou de ser, ainda mais se Messi ficou esperando um retorno que não veio, um gol simbólico da passada de bastão.

Segundo tempo vai passando e os veteranos saem de campo para dar lugar aos jogadores mais jovens. Lionel Messi rodeado pela nova geração do futebol argentino. O solo parece continuar fértil. Mas, quanto mais o tempo passava, mais pintava no ar aquele clima: e aí? Não vai ter o dele?

Pênalti a favor da Argentina, na reta final do segundo tempo. Ao contrário do momento do parabéns de aniversário, quando se trata de jogar bola, Messi parece não sentir o peso de todos os olhos do mundo em cima de si. Golaço de pênalti, se é que isso existe. O mesmo Messi, recordista em pênaltis perdidos pela seleção argentina. Ontem, não. Tudo foi como deveria ser. E a Argentina, apesar dos pedidos de “don’t cry for me”, evidentemente que ainda irá chorar muito. Mas só chora tanto assim quem ama em igual medida.

Ontem, a festa foi para ele, mas como ganha, e não cansa de ganhar, o Futebol. Como é fácil amar a vida com você, Lionel.


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  1. “Não chore por mim, Argentina/A verdade é que nunca te deixei/Durante todos os meus dias selvagens/Minha louca existência/Mantive minha promessa/Não se mantenha afastada”. Madonna. Don’t cry for me, Argentina. Evita, 1996.↩