A vida de uma garota de 30 anos

O dia em que tudo deu errado

Eu não gosto de pensar de uma forma dramática sobre os meus dias, de sair por aí dizendo que “tudo deu errado”, mas tem vezes que não tem jeito. Tem dias em que tudo dá errado mesmo, e não nos resta nada a não ser aceitar. Ontem foi um dia desses. Mas, antes de tudo dar errado, eu tinha decidido que esse era o dia em que tudo daria certo. Era o meu dia de folga entre o final do trabalho em uma editora e o início do trabalho em outra, que começa hoje.

Pensei: é o meu dia de museu! Almocei, tomei banho, lavei o cabelo, me troquei. Peguei tudo o que eu precisava para passar o dia fora: livro, casaco, guarda-chuva, carteira, chave de casa, garrafa de água, celular. Câmera LUMIX para, quem sabe, tirar algumas fotinhos por aí. Bilhete único carregado via WhatsApp momentos antes de sair de casa. É isso! Pé na rua.




Primeira coisa que deu errado: fui passar o bilhete no ônibus e ele estava sem saldo. Não sei que maldição de bilhete é essa, mas toda vez que eu carrego esse bendito por meio de qualquer via digital dá errado. Só consigo carregá-lo em pontos físicos. Antigamente eu ia até as lotéricas, mas hoje em dia elas não carregam mais. Nem as bancas de jornal. É preciso ir até o metrô ou o terminal. Mais uma das coisas que “ficou melhor” depois de ser digitalizada.

Ignorei o mau presságio.

Paguei o ônibus com dinheiro e me dirigi até o metrô mais próximo para encher o bilhete. Consegui carregar na máquina do metrô, graças ao dinheiro que eu tinha no bolso. A outra opção de pagamento era pix ou cartão de débito. Fui tentar o pix e o app do banco deu fora do ar. Cartão de débito eu raramente utilizo, então não estava comigo no momento. Peguei meus parcos 20 reais e usei para carregar o bilhete, ciente de que ficaria sem trocados para o caso de alguma emergência. É a vida. A emergência era essa.

Sempre preferi pegar ônibus em vez de metrô, mesmo que o metrô tenha a vantagem de ser muito mais rápido. Aquela sensação de “debaixo da terra” sempre me foi um pouco incômoda, e ela só piora com o passar dos anos. Faz alguns meses que eu não pego metrô, por falta de costume, de necessidade, ou porque evito sempre que possível. Mas lá estava eu, dentro do metrô, rumo ao meu aclamado museu.

O metrô é impressionante. Eu sou paulistana nascida e criada, usuária assídua de metrôs desde que me conheço por gente. Mas, ontem, me senti como meus parentes do interior quando vêm para cá e andam nesse meio de transporte de tatus. Esmagada pela velocidade, tonta diante do mar de gente, meio fora de mim por conta de tantos estímulos sonoros, olfativos, visuais. Meio torcendo para chegar logo na estação desejada.




Cheguei. Doida para entrar no primeiro museu que me aceitasse, como quem busca vaga no primeiro pronto-socorro, sala de emergência. Segunda-feira: todos os museus estão fechados! Me senti sem chão. Não sabia para onde caminhar com os meus pés. Zanzei de um lado para o outro: tentei um, depois outro, depois outro. Só dei de cara com portas fechadas. Busquei afogar as minhas mágoas em um café barato no SESC. Também fechado às segundas-feiras. Tudo fechado.




O que me resta? Andar por aí e tirar algumas fotos, já que estou carregando o peso dessa câmera dentro da minha bolsa. Saco a máquina. Sem cartão de memória!! Deixei na mesa do computador antes de sair de casa.

Me dirijo para o McDonald’s mais próximo em busca de resolver isso como o meu eu de 15 anos resolveria: comendo hambúrguer e batata frita. E, aí, me dou conta de uma coisa. Não sei se não reparei antes nessa coisa porque faz tempo que não saio assim, sem rumo, por conta dos últimos anos de uma saúde frágil e de trabalhos insanos, mas como São Paulo está mudada!

Sei que São Paulo é conhecida por ser uma capital mundial que “acolhe” tudo o que é coisa. Em certa medida, acho que fazemos jus a este título, uma cidade da diversidade e tudo mais. No entanto, noto, a cada dia que passa, que São Paulo se torna também uma cidade cada vez mais hostil. Onde quer que você vá, parece que tudo o que você enxerga é um canteiro de obras. Os lugares todos são construídos e modificados para que nada se dê e tudo se neutralize. Quando acontece alguma coisa, é quase sempre uma violência, uma mesquinharia, uma coisa de mau gosto.

Durante meu passeio, vi incontáveis desentendimentos, relações mediadas pela pressa, pelo descuido, pelo embrutecimento da vida. Transeuntes solicitando aos policiais abordagens mais duras com os “nóias”, pessoas vivendo em condições de miséria nas ruas, entregadores de aplicativos de delivery jogados por aí, descansando em qualquer esquina e acocorados em suas gigantescas bags. Tudo isso em uma segunda-feira qualquer, a qual todos nós atravessamos sem grandes questionamentos filosóficos ou artísticos. Isso lá é vida, São Paulo?




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Até o meu hambúrguer foi, enfim, permeado por essa brutalidade da capital que “acolhe”. Vejam que lugar sem alma. Não me considerem nostálgica. Sei que as coisas mudam e a vida é assim. Mas sou testemunha ocular e viva de que essa mesma avenida, essa famosíssima avenida, a Avenida Paulista, já foi palco de tanta coisa maior, mais bela, mais doce. Hoje, seus gloriosos 2,8 km me pareceram um cinzeiro a céu aberto, lotado e cada dia mais lotado, cheio de transeuntes desinteressados, correndo sem perceber que a vida pode acabar logo ali, no ponto de ônibus, no local de entrega do Ifood, ao fim de uma batatinha do McDonald’s.

Uma vez eu conversei com uma moça que tinha acabado de se mudar para São Paulo. Ela trabalhava em uma galeria de arte e eu tinha entrado para curiar. Não sei como e nem porquê, acabamos tendo uma conversa muito sincera sobre questões da vida e das artes. Ela me disse que achava São Paulo uma cidade estranhíssima porque aqui ninguém olha nos olhos de ninguém enquanto fala. Eu disse: “Eu sei, é verdade”. Mas também lhe garanti: não se entristeça, todo mundo é assim sem saber o porquê. Não é nada pessoal.




Vocês podem estar se perguntando como eu tirei a foto do salão do famoso restaurante de hambúrguer se a minha câmera estava sem cartão. Pois eu descobri que eu tinha umas 5 fotos para tirar, que ficariam salvas na memória interna. E sabiam que, no final das contas, achei que foi uma ideia legal? Por que isso me levou, de algum forma, a me concentrar mais nas coisas e escolher a dedo o que eu realmente queria registrar.

Uma outra coisa sobre São Paulo é que ela está, sim, cada vez mais propícia a furtos e assaltos. Sei que há todo um jornalismo sensacionalista que faz daqui a Gotham City do Brasil, mas arrisco dizer que, se compararmos com uns 10 anos atrás, ninguém tinha tanto medo de andar na rua como hoje. Por isso, também fico receosa de abrir a câmera para fotografar, e olhem que a minha câmera é bem discretinha e me custou absolutos zero reais. Fato é que o contexto ao redor não te deixa à vontade para sair abrindo a bolsa para nada, nem para pegar o celular para ver as horas, imaginem sacar uma câmera para tirar fotos!




Foi então que me encaminhei para uma livraria, porque ali eu sei que posso contar com a minha paz. Longe do furor das ruas, do calor e da chuva que se misturam, dos barulhos dos carros e do ar poluído. Ah, a livraria, essa sim, velha amiga, que nunca muda, sempre está lá. Para ela, não tem tempo ruim.

E é assim que terminamos o texto sobre o dia em que tudo deu errado. Como eu não gosto de absolutos para esse tipo de questão, até mesmo no dia em que tudo deu errado, alguma coisa deu certo. Ou essa é apenas a exceção que confirma a regra? Deixo vocês decidirem.

Fiquem com as fotos de um lugar lindo, colorido e cheio de vida. E com as capas maravilhosas de edições de O amante de Lady Chatterley e Oliver Twist. Elas me ajudaram a aceitar que, nesse dia, tudo deu errado!


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