Só
Sou cercado por gente que me faz perguntas e que quer me fazer tropeçar,
Pessoas que encontro, o efeito sobre mim do início da minha vida ou do bairro e
da cidade em que moro, ou da nação,
Os últimos espetáculos, descobertas, invenções, sociedades, autores antigos e novos,
Meu jantar, minha roupa, meus conhecidos, olhares, cumprimentos,
responsabilidades,
A indiferença real ou imaginária de um homem ou mulher que eu amo,
A doença de um parente ou de mim mesmo, uma desfeita, a perda ou a falta de
dinheiro, depressões ou euforias,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os eventos
terríveis;
Tudo isso vem a mim dia e noite, e parte de mim novamente,
Mas não são o meu Eu verdadeiro.1
Hoje cedo todos viajaram. Parentes próximos, parentes distantes. Todos fora. Fiquei aqui, só. Há anos não consigo mais viajar com eles. Prefiro a minha solidão em casa do que as praias mais lindas ao som de brigas, reclamações e violências de gente “feliz”.
Tamara Klink disse que depois de ficar muito tempo sozinha, navegando, ela achava que as músicas se tornavam um barulho ensurdecedor. Ela se desacostumou a receber tantos estímulos sonoros. Quando entro nesse silêncio longe de todo esse fluxo familiar, me sinto um pouco como ela ao inverso. Percebo que estava imersa, o tempo todo, em um ruído absurdo.
Ah, essa solidão que, quando mais jovem, me causou tanto temor, tantas vivências de pânico – um medo abismal. Hoje, me recebe de braços abertos, e eu fico feliz em vê-la.
Não minto. No momento em que ainda estou na presença de outras pessoas e me imagino assim tão só, sinto certo incômodo. Mas ele dura só o período da transição. Depois disso, o deleite é todo meu.
Estou desde cedinho fazendo as coisas do meu jeito, como eu quero, na hora que eu quero. Como o que quero, me visto como quero. Faço e não faço o que quero.
Papo da terapia essa semana foi justamente esse. Para resumir: a maneira pela qual vejo a minha relação com as pessoas em geral. Prometi para a minha psicóloga que ia sair com uma colega hoje, mas nem dei as caras. Como tinha ficado só na possibilidade, deixei estar assim. Hoje, já chorei um pouco e busquei por silêncio. Sei que essa colega representa uma possibilidade de outra relação, diferente do tipo de relação com a qual estou familiarizada. Mas senti que esse fim de semana eu ansiava por extremo silêncio. Não falo uma palavra há horas.
Como uma balança, oscilo entre duas questões: sofro muito por não ter amigos e me fecho completamente para o mundo, não deixo ninguém adentrar na minha vida de forma mais concreta. Sempre simulando que sou outra coisa, sempre deixando os outros me interpretarem como querem... Mas como vou conseguir fazer amigos dessa forma?
Um ponto importante que a minha psicóloga levantou durante a sessão é o fato de eu trabalhar home-office e ter a maioria das minhas relações mediadas por isso.
Dois fatores foram destacados. 1) Não sobra tempo para nada, nem para construir relações reais, porque o calendário das editoras de didáticos é, normalmente, insano. 2) Todo mundo é meio uma simulação de si mesmo no home-office. Afinal, quem trabalha assim sabe: muitas vezes a gente fica de pijamas, com a casa toda bagunçada, comendo Doritos enquanto digita sérios relatórios. Parece que todo mundo trabalha o tempo todo, porque não há como a gente VER o tempo ocioso que todo trabalho possui. Ninguém trabalha 100% do tempo em que está no trabalho. A não ser no home-office, onde é exigido que você trabalhe 100% tempo, ou ao menos que pareça que você faz isso.
Então, é o seguinte: eu sinto que não sou amiga dessas pessoas do trabalho, que elas não me conhecem e que eu não as conheço. E, segundo a minha psicóloga, esse sentimento não é infundado: de fato, é isso o que acontece. Para vocês terem uma dimensão da coisa: comecei a fazer terapia no início do ano, e já vi mais a minha terapeuta, mesmo que uma vez por semana e via webcam, do que qualquer um dos meus “colegas” de trabalho ao longo de anos.
Ao mesmo tempo, papeamos o dia todo em chats oficiais ou paralelos, como se fôssemos “amigos”. Nunca os vi “presencialmente”, alguns, vi uma ou duas vezes durante cafés corporativos. Fora isso, mais nada. Nem um barzinho de happy hour, nem um bebedouro para jogar papo fora, nem uma lembrancinha no dia do aniversário.
Não é isso uma forma estranha de solidão? É uma forma de ficar só que perturba, não acalma, não traz solidez, não traz presença em si. É uma coisa esquisita mesmo. De vez em quando me pergunto se é só em São Paulo que a gente é tão maluco assim.
Diante dessa minha questão com a solidão esquisita, não a gostosa que citei inicialmente, pensei que poderia fazer algum curso, alguma coisa que me force a sair de casa toda semana e me faça ver gente.
Porque, admito, não chego a passar mal ao sair de casa nem nada do tipo – mas já estive muito fraca fisicamente, e, durante alguns anos, sair de casa era como uma aventura em que eu tinha que pensar demais em tudo o que eu ia levar, em como eu ia me locomover, em que tipo de medicação eu deveria ter na bolsa, quantas horas eu ia passar fora, onde eu iria comer etc. e tal.
Desde então, sair de casa ainda é uma meia aventura para mim, não de uma forma delicada como antes, mas de forma a me ver diante do mundo e poder estar ali. Durante esse período mais complicado de saúde, eu buscava fazer tudo da forma mais eficiente, a fim de preservar o meu corpo e as minhas energias.
Ainda é estranho esbanjar tantas horas de atividade ao longo do dia, tanta disposição física e energia. É claro que é muito bom, mas, como eu disse antes, se trata também do estranhamento de uma transição.
Esse texto está um pouco desconexo. É porque eu mesma me sinto assim no dia de hoje. Não estou sabendo amarrar muito bem as coisas, os sentimentos, os pensamentos. Estou escrevendo essas palavras desde manhã cedo, e as finalizo só agora, às 5 da tarde. Nesses dias é assim mesmo. Temos que só deixar tudo vir. Sem culpa.
Então, com esse pensamento de fazer algum curso, pensei em unir a minha vontade de estudar com a (talvez) vontade de me expor mais ao mundo. Comecei a procurar algumas escolas de idioma perto de onde moro, inicialmente com essa única preocupação em mente: ver gente desconhecida. Minhas preferências são: italiano, inglês e francês.
Mas não consigo me decidir entre as três. Cada uma possui suas questões. Já fiz, anos atrás, um curso básico de italiano e não gostaria de pagar para aprender de novo o que “eu já deveria saber”. Então penso que o mais interessante seria estudar em casa um pouco antes de fazer uma prova e conseguir entrar em uma turma mais avançada.
O francês eu não sei nada de nada, mas é ainda uma opção atrás do italiano. O inglês eu já estudei bastante, seria mais uma forma de adquirir aqueles certificados de proficiência, aquele tipo de papelada que a gente não se importa nem um pouco quando é jovem. Quem sabe se eu tivesse feito a bendita prova na época eu já teria conseguido tal certificado. No entanto, parei de estudar e não fiz a prova por puro capricho ou rebeldia da juventude, que também possui as suas razões (mas que agora nos parecem tão tolas!).
Enfim, todas as turmas terão início em breve, e eu não quero me obrigar a decidir nada na pressa. Mas vejam que se eu deixar a matrícula passar, estudar um pouco em casa para passar nas provas mais avançadas no próximo semestre ou trimestre etc. e tal, o propósito inicial mais urgente, que é ver gente, acaba ficando para trás.
Outro empecilho que encontrei para esse propósito (e, novamente, não sei se isso é mais uma das idiossincrasias de São Paulo) é o fato de tudo que é “presencial” ser mais caro. Nos habituamos tanto a esse mundo virtual que qualquer coisa no modo presencial é extremamente mais cara. Papo de multiplicar o preço por 10.
Se eu quiser me matricular em uma escola renomada de francês para estudar por conta própria os módulos básicos, e acredito que sou plenamente capaz de absorver esse conteúdo sozinha, pagarei 10 vezes a menos do que se eu quiser fazer esse mesmo curso e encontrar as pessoas, conhecer os professores, frequentar uma sala de aula, tomar água em um bebedouro e aproveitar para botar o papo em dia, descobrir talvez alguns amigos.
Eu entendo que há o valor do aluguel, dos salários dos funcionários, das contas de energia, de água etc. e tal. Mas, gente, mesmo assim isso me deixa um pouco deprimida. Além disso, as turmas são raras, os horários são escassos, porque, imagino, “ninguém mais quer” fazer as coisas no “modo presencial”.
Me pego aqui quebrando a cabeça para entender como vou encontrar novas pessoas, mas sinto cada vez mais que me assemelho à natureza de Tamara Klink. Nessa mesma entrevista citada no início do texto, ela diz que, inicialmente, navegar no mar – e, junto com essa navegação, a solidão que vem daí – era como encontrar o desconhecido. Hoje, é diferente. Ela sente que vai para o mar como quem vai para casa. Cada vez mais eu sinto que eu só me sinto em casa nessa tão vasta solidão.
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Walt Withman. Song of myself (Canção de mim mesmo). Tradução de André Cardoso. Rio de Janeiro: Imago Ed.; São Paulo: Associação Alumni, 2000. p. 11-12.↩