A vida de uma garota de 30 anos

O que van Gogh viu? – Parte 1: infância

A série O que van Gogh viu? mostra algumas das coisas e das obras que foram atravessadas pelo olhar de Vincent van Gogh, pintor de corpo e alma, de sua infância até a juventude. Há muito tempo que eu desejo fazer algo assim. Primeiro eu tinha pensado em montar um caderno, imprimir as imagens e fazer uma espécie de colagem e diário de van Gogh, com base nos textos que li e nas imagens que me vinham à mente. Depois que criei esse blog, pensei: por que não colocar isso aqui e já dividir com outras pessoas que eventualmente possam ter esse interesse em comum? Na linguagem contemporânea, eu diria que estou montando um vision board de van Gogh (mas não me apetece tanto esse tipo de linguagem, por isso preferi manter a série com um nome mais "clássico"). Vincent1 acreditava puramente na conexão entre artista e obra e considerava de igual importância a construção do homem e a criação da obra. Era ávido colecionador de biografias e das trivialidades dos biografados. Essa série funciona como um quadro de imagens que passaram a compor o olhar do próprio van Gogh em um período de sua vida em que ele sequer sonhava ser artista.



Vincent van Gogh é e não é o primogênito do casamento de Anna Cornelia Carbentus e Theodorus van Gogh. Exatamente um ano antes de seu nascimento, Anna van Gogh deu luz a um natimorto. Foi aberto um túmulo no pequeno cemitério protestante ao lado da igreja de Zundert, na qual Theodorus era pastor. Ali foi enterrado o primeiro natimorto da cidade; na lápide, o seu nome: Vincent van Gogh (1952)2.

Em 30 de março de 1953 nasceu Vincent van Gogh, o pintor que conhecemos. No mesmo dia do ano e com o mesmo nome do natimorto, pois, para sua mãe, isso era apenas uma questão de gosto.

Antes de se casar, Anna Cornelia Carbentus era uma moça que vivia em Haia, em uma cidade brilhante, limpa e importante. A casa da família Carbentus ficava em uma avenida bordejada de tílias e cercada de residências suntuosas. Depois do casamento, Anna se mudou com o marido para Zundert para que ele assumisse a igreja protestante da cidade. Na realidade, à época, Zundert era considerada território estrangeiro pela alta sociedade de Haia, quase “não-holandês”. Era uma área de pântanos, com grandes extensões batidas pelo vento e sem árvores; local de movimentação comercial, desproporcionalmente sujo e desorganizado, de maioria católica e varrido por dois séculos de idas e vindas de exércitos que lutavam nas charnecas arenosas dos arredores3.

Tilia
A árvore Tília. Evidentemente, Vincent não viu a avenida de tílias da casa de sua mãe, pois ainda não tinha nascido. Mesmo assim, gosto de imaginá-lo debaixo de uma arvorezona dessas. Às vezes determinadas coisas não ocorrem na vida real, mas na nossa cabeça elas podem acontecer.

Vincent ganhou outros irmãos: Anna, Theo (o seu predileto), Elizabeth, Cornelius e Willemina. Para sobreviver à tamanha “selvageria”, a mãe criou seus filhos com zelo e rigidez. Ela mesma não conseguia ficar parada e estava sempre a realizar as mais diversas atividades para conter as “forças obscuras”. Imprimiu nos filhos uma visão de mundo receosa e enclausurada. Uma das tarefas que Anna incumbiu as crianças foi a de cuidar do jardim do presbitério. Aos poucos os legumes proletários foram expulsos para um lote próximo ao cemitério e o jardim deu lugar às flores. A mãe dividia as tarefas entre as crianças e as tornava responsáveis pelos seus próprios terrenos demarcados no jardim. Fiel ao gosto vitoriano, tinha preferência pelas flores pequenas. Entre as cores, preferia o vermelho e o amarelo4.

Tagetes
Tagetes
Resedá
Resedá
Chuva
Chuva-de-ouro
Gerânio
Gerânio

Porém, Vincent, desde muito pequeno, gostava de sair para caminhar nas charnecas e observar a vida natural em seu estado selvagem. Não se contentava com o jardim todo arranjado da mãe. Os sítios de Zundert, relativamente pequenos, eram, a seus olhos, um mar de trigo e centeios, a “terra do desejo”, como as crianças diziam. O pequeno gostava de seguir o curso do riacho Grote Beek, onde a água sempre corria fresca. Ali descobriu a luz especial e o céu próprio de sua terra natal: a combinação única de maresia e nuvens movediças. Já exercitando seu olhar de desenhista, que aprendera com a mãe (ela desenhava também como uma forma de se afastar do mal), Vincent passava horas observando e estudando a vida da vegetação rasteira. Olhava os percevejos de água, o voo das cotovias que saiam da torre da igreja, os ninhos dos pássaros; era capaz de andar entre os campos de cereal crescido “sem quebrar nenhum talo, mesmo fininho”, dizia sua irmã Lies. "Seu intelecto era dado a observar e pensar"5. Fazia coleções de flores silvestres que cresciam nas margens dos riachos e das várzeas, dos ovos de aves migratórias e de besouros, os quais se transformaram em sua paixão avassaladora. Essas coleções eram o seu tesouro, que guardava em seu quarto no sótão6.

Grote Beek, em Zundert
Grote Beek, em Zundert.
Grote Beek, em Zundert
Celeiro e casa de fazenda, por Vincent van Gogh. Lápis sobre papel, 20 x 26,98 cm. 1864 [aos onze anos de idade].

Para aflição de seus pais, Vincent gostava particularmente de sair para caminhar à noite e em meio a tempestades, e seus longos sumiços solitários ocorriam quase que diariamente, em todas as estações. Era julgado pelos pais e pelos colegas da pequena cidade por conta da sua vontade de solidão. Ele era um menino que tinha “pouco a ver com os outros garotos”. Se afastou, aos poucos, até mesmo de suas irmãs, por diferenças e ressentimentos. Theo, no entanto, era seu companheiro obrigatório7.

Aos poucos, suas lembranças familiares foram recheadas de estranhamentos e insultos: "teimoso", "desobediente", "genioso", "difícil de lidar", "esquisito", com modos "estranhos", "impertinente", o "menos agradável" das crianças van Gogh. "Nunca prestava a menor atenção ao que o mundo chama de 'ordem'", reclamou um dos parentes. A família se tornava também um tormento para Vincent: "a família é uma reunião inevitável de pessoas com interesses contraditórios, cada qual oposta às demais, e duas ou mais só são da mesma opinião quando se trata de se unir contra a outra"8.

Não demorou para que ele criasse outra atividade solitária e obsessiva: a catalogação de seus preciosos achados ao ar livre. Passava noites estudando, classificando, identificando as variedades de flores silvestres, registrando onde nasciam as mais raras, examinando as diferenças entre ninhos de tordos e melros, tentilhões e carriças: “aves como a carriça e o papa-figo dourado são verdadeiros artistas”, dizia ele. Fazia caixinhas de papel para guardar seus besouros, forrando-as caprichosamente com papel. Fechava-as com etiquetas com os nomes em latim9.

Tordo Melro
Ninho de tordo x ninho de melro
Tentilhão Carriça
Ninho de tentilhão x ninho de carriça
papa-figo
Ninho de papa-figo dourado

Com o passar do tempo, sua mãe compreendia cada vez mais que nunca entenderia Vincent. Ela o considerava um excêntrico, com valores e perspectivas muito diferentes daquelas que ela lhe havia ensinado. Em 1864, aos onze anos, van Gogh sofreu seu primeiro acontecimento inesperado, inexplicável: foi enfiado em um coche amarelo da família, junto com os pais. Andaram cerca de 22 quilômetros, em direção à cidade de Zevenbergen. Theodorus e Anna se despediram do filho nos degraus de um internato10.


Campo de trigos com corvos
Campo de trigos com corvos, por Vincent van Gogh. Óleo sobre tela, 50,5 x 103 cm. 1890. Pintado em suas últimas semanas de vida, em Auvers-sur-Oise. Vincent havia se mudado para o vilarejo francês afim de ficar mais próximo de Theo e do dr. Gachet, em mais uma das manobras em busca de sua saúde.


Se você gostou desse texto, fique ligado nos próximos posts sobre van Gogh (esse grandioso do coração atormentado!!) que estarão em breve aqui no blog.



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  1. Eu o trato como "Vincent" porque depois de tantos anos em sua convivência já o considero quase um amigo (e não venham chamar isso de "relação parassocial" que eu morro!!). Apenas sinto que nós somos parecidos em muitos aspectos. Adoro quando ele escreve: "sinto um poder dentro de mim... um fogo que não posso apagar e preciso manter aceso". Steven Naifeh e Grerogy White Smith. Van Gogh: a vida. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. P. 24.

  2. Op. cit. p. 45.

  3. Op. cit. pp. 40-42.

  4. Op. cit. p. 49.

  5. Op. cit. p. 63.

  6. Op. cit. p. 68.

  7. Op. cit. pp. 64-65. A relação entre os dois irmãos, cheia de confrontos e de amor intenso, é amplamente registrada na biografia citada e nas cartas trocadas entre eles. Cf.: Vincent van Gogh. Cartas a Théo. Tradução de Pierre Ruprecht. Porto Alegre: L&PM, 2022.

  8. Op. cit. p. 62.

  9. Op. cit. p. 68.

  10. Op. cit. p. 69.