Minorias versus maiorias na democracia contemporânea
Atualizações da greve da Universidade de São Paulo (USP)
Seguem atualizações do caso que começamos a acompanhar aqui e aqui.
O reitor, os colegiados e as direções receberam apoio, dessa vez, de docentes da USP, por meio de nota assinada por 910 professores, até o momento. Entre os destaques estão a defesa do diálogo e dos ritos institucionais, o respeito às instâncias colegiadas e o repúdio à postura dos estudantes no último Conselho, que impediu o seu funcionamento. Além disso, apresenta dados financeiros que exemplificam o aumento do investimento em auxílios estudantis e reforça que negociar não significa atender todas as demandas do movimento.
O Estado de S. Paulo (que nunca perde a chance de nos elucidar com seus pensamentos baseados em muita reflexão) publicou hoje de manhã um editorial intitulado “Os tiranetes da USP”, no qual, com base em entrevista concedida pelo reitor, conclui que a greve é levada adiante por uma minoria tirana e extremista1, enquanto a maioria deixa isso acontecer com certa “apatia"2 . Diz que o reitor abriu o diálogo com os estudantes e aumentou o valor da bolsa auxílio em 27 reais!! Afirma que, nas mãos de “militantes profissionais”, o movimento se tornou “político”, uma vez que visava, desde o início, ao ataque do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual de São Paulo.
Dia de reflexão
Aproveitando o dia de reflexão proposto pelo pombo-comum, seguem algumas pensatas. Afinal, já que até o Estado é digno de pensamento, por que eu não seria?
Se a greve "não é da maioria”, como afirmam as linhas finais do citado editorial, o que é, afinal, “da maioria” na USP? É de se imaginar, seguindo esta linha de raciocínio, que o reitor, aquele que foi apresentar tal cenário da universidade para o jornal e que representa o “lado oposto” aos grevistas, seja uma representação legítima da maioria.
Vejamos como o reitor é eleito na USP. Grosso modo, a eleição ocorre no interior das barreiras delimitadas pelos órgãos chancelados para tal fim. Neles, todos os professores titulares têm assento, ou seja, aquela pequena elite de professores que atingiu o topo da carreira acadêmica. Demais docentes, estudantes e funcionários possuem uma representação achatada em níveis percentuais, por conta da grande parcela já ocupada pelos professores titulares.
Vale lembrar que o estopim do movimento se deu no dia 15 de abril, quando estudantes deflagraram greve após a concessão, pela Reitoria, de uma gratificação de R$ 4.500 por mês, por dois anos, aos docentes.
Ou seja: um grupo muito reduzido, em torno da reitoria, administra a Universidade e concede gratificações de acordo com seus próprios critérios, uma vez que esses órgãos comparativamente quase não contam com representantes de outras categorias que compõem, igualmente, o cotidiano universitário.
O reitor afirma que o movimento é ditado por uma minoria. No entanto, se levarmos em conta a forma pela qual se dá a eleição na USP, podemos afirmar que a reitoria representa de fato a maioria? Apenas 2% da comunidade universitária participa do processo de escolha da reitoria. 98% ficam de fora3.
Ainda é preciso frisar que esses 2% elaboram uma lista tríplice, que passa para as mãos do governador do Estado de São Paulo. Dessas três chapas indicadas pela “Assembleia Universitária”, o governador pode escolher qualquer um dos três. Ou seja, no limite do limite, a escolha do reitor está nas mãos de 14. Quer mais minoria do que isso? Já que estamos no campo da quantidade, como propôs o Estado, de repente, os 200 estudantes da Escola Politécnica valem 200 vezes mais do que a escolha do reitor?
Por fim, o editorial insinua que os movimentos estudantis são povoados de questões políticas e influenciados por questões partidárias e que os estudantes seriam uns pobres coitados que ficaram à mercê de políticos profissionais, justamente em um momento próximo da realização das eleições nacionais. Nesse sentido, sobram alguns questionamentos. Do ponto de vista da estrutura eleitoral da USP: uma vez que os estudantes estão vinculados à partidos “de oposição”, estaria o reitor sempre alinhado com o partido político que o colocou no cargo? Do ponto de vista da experiência estudantil na universidade: os estudantes não podem aderir a um partido político e militar por ele? Do ponto de vista da política e da educação, em geral: não ensinamos diariamente para as crianças e jovens que é assim que se faz política? Não rezamos todos os dias a cantilena que afirma que a política está nas mãos de uma minoria, sim, profissional, pois desde Max Weber aprendemos que o político tem que ter vocação5? E não somos ensinados que é assim que tem que ser? Que qualquer coisa para fora disso é mera anarquia?
Minorias versus maiorias
Saindo da USP para um plano mais amplo: o que significa esse jogo de maiorias e minorias para além da acusação que um partido faz sobre o outro? Pois também não somos inocentes! Sabemos que os partidos políticos estão presentes no cotidiano de qualquer centro acadêmico e diretório estudantil. Sabemos que os partidos políticos, na imensa maioria das vezes, não encabeçam as questões levantadas pelos movimentos, não dão nenhum pontapé inicial e, por vezes, até boicotam tal iniciativa. E que, mesmo assim, quando algo de extraordinário acontece, são os primeiros a aparecer com as suas bandeiras coloridas, afim de apadrinhar aqueles que iniciaram a revolta.
Historicamente é assim. Das grandes revoluções e às pequenas revoltas cotidianas, tudo precisa de um início que esteja meio fora de controle. É a história da Revolução Francesa, da Revolução Russa, da Revolução Espanhola... E, mais pertinho de nós, nos perguntamos: o que seria da Primavera Árabe sem a coragem de Mohamed Bouazizi? O que seria a última eleição presidencial sem os movimentos antifascistas e feministas para convocar as pessoas às ruas, enquanto os partidos de esquerda, temerosos de não obter sucesso, recomendavam a moderação? O que seria do movimento antiglobalização sem Carlo Giuliani e seus amigos?
Mas, antes mesmo de pensar na faísca que nos aquece, devemos pensar também no mormaço que nos aborrece e na geleira que nos fez entrar nessa fria... A organização da sociedade em maioria e minorias, por meio do critério democrático, nos leva inevitavelmente a caminhar para esse impasse. A maioria, chamada por Emma Goldman de massa compacta, é inimiga da criação. É a primeira a gritar “crucifiquem!” no momento em que surge uma voz contra a autoridade ou qualquer instituição decadente. O objetivo da massa compacta é levar uma vida uniforme, cinzenta, monótona. É a morte dos artistas, dos inventores, dos escritores de ideias originais. A massa apoiou o fim da escravidão nos Estados Unidos somente quando tal clamor já tinha se consolidado como algo comum: no início, coube aos poucos sustentar uma mudança radical6.
A minoria inteligente não se confunde com as elites, pois não visa governar a maioria, não se ocupa do sucesso, não deseja garantir privilégios econômicos, vantagens políticas, barganhas eleitorais. Ela é de outro mundo! Maioria e elites se consolidam em uma união pérfida. Sem coragem para tomar sua vida nas próprias mãos, a maioria delega para as elites aquilo que, segundo ela, deve ser feito. A elite entende que o que deve ser feito será feito; e, além do mais, ainda sobrará tempo para “subir na vida”, conquistar os cargos mais altos, conhecer amigos muito interessantes, ganhar muito dinheiro, desviar muito dinheiro, lavar muito dinheiro. A elite representa a maioria, e, como ainda sobra muito, vive como quer. A maioria, que se vê impedida de adentrar os altos círculos da elite, leva a vida assistindo ao espetáculo. De vez em quando se indigna, protesta, deseja “fazer uma limpa”. Depois de um tempo, esquece, afinal, ela não tem capacidade de governar. Isso é coisa de profissionais...
A minoria inteligente diagnostica o grotesco da situação. Mas não se vê responsável pela maioria, porque, por mais que ela sofra (e a minoria inteligente também sofre junto com a massa compacta, apesar de receber tratamento “especial” quando condenada pelas elites), entende que tomar tal responsabilidade seria um comportamento de elite. A minoria inteligente não tutela, mas mostra que outro caminho é possível... Veja, é até simples... Vamos pegar alguns papéis e escrever um livro. Se um professor inteligente e amigável se unir a nós e quiser nos ensinar as regras da língua e a melhor literatura, que se junte! Vamos fazer o conserto de um cano, pintar uma parede, ajustar a fiação... que os encanadores, os pintores, os eletricistas nos ensinem e estejam conosco. Vamos assar um pão, cozinhar uma sopa, plantar as verduras; que todos os padeiros, sopeiros e verdureiros apareçam! E assim com tudo... Que venham médicos, enfermeiros, motoristas, engenheiros, pedreiros, marceneiros, costureiros, dentistas, fisioterapeutas, pianistas, pintores, músicos, cientistas (malucos e normais), psicólogos, jornalistas, agrônomos, cozinheiros, físicos, matemáticos, químicos, hackers, faxineiros, dançarinos, historiadores, meteorologistas7... e que todos eles aprendam a ser, uns com os outros, também outras coisas!
Dizem que esse tipo de relação, de governo do povo pelo povo, é conhecido popularmente como “comunismo”. Mas, para ser sincera, o comunismo também vive e se alimenta das suas elites e maiorias... “Eu desejaria não ter que conceder nada a elas, mas ensinar, dividir, quebrá-las e transformá-las em indivíduos.” Esse tipo de vida, na realidade, tem outro nome... sim, é ela, a temida anarquia.
Um outro mundo sempre é possível.
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Prova disso seria a participação de apenas 200 dos 5.000 estudantes da Escola Politécnica na escolha de seus colegiados. Ou seja, eles não representariam, de fato, “a vontade da maioria”.↩
E não é esse, afinal, o papel da maioria?↩
Dados informados pela Adusp em A escolha da reitora ou reitor da USP e a urgente democratização da universidade, 2025. Disponível em: https://adusp.org.br/wp-content/uploads/2025/09/regraseleicaov2.pdf.↩
Um que, vale lembrar, ainda que tenha vencido as eleições estaduais, não faz parte do cotidiano da Universidade. Ou seja, os rumos daquele local estão nas mãos de alguém que sequer conhece profundamente ou vive suas necessidades.↩
Max Weber. A política como profissão e vocação. Escritos políticos. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014 [1919].↩
Emma Goldman. Minorias versus maiorias, 1911. Disponível em: https://bibliotecaanarquista.org/library/emma-goldman-minorias-versus-maiorias.↩
Só não venham juízes, policiais, soldados e pastores de todos os tipos – a não ser que eles mesmos queiram se tornar outras coisas.↩