O valor da beleza
Como vocês já sabem, estou nessa onda de estudar os naturalistas e zoólogos – e, quem sabe mais para frente, também os botânicos, geólogos e qualquer outro tipo de estudioso que esteja relacionado às coisas não humanas. Descobri que isso me cura a alma. E resolvi começar esses meus estudos pelo maior de todos quando o tema é a perspectiva moderna sobre esse assunto: Charles Darwin, e a sua obra Origem das espécies. É porque, depois dele, a própria ideia de História Natural ganhou outros termos.
Evidentemente que há, entre nossos contemporâneos, e entre os contemporâneos dele, os seus justos e injustos críticos. No entanto, essa é a obra que baliza o debate, que centra as coisas, que faz com que todo iniciante no tema se interesse por ela. É tipo estudar Sociologia e ir direto nos livros de Durkheim, e não em seus críticos; estudar democracia grega lendo A república, de Platão, e não os textos contemporâneos que a analisam (bem ou mal); compreender a fé católica começando pela Bíblia em si, e não por questões adjacentes; enfim, vocês entenderam. Essa é a “obra máxima” desse pensamento.
Ainda estou no prefácio, muito bem elaborado por Pedro Paulo Pimenta e tenho que confessar para vocês que esse professor tem uma capacidade de organização do pensamento tão grandiosa que, a cada 10 páginas de leitura, tenho que parar e pensar por uma semana. Afinal, não é essa é a vida dos filósofos (e também a do próprio Pimenta)?
Hoje vou pontuar uma questão meio adjacente e meio intrínseca à obra A origem das espécies, mas que me veio à mente enquanto lia o prefácio e outras coisitas mais.
Essa questão é a da beleza.
Preciso dizer que essa questão entrou no meu cotidiano depois de ler o texto “Em Defesa dos Acentos Desaparecidos”, do Exilado Linguístico. Toda aquela história da retirada do acento de “idéia”, que a deixou um pouco nua (ideia), ficou viajando na minha cabeça. Cito aqui o argumento dele, já que escreve tão bem os seus motivos que seria inútil eu tentar explicá-los com as minhas palavras.
Não perdemos apenas alguns acentos.
Perdemos pequenas excentricidades tipográficas.
Pequenos enfeites que davam ao português um certo charme.
Não, o idioma não ficou pior por causa disso.
Continua perfeitamente capaz de produzir poesia, romances, contratos de locação e mensagens de condomínio.
Mas ficou um pouco mais austero.
Como uma cidade que troca todos os lampiões antigos por luminárias de LED.
Ilumina igual.
Só que ninguém mais quer tirar fotografia.
Juntem à “ideia” do Exilado Linguístico essas outras que adquiri lendo alguns trechos de Animais arquitetos, de Juhani Pallasmaa. Nesse livro, o autor aborda as construções animais, como ninhos, tocas, colmeias, formigueiros. Entre outras questões “funcionais” e de organização, ele nos faz pensar sobre o valor estético, ou seja, a beleza dessas construções. É porque, ao ver um ninho bem de perto, é mesmo impossível não notar que há ali uma beleza imensurável. No fim das contas, o autor chega à importante pergunta: seria a beleza também parte do sistema de valores e de adaptação da natureza?1
Darwin é um tanto criticado por ter, talvez, uma perspectiva “austera”, como indica o Exilado Linguístico sobre as nossas transformações na língua.
Isso porque, para Darwin, a vida é o desenvolvimento de uma luta – mas não qualquer luta. Para ele, essa batalha não se dá entre a vida e o meio, como colocam seus antecessores. Ele não vê a vida como um elemento de afirmação e o meio como a sua negação ativa: a vida é a história do desenvolvimento das formas possíveis. E possíveis com base no que? Com base nas adaptações às situações, e não ao meio.
Por isso, a luta não se dá entre seres animados e inanimados (vida e meio), mas entre as diferentes espécies de seres vivos, em busca por recursos de sobrevivência escassos em relação à quantidade de indivíduos que se encontram em uma região qualquer, em um momento qualquer.2
Ou seja, Darwin retirou de sua vivência humana, de seu contexto populacional inglês, muitos desses parâmetros, e soa quase como um economista falando da natureza.
Isso não é totalmente estranho para os cientistas políticos, que estão acostumados a lidar com a linguagem da História Natural nas justificações dos economistas, desde os fisiocratas até Adam Smith – e, passando, só para insinuar e sem me alongar demais, por toda a literatura do contrato social (de Hobbes a Rosseau). O próprio Darwin deixa evidente essa relação entre História Natural, economia e política, uma vez que indica a influência de Thomas Malthus, e seu Ensaio sobre o princípio da população (1798), na escrita da Origem.
Ou seja, este é um mundo de economia, de populações, de recursos, de territórios, de domínios, de produção de equilíbrios.
Deusa Saraswati, de Raja Ravi Varma (c. 1896). Saraswati é a deusa hindu da sabedoria, das artes e do conhecimento. Aqui, foi representada ao lado de um pavão.
E onde fica a beleza?
Precisamos também ser justos com Darwin.
É certo que ele descreveu a sua Origem como um livro de argumento único, e chegou mesmo a chamar esse texto de “resumo”, enquanto preparava volumes maiores e outras obras que abordavam aspectos que ele mesmo tinha deixado de lado.3
Segundo Pallasmaa, Richard O. Prum, em The Evolution of beauty, resgata alguns aspectos que Darwin deixou indicados em outras obras depois de ficar encucado com alguns elementos, por exemplo, as caudas dos pavões. Como pensar essa belezura do ponto de vista da luta pela sobrevivência? Certamente a missão foi um tanto difícil, e foi preciso recorrer a outras coisas.4
Mas, mesmo que Darwin considere que a beleza pode entrar nessa conta, ainda vemos que se trata, no fundo, de uma espécie de conta.
Darwin fez tanto sucesso porque esteve diretamente alinhado com os valores morais de sua época – e quem sabe, também, da nossa. É certo que arranjou, também, muitos inimigos, principalmente aqueles relacionados à “teologia racional” e à perspectiva newtoniana do mundo (ou seja, não foi pequena a briga). Ao mesmo tempo, Darwin utiliza esse vocabulário – e, portanto, essa grade de pensamento – da economia5, que passou, a partir de então, e, evidentemente não só por conta dele, a dominar todas as nossas análises e sentimentos sobre a vida.
Pois não somos nós, seres humanos em pleno 2026, que queremos fazer de nós mesmos um capital produtivo? Que utilizamos incontáveis apps e apetrechos para monitorar nossas mínimas escolhas, hábitos, pulsações e, assim, otimizar o nosso dia? Que falamos das nossas relações pessoais como questão de custo-benefício? Que fazemos de todos os nossos estudos, hobbies e prazeres algo “monetizável”? Que transformamos os nossos mestres espirituais, as nossas amizades – e até os nossos amores – em fonte de “networking”?
Não sabemos mais viver sem esse vocabulário, e, com isso, não sabemos mais pensar e sentir fora dessa grade de inteligibilidade.
Darwin é ou não é uma grande peça para o entendimento de nós mesmos, (ainda que fale, evidentemente, de um ponto de vista não humano, geológico!!)?
Para além da crítica, há também o posicionamento de Nietzsche em relação a Darwin, que dá um pano gigantesco para a manga. Para Nietzsche, nunca se trata de apontar a incoerência no raciocínio, mas de calibrar a balança do valor moral. Mas isso já é assunto para, quem sabe, outro texto. É outra coisa.
Outra coisa também é Piotr Kropotkin, o geógrafo e anarquista russo que descreveu o apoio mútuo como um fator de evolução. É ou não é uma vida... mais bela?
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Juhani Pallasmaa. Animais arquitetos. Tradução de Maria Luisa de Abreu Lima Paz. São Paulo: Olhares, 2024. p. 18-19.↩
Pedro Paulo Pimenta. O grande livro de Charles Darwin. A origem das espécies por meio da seleção natural. São Paulo: Ubu Editora, 2024. p. 20↩
Op. cit. p. 11↩
Juhani Pallasmaa. Op. cit.↩
Pedro Paulo Pimenta. Op. cit. p. 23.↩