A vida de uma garota de 30 anos

O valor da cólica

Chegou aquele período do mês em que digo para todo mundo que encontro que EU ESTOU COM CÓLICA. Alguns respondem com um olhar de dó, outros de indiferença. Mas falo para todos!! Ninguém merece ficar com cólica e ainda passar por isso quieta. O problema é que “cólica” é uma palavra só e não sei bem se ela é capaz de transmitir para o interlocutor a dimensão do problema que nós, mulheres, enfrentamos. A minha cólica começa bem silenciosa, bem encolhidinha, fingindo para mim que ela não está ali. Dois dias antes da cólica vir com tudo, me sinto mais lenta, como em um ritmo descompassado com o mundo. A vontade é de deitar na cama e me enrolar como um bebezinho em um monte de cobertas. De vez em quando as enxaquecas aparecem. Eu penso que elas vieram por conta da luz branca da cozinha, do almoço que não caiu tão bem, do cheiro do perfume da vizinha no elevador. Mesmo que eu marque no meu calendário os dias em que estou menstruada, de primeira nem penso em chutar que esses sintomas todos são por conta desse período tenebroso que se aproxima. A grande parte de nós menstrua todo mês, mas tem vezes que sequer nos lembramos da existência da menstruação. Acho que é porque quando esse período cessa nos sentimos tão fortes, tão magníficas, tão enormes que não queremos nos recordar daquele miserê que vivemos na semana passada.

Enfim, chegou aquele dia de cólica total e eu, que nem percebi a bichana se alojar dentro de mim, estava a todo vapor. Planejei várias coisas (e outras tantas me pegaram desprevenida), esquecendo os primeiros sinais ou ignorando o calendário da menstruação para ver se ela me esquecia e ia embora sem causar grandes transtornos. Acontece que na noite de ontem não consegui encontrar uma posição adequada para dormir. Me virei e revirei na cama a noite toda, e nada me satisfez. Sempre aquela sensação de ventre gelado, não importa quantas cobertas se acumulassem sobre o meu corpo. Sempre aquela sensação de pés gelados, mesmo vestindo meias grossas. Sempre aquela infeliz cólica que, perdendo a timidez, se manifestava a plenos pulmões. E eu lá: meio trôpega de sono, meio atenta por conta das contrações que não me deixavam ignorá-las por completo. Dormi mal, acordei inchada e enjoada. O café da manhã foi relativamente bom, troquei o café pelo chá de orégano e erva-doce. Tudo para afastar a maldita.

Ao mesmo tempo, fico com um pouco de receio de me referir a ela assim, mesmo que ela me coloque, uma vez por mês, nessa posição de cachorro sem dono, chutado, humilhado e carente. (Não vou nem entrar nas questões da TPM e dos hormônios, porque aí é para acabar mesmo.) A cólica, por mais odiosa que seja, nos dá uma perspectiva da vida totalmente única. Por alguns dias do mês, nós enxergamos o mundo do ponto de vista de alguém que sofre muito, sofre para fazer as mínimas coisas; alguém que olha o mundo e se impressiona com sua capacidade continuar o mesmo, enquanto nós estamos aqui em frangalhos. O trabalho nos exige exatamente a mesma coisa, como se nós estivéssemos sempre e todos os dias com a corda toda. Quase nos sentimos constrangidas por desmarcar os compromissos agendados há tanto tempo por conta de uma cólica. Seguimos saindo de casa, nos encontrando com pessoas, sendo agradáveis, mesmo com essa dor dentro de nós, essa dor surda que não vem em ondas, mas que permanece em sua constância. Vejam como essa única característica do corpo feminino muda a visão sobre as coisas e sobre o mundo. Por isso que, mesmo amaldiçoando a cólica quando ela vem, de um ponto de vista transcendental, ela nos garante uma capacidade de compreensão muito mais ampla da vida. (E, talvez ela consiga isso justamente nesse ponto transcendental, o ponto de vista “sem corpo”, uma vez que, nesse lugar, não sofremos tanto assim.)

Capacidade de compreensão muito mais ampla da vida que nos chega por meio da cólica, sim! Porque ela nos reduz a uma sensibilidade exacerbada, a uma necessidade de cuidados extremos, a uma vontade de nos poupar de tudo – mas o mundo, ah!, o mundo não é assim, ele não compreende isso. Então lá vamos nós, colocamos a nossa cara no mundo com tal sensibilidade, com tal necessidade habitando o nosso interior. E com que olhar conseguimos, então, captar todas as coisas da vida! Vemos dois desconhecidos se abraçando na rua e nos emocionamos. Ouvimos ao longe o som da televisão, que noticia mais um caso grotesco de violência, e nos sentimos completamente afetadas por ele. Derrubamos uma caneta no chão do escritório e nos sentimos a pessoa mais inútil do mundo. Como gostaríamos que alguém simplesmente se abaixasse para pegar aquele objeto e colocasse-o em nossas mãos... Percebemos uma sirene de ambulância passar rapidamente na avenida e torcemos para que tudo dê certo, amém! Pensamos nos amados com maior amor, queremos a nossa justiça com maior afinco, não perdoamos tão facilmente quem nos machuca. Ficamos tão dentro de nós, pelo menos por dois ou três dias, que nos lembramos de quem somos. E, muitas vezes, descobrimos também que não somos tão bonitas, tão pacíficas, tão ordeiras quanto pensávamos, porque nesses dias podemos sim nos transformar no cão!! É por isso que aprendi a amar as minhas cólicas, mesmo que elas me acabem. Elas têm o seu valor.


<Anterior | Próximo>