Outra coisa
Esse é o tipo de relação que soa estranha. No entanto, não pude evitar e lembrei de Conceição Evaristo ao ler, ontem de noite, essa tirinha do Snoopy.

Parece estranho porque, nesse tipo de relação, podemos pensar “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Mas me deem uma chance, e vocês verão que talvez essa relação faça sentido também por aí.
O livro Histórias de leves enganos e parecenças é o primeiro de Conceição Evaristo com o qual tive contato em toda a minha vida. É uma reunião de contos, curtinhos ou mais longos. Em uma primeira folheada, durante a leitura das primeiras páginas, não me senti muito bem. Senti algum incômodo que eu não sabia como explicar. Deixei o livro de lado. Passados alguns dias ou até mesmo semanas, retornei para essa leitura depois de conversar sobre esse meu incômodo com outra pessoa. E, aí, a leitura foi outra coisa.
O livro trata exatamente sobre o que diz o título: leves enganos e parecenças. Isso quer dizer que Conceição constrói magistralmente um cenário para você esperar que uma coisa aconteça, mas acontece outra. Talvez na minha primeira leitura eu não estivesse confortável nesse descompasso, e me sentisse (de uma maneira que é estranho agora dizer, mas talvez fosse isso mesmo que eu sentisse) um tanto insegura ao ler aquelas palavras. Algo ali não se encaixava, algo ali era um território esquisito, algo ali era talvez até uma perdição.
Mas quando entendi, por meio da tal conversa, que a proposta da autora era mesmo essa, me senti arrebatada. Eu sempre fico maravilhada com as emoções que os livros despertam na gente, e um autor que consegue atingir exatamente o que ele quer, com um punhado de palavras reunidas, é alguém quase divino.
Algumas histórias de Conceição tratam de violências que duraram séculos, como o tráfico de escravizados da África em direção às Américas. Outras, de violências com as quais “nos acostumamos” nos dias de hoje, como a de uma mãe que vive na periferia do Brasil e já viu morrer seus três filhos, ainda garotos.
Mas hoje quero mostrar para vocês como Conceição consegue trazer sua escrita também para coisas que são corriqueiras, menores e surpreendentemente preciosas. Assim como faz também Schulz, o autor das famosas tirinhas de Snoopy, que nos fazem pensar sobre questões filosóficas e éticas da vida por meio de uns poucos quadrinhos.
A primeira história do livro de Conceição se chama “Rosa Maria Rosa”, e narra a dificuldade dessa personagem de abraçar as outras pessoas. Ela “parecia ter um problema”, fechava seu corpo como se pregasse nele grandes grades de ferro toda vez que alguém buscava seus abraços. Apesar de ser linda, e desejada por muitos, Rosa não se entregava e guardava seus toques de carinho apenas para as crianças e as mulheres velhas.
Nesse momento, eu, como leitora, já comecei a ficar apavorada. O que teria acontecido com Rosa para viver assim? Que tipo de desgraça a teria acometido? Quais seriam as suas dores? Mas é aí que a magia de Conceição entra em cena: Rosa não tinha coisa horrível nenhuma, e, em um dia de calor, levantou os braços como se fosse uma ave. Debaixo dele, escorreram gotas de suor que se transformaram em pétalas de flores que voavam ao vento. Esse era o seu segredo.1
Conceição nos faz imaginar algo que não é, brinca com as ilusões e nos mostra a maravilha da vida em coisas que não poderíamos conceber alguns segundos atrás. De vez em quando, não é exatamente disso que precisamos? De algo ou alguém que nos desconcerte?
A tirinha de Snoopy, por exemplo, pode ser interpretada de duas maneiras: de uma forma irônica, como se nada tivesse mudado, ou de uma forma “à la Conceição”, onde uma pequena coisa muda tudo. Essa é a beleza desse pequeno cão e dessa grandiosa autora: são sempre capazes de nos mostrar uma coisa, uma pequena coisa, uma simples coisa. E, por meio dessa coisa que eles nos mostraram, somos capazes de viver, de experimentar, de vivenciar outra coisa, de fazer de nós mesmos outra coisa.
Com eles, a vida sempre pode ser mais.
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Conceição Evaristo. Rosa Maria Rosa in Histórias de leves enganos e parecenças. Rio de Janeiro: Malê, 2017. p. 19-20.↩