Professora de Filosofia
De ontem para hoje eu sonhei que era professora de Filosofia em uma sala de aula cheinha de alunos desinteressados e emburrados com a minha presença. Todos eles me observavam como se eu falasse grego. Para eles, nada daquilo fazia sentido. Atrás de mim, um quadro verde cheio de caracteres matemáticos em giz azul. Um aviso: favor não apagar a lousa. Mas as contas ocupavam todo o espaço. É um pedido um tanto além da conta solicitar que a lousa não seja apagada durante uma semana, até o retorno da aula em que a conta será, por fim, finalizada.
Não sei se os estudantes ali presentes entenderam aquela operação complexa. Não sei nem identificar se a bendita conta está realmente finalizada ou se ela ainda está por se desenvolver.
Enquanto isso, pergunto para eles o que é amor. Todos me encaravam perplexos. Era uma aula de Filosofia na qual deveríamos pensar sobre o amor. Eu pretendia, a partir das respostas deles, iniciar uma discussão sobre o tema. Mas ninguém me respondeu. Todos estavam ocupados comendo, dormindo até babar, brigando uns com os outros, olhando para o teto. Era frustrante. Permanecemos assim por 45 minutos.
Ao final da aula, fiquei tão nervosa com aqueles rostos estáticos que decidi passar uma tarefa de casa para a semana que vem. Um ensaio com o tema “O que é amor"? Não expliquei para eles o que é um ensaio. Nem sei se eu mesma sei o que é um ensaio. Mas mesmo assim apago a primeira parte da lousa, a parte inicial do cálculo, acreditando que aquilo ali já foi resolvido (e, ainda assim, compreendendo que este meu ato atrapalharia a visão geral da operação matemática na próxima aula, torcendo para que algum daqueles estudantes contrariados houvesse de fato copiado esta primeira parte para que ela fosse reproduzida no quadro daqui a sete dias etc. etc).
Escrevo no quadro verde com giz rosa choque: tarefa para a semana que vem. Em branco: ensaio sobre “O que é amor”? Mínimo de 10 linhas, máximo de 20 linhas. Escrevo 20 linhas porque penso que depois terei que ler todos aqueles ensaios e seriam tantas e tantas páginas de leitura... No mesmo instante me arrependo, desejo alterar para 30 linhas, porque percebo que, de qualquer maneira, eles não irão realizar aquela tarefa. E quem sabe eu tenha uma boa surpresa com alguém que deseja escrever, no auge dos seus 14 anos, 30 linhas sobre o amor. Bom, agora já foi. A professora de teatro já está na sala e eu me despeço deles no batente da porta que fica no canto esquerdo da sala, ao lado de duas janelas cobertas por cortinas grossas e sujas.
Este foi o sonho que me fez retornar para aquele meu velho e tolo pensamento que me convida a ser uma escritora. Sou eu quem quero escrever ensaios, não necessariamente sobre amor, mas sobre qualquer coisa, sem nem ao menos saber do que se trata um ensaio? Talvez. Sempre mantive diários esparsos, escrevi inícios de artigos que não publiquei, estou sempre a dar pitacos dentro da minha cabeça nos textos de outras pessoas. Leio apaixonadamente, desde criança. Os livros sempre foram os meus amigos. Tenho adoração pelos diários de escritores. Gosto de conhecer suas rotinas, suas palavras diante de acontecimentos avassaladores de conhecimento geral ou de aspectos muito íntimos de suas vidas de gente comum. Gosto de ver a pessoa ao lado de sua obra. E a minha obra está sempre por se fazer, dentro da minha cabeça, com os meus poucos papéis, quadros, tintas. E com tudo aquilo que digo, mas, sobretudo, com o que muitas vezes não digo. Enfim, estarei eu aqui agora para finalmente dizer? Talvez.
Sobre livros e artistas e suas obras, vi também nos últimos dias que o último livro lançado muito recentemente no Brasil da Olga Tokarczuk discute sobre a autoria de homens e mulheres. Entre um dos vários questionamentos está o seguinte: ao ler um texto de autoria desconhecida, é possível identificar se o texto é escrito por uma mulher ou um homem? Uau! Achei isso incrível porque este pensamento me corrói há anos.
Em alguns momentos particulares da minha vida, sinto repulsa por ler autores homens, e desejo ser preenchida somente de mulheres. Que elas preencham meus pensamentos, meus sentimentos, minha visão, minha alma, minha mente. Que elas me formem por inteiro. É verdade que estou em falta com as mulheres contemporâneas, pois me pego sempre voltando para as amadas Virginia Woolf (sempre ela, em primeiríssimo lugar!), Sylvia Plath, Clarice Lispector1. Inclusive neste momento elaboro na minha agenda uma lista de autoras mais recentes que desejo ler pela primeira vez ou ler mais2. Mas esta repulsa pelos autores homens... me pergunto de onde ela vem. Pois os homens, ao menos neste aspecto da arte e da vida, também são meus amigos na grande maioria do tempo. Na grande maioria do tempo, não me incomodo com o que se passa nesta seara. Mas, de repente, como nos últimos dias, em um movimento brusco, escondo de mim todos os títulos escritos por homens que estavam na minha cabeceira e na minha mesa de trabalho. Mesmo que a leitura esteja em andamento. De repente, tudo aquilo me parece tão limitado e frio. E agora mesmo leio Nastassja Martin antes de dormir e me delicio com a sua visão sobre a vida.
Claro que há nuances entre as mulheres, e que elas não são uma coisa só. Claro que eu mesma possuo as minhas preferências. Também sou crítica com elas. Mas há algo na visão de um homem que torna quase impossível que ele capture certas nuances, delineie certo brilho, identifique certo absurdo. E, de tempos em tempos, isso me causa um siricutico e desejo despejá-los todos pela minha janela. Depois, passa!!
Acharia incrível, no entanto, se algum dia a identidade de Elena Ferrante se mostrasse ao grande público e ela se revelasse um homem. Ele teria adentrado o mundo das mulheres de uma forma extraordinária.
Segue a lista:
- Elena Ferrante (1943 — )
- Olga Tokarczuk (1962 — )
- Ágota Kristóf (1935-2011)
- Anne Ernaux (1940 — )
- Nastassja Martin (1986 — )
- Svetlana Aleksiévitch (1948 — )
- Socorro Acioli (1975 — )
- Irene Solà (1990 — )
- Wisława Szymborska (1923-2012)
- Mary Oliver (1935-2019)
- Joan Didion (1934-2021)
- Ursula K. Le Guin (1929-2018)
- Isabel Allende (1942 — )
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