A vida de uma garota de 30 anos

Kill Bill vol. 1 ama as mulheres

KillBill

O fascínio pela cultura japonesa e todas as suas nuances. Seus haikais, sua comida suave, sua relação com a natureza, mitos, monstros. Sua arte, sua visão da vida e do mundo, seus ensinamentos de mestres, as religiões. Seu autoritarismo, seu alto índice de suicídios, suas cidades insanas voltadas somente para o trabalho, seus fetiches sexuais com uma beleza feminina quase infantil, seu racismo. São as várias facetas que compõem este fenômeno chamado Japão.

Tarantino faz uma homenagem à altura desta contradição em Kill Bill vol. 11. São diversos os elementos que solidificam a paisagem: da infância de O-ren, contada por meio do anime, às inúmeras cenas de lutas marciais sangrentas que intercalam o riso diante do estapafúrdio, do exagerado, com as cenas em preto e branco que remetem aos filmes antigos de samurais. Homenagem gigantesca, mas que não esquece do racismo japonês contra os mestiços e da problemática do desejo dos homens por mulheres que sejam ou que se pareçam muito jovens, colegiais. As cenas que abordam essas problemáticas são conduzidas magistralmente por mulheres e, ao mesmo tempo, por garotas2. Mas há também outros motivos pelos quais Kill Bill vol. 1 demonstra o seu amor pelas mulheres. Aqui vão alguns:

  1. Violências reais que as mulheres vivem são abordadas sem rodeios. As cenas de violação sexual no hospital com Buck são apavorantes. Ao mesmo tempo, o filme não coloca nenhum peso sobre a mulher que revida esta violência também com violência. Buck teve o que merece e ele é rapidamente esquecido para que coisas mais interessantes aconteçam.

  2. Os homens aparecem sempre em segundo plano, como auxiliares ou inimigos fracos nas lutas que morrem facilmente e aos montes. Evidentemente que há Bill, a figura que comanda tudo aquilo de uma maneira distante. Mas a história toda se desenrola nas mãos das mulheres. Elas são as mais fortes. E é delas o destino da história, seja no duelo entre O-ren e a personagem de Uma Thurman, cujo nome ainda não foi revelado, seja no início da história, no confronto entre esta personagem e Vernita Green. O desfecho desses poderosos duelos também fica na mão de outra mulher, Sofie Fatale, braço direito de O-ren e ponte que liga o filme 1 com o filme 2.

  3. Há sensualidade sem sexualização barata. Não há apelação na exposição dos corpos das mulheres: ausência de nudismo pornográfico para satisfazer olhares masculinos, opção por não mostrar de maneira explícita cenas de violência sexual (ao mesmo tempo em que todo tipo de morte sangrenta ocorre nas lutas marciais), apoio total ao consentimento da mulher para que o prazer, enfim, exista. Na cena inicial, ouvimos a voz de Bill discorrer sobre sadismo e masoquismo ao mesmo tempo em que vemos na cena uma mulher quase morta e desgostosa com o que escuta. Mesmo que Bill trace a relação correta entre sadismo e masoquismo, vemos que naquele momento a mulher não tem prazer nenhum . Esta cena é logo cortada para o desenrolar do filme que retrata a busca por vingança dessa mulher forte, preparada, invencível. Não há violência contra a mulher transposta de forma banal para a tela do cinema em busca do contento de machos autocentrados.

  4. O filme aborda também a questão das mulheres com a maternidade e o trato com os mais jovens. Vernita Green compreende de forma total que fez algo que merece vingança. Deseja duelar, entende que não dá para voltar atrás diante de suas atitudes. Mas não deseja morrer na frente da filha de 4 anos. E sua inimiga, que deseja matá-la, também não deseja fazer isso na frente de uma criança. As duas exceções nos duelos que a personagem de Uma Thurmam abre são para pessoas mais jovens – pessoas estas que ela considera que não seriam capazes ainda de oferecer uma igualdade na batalha. Comparada a eles, ela é mais experiente e muito superior nas lutas corporais. Ela sabe disso. Por isso, pede para que Gogo, a fiel guarda-costas de O-ren, que tem apenas 17 anos, vá embora e não lute em nome da patroa. Ela também dispensa o último soldado do exército Crazy 88 por este ser jovem demais. Gogo morre no final da luta, porque decide não ir embora. Já o soldado, rodeado pelos corpos mortos e cambaleantes de seus comparsas, corre apavorado depois de ouvir de sua inimiga que ele deveria voltar para a casa da mãe. Fica aquela pergunta no ar: se esses personagens fossem homens, qual seria o trato com essas figuras? Seria mais prazeroso matar o inimigo diante de uma criança e traumatizá-la? Seria mais vitorioso matar de maneira fácil dois combatentes menos experientes e fazer de si mesmo o mais glorioso? Penso que sim. Por isso é que impressiona a perspectiva feminina presente no filme, que, não de maneira contraditória, está presente diante do banho de sangue na última cena do restaurante.


Kill Bill vol. 1 ama as mulheres. E eu amo Kill Bill vol. 1.


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  1. Embalada por uma trilha sonora fantástica que dialoga com as imagens exibidas e nos leva nessa corrida de acordo com os ritmos exigidos. É impossível não notar também este aspecto.

  2. Primeira cena: O-ren decepa a cabeça de Tanaka no conselho de mafiosos quando ele questiona sua ascendência mestiça (ela é japonesa, chinesa e estadunidense). Este é o único questionamento que ela não permitirá ser proferido pelos seus pares. Segunda cena: Gogo pergunta para um homem mais velho se ele deseja ter relações sexuais com ela. Quando este diz que sim, ela o esfaqueia na barriga e se diverte com a situação. Terceira cena: O-ren mata o chefe da Yakuza aos 11 anos porque ele é pedófilo e tenta ter relações sexuais com ela. Ela o mata sentada em seu colo, no interior de um quarto privado.