São Paulo em período eleitoral
São oito milhões de habitantes
De todo canto e nação
Que se agridem cortesmente
Correndo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor1
Ontem fui dar uma voltinha para uma consulta médica. Qualquer coisa no bairro ao lado pode demorar quase 3 horas na nossa versão paulista da “cidade maravilhosa”. As ruas estão tomadas de folhetos, adesivos e aqueles totens que se parecem com uma viseira de praia gigante. Não sei como descrever esse objeto tão enfadonho que aparece no nosso dia a dia só nesse período, igualmente de difícil explicação.
São Paulo ganha, nessa época, um ar pesado. Uma disputa hostil para ver quem vai colocar mais policiais em cada esquina.
Eu não pretendia fazer esse texto para o blog, mas fui escrever um microblog de um parágrafo e acabou saindo tudo isso aqui. Porque Política, para mim, desde que me meti na faculdade, é motivo de estudo. E como estudei! Quase 10 anos de disciplinas semanais sobre a “odiada” Política. (Já repararam que todo mundo que fala que “odeia” Política fala dela sem parar?) Depois de tanto estudo, sinto que “sei de quase tudo”. Mas saber, nesse terreno, não é algo de muita importância. Acredito que por isso a minha eterna busca pela História Antiga, período em que Política e vida faziam parte da criação do bicho homem. Como Michel Foucault, me empanturrei de modernidade e desesperadamente me refugiei, depois, nos antigos.
Não me sinto muito impelida a falar de partidos, de propostas, de candidatos. Esse terreno da polêmica nunca foi para mim. Esse texto, mesmo que simples aos meus olhos, pode ser engolfado em alguma outra polêmica qualquer de lado A e lado B. Aqui em São Paulo, não é raro ver brigas em bares por conta da política. O lado A e o lado B se encontram com umas biritas e aí vocês já sabem.
Uma vez viajei para outro país e um garoto muito esperto que me encontrou em uma escada rolante me perguntou de onde eu era. Eu disse que era de São Paulo. Ele me disse: “ah, a cidade dos helicópteros!”.
Qualquer morador de fora que vem para São Paulo me diz ficar chocado com a quantidade de pessoas em situação de miséria nas ruas. Acredito que quem nasce e cresce aqui se acostuma com tamanha desgraça diante dos olhos. Mas a verdade é que, em São Paulo, mesmo que essas pessoas sejam “invisíveis”, elas estão mesmo em todo o lugar e ao lado dos prédios espelhados com helicópteros.
Sinto que no Rio de Janeiro, nosso irmão-avesso da região, a desigualdade sobe os morros. Em São Paulo tem tanta gente que não tem morro para esconder tamanho horror. A pobreza está ao lado da riqueza, dos engravatados e dos totens de mau gosto das campanhas eleitorais. Tem alguns candidatos cujas fotografias são tão batidas que se parecem até com apresentações dos vilões do Homem-Aranha, super-herói adolescente que é tão bobo que ganhou o epíteto “só apanha”.
A verdade, porém, é que Homem-Aranha nenhum virá nos salvar dessa lenga-lenga eterna, que vai e vem a cada dois anos e muda pouca coisa do ponto de vista do que importa. A miséria da vida continuará a se proliferar, e poucos têm a coragem heroica de um padre Júlio Lancelotti diante das nossas desigualdades e violências.
Vocês sabem que eu gosto de ver arte na vida. E a Política pode estar (e, na verdade, sempre esteve) relacionada com a arte. Mas esse é um assunto tão mais vasto que não cabe agora, quando estamos imersos na sanha de viver a vida em lado A e lado B. Tudo, por ora, está como que prendendo a respiração. Todos estamos tensos em São Paulo. Aqui, somos violentos uns com os outros. Dentro e fora de casa, nas ruas, nas campanhas, nos bares, nas esquinas.
Quero que sobre nós caia uma chuva, lave a nossa alma. E que, depois, possamos sair desse torpor e nos dar conta da nossa miséria.
Ah, São Paulo, você que me ensinou tudo que sei, você que me deu a casca para viver em uma cidade tão bruta desde os meus pequenos anos. Que mostra para as crianças que o mundo é, sim, duro, mesmo quando elas ainda merecem viver uma vida encantada. Ah, São Paulo, você me criou e me formou e, por esses e outros motivos, é que eu digo: a Política, quando é transformada em coisa mesquinha, nos paralisa, nos amedronta, nos evoca infindáveis violências... nos faz pensar que a nossa solução final é um apertar de botões. Ah, São Paulo, você é o meu amor!
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Tom Zé. São, São Paulo. Grande liquidação, 1968.↩