A vida de uma garota de 30 anos

Histórias de sexta-feira

Não criem expectativas, porque eu não sou uma pessoa baladeira. Essa sexta-feira foi como as outras, sem grandes aventuras nas ruas noturnas das cidades. Desanimador para quem lê? Talvez. Mas a minha vida é assim mesmo, gente. Não tem como mentir...


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Tudo se encaminhando bem no trabalho. Durante essa semana, consegui correr um pouco atrás do atraso que ocorreu na semana passada por conta dos problemas de internet que rolaram por aqui. O bom é que lá ninguém me enche o saco para entregar mais rápido ou reclama que estou indo devagar. Ao contrário, me dizem que tudo está indo perfeitamente bem. Estou feliz com isso.

Acredito que estou fazendo um bom trabalho com a atualização das aulas. Basicamente o que eu preciso fazer lá é validar e corrigir textos, vídeos, atividades de lição de casa e jogos digitais que já estão prontos e atualizá-los em questões sensíveis, além de adotar abordagens mais adequadas para temas contemporâneos. De vez em quando, o texto vem bem ruinzinho, e aí preciso praticamente reescrevê-lo.

Enfim, dar a famosa repaginada, afinal, é assim que se faz ciência. Descobrindo o novo, ajustando o antigo, remodelando as coisas.

Para mim, é uma tarefa bem tranquila. Quando fico com dúvidas, tenho tempo disponível para pesquisa, e consigo fazer essa tarefa de maneira adequada por meio de artigos, pesquisas científicas e livros que acumulei ao longo dos anos. Se necessário, consigo ir a uma biblioteca para consulta maior. Dá tempo para tudo isso. É um bom trabalho e nessa editora as pessoas confiam no que eu faço. Então eu não sou supervisionada em relação às perspectivas que adoto para o material ou ao que eles acham certo ou errado. Eles deixam isso por minha conta.

Claro que não saio fazendo alterações irresponsáveis, e gosto sempre de consultar, como me ensinou Mikhail Bakunin em meus primeiros anos acadêmicos, mais de um. Fulano falou X sobre determinado assunto. Vamos ver agora o que diz Ciclano e Beltrano. Aí, sim, redijo o texto de maneira a abarcar o que me soou mais adequado. Vejam o que diz esse russo tão amado em meu coração sobre consultar sempre mais de um.


Decorre daí que rejeito toda autoridade? Longe de mim este pensamento. Quando se trata de botas, apelo para a autoridade dos sapateiros; se se trata de uma casa, de um canal ou de uma ferrovia, consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. Por tal ciência especial, dirijo-me a este ou àquele cientista. Mas não deixo que me imponham nem o sapateiro, nem o arquiteto, nem o cientista. Eu os aceito livremente e com todo o respeito que merecem sua inteligência, seu caráter, seu saber, reservando todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. Não me contento em consultar uma única autoridade especialista, consulto várias; comparo suas opiniões, e escolho aquela que me parece a mais justa. Mas não reconheço nenhuma autoridade infalível, mesmo nas questões especiais; consequentemente, qualquer que seja o respeito que eu possa ter pela humanidade e pela sinceridade desse ou daquele indivíduo, não tenho fé absoluta em ninguém.1


Geralmente, alguns materiais didáticos mais antigos se detêm em um olhar só, ou seja, “consultam apenas um sapateiro”, e saem falando por aí, por exemplo, que a História é uma “ciência do passado” e que o historiador é o profissional que “produz conhecimento sobre o passado”. A proposição de Marc Bloch, historiador da Escola dos Annales que situa a História em relação ao presente e ao passado, e a formula como “ciência dos homens no tempo”, ou seja, a História como a ciência que nos permite compreender determinada sociedade em determinado tempo histórico, é um debate que ocorre há pelos menos 50 anos. E ainda tem livro didático que está por fora disso. Dá pra acreditar?

Sorte a minha que eu consigo ajustar tudo isso em paz. E que, justamente por isso, me poupam um trabalhão que é ficar explicando tudo isso para gente desinteressada, que, no final das contas, nos outros lugares em que trabalhei, sempre me dizia: “deixa como está que é mais fácil. Pra que arrumar?”. É triste pensar que a maioria das chefias é assim, mas é a verdade.

Não sei se o pessoal que trabalha comigo atualmente tem esse tipo de interesse e, muito provavelmente, talvez não o tenham na mesma intensidade que eu. Mas só deles me deixarem livre para não ter que lhes explicar já é, para mim, grande avanço. Por isso que a minha felicidade está bem maior do que eu imaginava em relação ao trabalho. Será que finalmente me encontrei?


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Estou oficialmente menstruada e, com isso, tomada pelas horríveis enxaquecas. Esse negócio um dia vai acabar comigo. Estou determinada a ir em outros médicos que eu estou protelando há anos, entre eles, algum que dê conta dessa enxaqueca.

A verdade é que quando a gente fica ruim por um tempo maior e depois passa por uma melhora, a gente fica querendo nunca mais voltar para o mundo dos médicos! Dá uma vontade de sumir dos consultórios, de não ser mais uma pessoa tão cuidadosa com a saúde. Mas a vida real não é assim e, agora, sinto que eu preciso marcar todos esses outros médicos que ficaram em suspenso quando eu estava cuidando da parte mais precária.

Nós, quando estamos doentes, só queremos ser vistos como saudáveis. E a sina da nossa vida se torna atingir a saúde, porque pensamos que, ali, não há mais doença. Mas a doença e a saúde são apenas duas faces da mesma moeda, uma vez que doença não é necessariamente o oposto de saúde. Ao contrário, ela nos dá uma nova perspectiva sobre a própria saúde.

Esse assunto pode render tanto para mim, que passei mais de ano de cama, tanto para Nietzsche, que escreveu o meu livro “guia da vida” depois de um grande período também doente. Em A gaia ciência, Nietzsche escreve suas mais belas palavras sobre aquilo que ele chama de “embriaguez da convalescença”, ou seja, aquele período transitório no qual nos encaminhamos para a nossa saúde:


Todo este livro não é senão divertimento após demorada privação e impotência, o júbilo da força que retorna, da renascida fé num amanhã e no depois de amanhã, do repentino sentimento e pressentimento de um futuro, de aventuras próximas, de mares novamente abertos, de metas novamente admitidas, novamente acreditadas. E quantas coisas não deixei para trás!2


Mas não pensem que, com isso, Nietzsche “se livra” da doença. Diz também ele:


Vê-se que eu não gostaria de despedir-me ingratamente daquele tempo de severa enfermidade, cujo benefício ainda hoje não se esgotou para mim: assim como estou plenamente cônscio das vantagens que a minha instável saúde me dá, em relação a todos os robustos de espírito.3


Esse papo ainda renderia horrores para mim! Quem sabe outro dia?


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A escrita do meu livro anda a passos lentos, mas anda. Escrever esse livro está sendo diferente de tudo o que já fiz porque mexe com coisas das minhas entranhas mesmo. E também porque nunca escrevi ficção de maneira extensa. Por enquanto, reúno grandiosas três páginas, o que, para o blog, faço em um estalar de dedos. Quando escrevia minhas pesquisas acadêmicas, também nunca tive problemas em relação a isso. Mas não quero encarar isso como um problema. Talvez seja só, afinal de contas, uma forma nova de escrever, que é tão mais livre porque pode abarcar todas as possibilidades. Eu posso fazer ali qualquer coisa, desde que faça sentido dentro da história. E o que, diante de um escritor, não pode ter o seu sentido? Pouca coisa!


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De noite, tive a oportunidade gloriosa de ficar sozinha em casa e me dei um tempo para me apaixonar. Passei a noite na companhia do glorioso Rainer Maria Rilke. Foi amor à primeira leitura. Ainda vou escrever mais sobre ele em outro texto, mas só quis deixar registrado que o conheci em uma sexta-feira à noite, depois de uma derrota do meu time contra o Santos em pleno Morumbi. Aff... Mas queria registrar também que nem fiquei de mau humor graças a esse homem. Que poeta!


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  1. Mikhail Bakunin. Deus e o Estado. Tradução de Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Hedra, 2011. p. 64.↩

  2. Friedrich Nietzsche. Prólogo, §1. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 9.↩

  3. Op cit. Prólogo, §3. p. 12.↩