A vida de uma garota de 30 anos

Se eu fosse eu

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? 1


Nesse final de semana, muitas coisas aconteceram. Coisas intensas. Eu comigo mesma, eu com os outros. Possíveis entendimentos, desentendimentos vários, brigas, gritos. O de sempre. Em meio a tudo isso, assisti a um filme que queria ter visto no cinema, mas só consegui ver agora em uma televisão comum, dentro de casa, em um sábado no clima “pós-festa de sexta”. Ainda assim, amei de paixão. O filme é o Mickey 17 (2025). Amei, amei, amei. Depois vejo se escrevo um texto abordando mais coisas sobre ele. Hoje quero utilizá-lo somente como um gancho para falar sobre outras coisas, devaneios, imaginações.

Seguiremos, então, apenas por um caminho. Mickey, o protagonista do filme, se vê, por uma série de circunstâncias muito específicas e absurdamente não tão absurdas, diante da seguinte pergunta: o que eu faria se eu fosse eu?



Coincidentemente, essa pergunta também foi feita pela minha psicóloga na fatídica sessão extraordinária de quarta-feira. Ela me sugeriu que eu fosse descobrindo, aos poucos, o que eu faria “se eu fosse eu”. Entre as várias perguntas que ela poderia ter feito, escolheu essas duas: onde eu moraria? Como eu moraria?

Essas perguntas, colocadas assim de uma forma tão direta, me aterrorizaram. Eu logo disse para ela que elas me causavam certo pavor porque eu nunca tinha realmente pensado nisso. Quero dizer, eu sei que eu não preciso ter a resposta para essas coisas amanhã. Mesmo assim, foi um pouco assustador pensar sobre o fato de eu nunca ter realmente pensado nisso como uma “coisa pensável”.

Ou vai ver esse terror também vem do fato de que a vida crua é sempre um pouco como a enxerga Clarice, e, por isso, ela é também uma escritora que me passa certa sensação de pavor. Fiquem com as palavras dessa escritora magnífica e, ao mesmo tempo, tenebrosa.


Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. [...] Acho que se eu realmente fosse eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até a minha fisionomia teria mudado. Como? Eu não sei. [...] “Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. 2



Então, “se eu fosse eu”, onde eu moraria? Devaneio e imagino que muito provavelmente em algum lugar mais próximo ao mar ou a qualquer corpo d’água grande e limpo. O rio Tietê, ou ao menos a sua parte que passa pelas marginais dessa grandiosa capital, não conta.

Amo absolutamente tudo o que Fernando Pessoa escreveu sobre e para o rio Tejo. O primeiro verso de uma das estrofes que eu mais amo, entre todas as estrofes que já li na vida, é assim: “Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —”3.

Também sempre gostei de livros e histórias sobre o mar, os marinheiros, os barcos. Gosto de imaginar que viveria muito bem embarcada por dias, sem saber quando veria terra firme. Aos treze anos, li o clássico O velho e o mar, de Ernest Hemingway, pela primeira vez. É engraçado que Hemingway está longe de ser o meu escritor favorito, pelo seu estilo, personalidade, abordagem etc. e tal, e, no entanto, esse é de longe o livro que mais reli na minha vida. Vira e mexe sinto uma vontade, baseada em não sei o quê, de retornar para aquelas palavras. Vai saber o que acontece...

Li O lobo do mar, de Jack London, lá pelos meus 20 e poucos anos. Fiquei apaixonada pela sua escrita e pela história da sua vida. Depois, devorei outras obras dele: O apelo da selva, Martin Eden, inúmeros contos. Queria ser como ele. Viajante, corajosa, corpo forte. Depois li também Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, e me fascinei com a capacidade desse autor, tão urbano e envolto com a vida das gentes, de falar sobre os seres do mar. A sua natureza, as suas oscilações, os ventos, as marés, as horas, os sóis e as luas. Enfim, o seu trabalho, como ele escolheu chamar. Moby dick é uma leitura que está na lista de livros que eu quero ler provavelmente desde o dia em que nasci.

Me apaixonei por todas as palavras que Sylvia Plath já escreveu sobre o mar, nos seus poemas, na sua ficção ou nos seus diários. Até hoje sinto um fascínio pelas suas fotos na praia. Gosto de imaginá-la assim, em uma vida tranquila ao som das ondas. “Às vezes penso que a minha visão do mar é a coisa mais pura que tenho”4.


SP



Também nos meus 20 e poucos anos eu tinha um período na vida, famoso e glorificado até hoje, chamado férias. Em muitas dessas férias, costumava ir com um grupo de amigos para a praia. Ficávamos em uma casa simples, pequena, com apenas um banheiro para uma grande trupe. Os colchões eram desconfortáveis. Alguns eram infláveis e, como tinham furos, iam murchando lentamente durante a noite enquanto dormíamos um sono pesado.

Hoje, quando me lembro desse tempo, vejo quão precariamente sabíamos nos cuidar. Comíamos mal, bebíamos muito, usávamos drogas lícitas e ilícitas. A vida passava mansamente, nesse ritmo, e, mesmo com poucos cuidados, vivíamos bem.

Eu adorava passar incontáveis dias ali, com as minhas poucas roupas e os meus poucos livros. Escolhia uns 3 ou 4 para a temporada. Cheguei a ler livros inteiros nessa casa, aboletada em uma cadeira plástica dobrável. A areia ainda nos chinelos, o corpo banhado de sal do mar. Gosto de como o meu corpo se sentia nessas ocasiões, com uma vitalidade que não é possível atingir em outros lugares. De noite, deitávamos em cangas estendidas sobre a grama e perdíamos a hora olhando para o céu, falando bobagens, ouvindo música enquanto ficávamos em silêncio. Os dias eram preenchidos com composição de músicas ao violão, jogos de baralho, refeições mal planejadas, imitações de lagartixas estendidas ao sol, caminhadas pelas ruas em direção ao mar e em direção à casa, cabelos molhados tarde da noite, peles queimadas, olhos vermelhos de sono e de sol. O celular era quase inexistente, cumpria apenas com a função de telefone.

Quanto mais tempo eu ficava lá, mais eu sentia que poderia nunca mais voltar para onde eu vivia inicialmente. Que viveria tranquilamente com aquele amontado de roupas e alguns livros. Os livros... sempre comigo. Meus amigos acordavam tarde, seus corpos banhados de preguiça e de ressaca. Eu, avessa à bebida, sempre passava meu café muito cedo, e aproveitava para me deleitar naquelas longas horas da manhã em que todos dormiam. A cabeça enfiada nos livros desde às 6h, 7h da manhã, enquanto recebia, com o passar das horas, “bons dias” preguiçosos, cheios de bocejos, remelas, beijos e abraços.

Como eu fui feliz ali. No pé do mar.



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  1. Clarice Lispector. Se eu fosse eu. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 197.

  2. Op. cit. p. 197-198.

  3. Álvaro de Campos. Lisbon revisited (1926). Quando fui outro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. p. 62.

  4. Sylvia Plath. Oceano 1212-W. Johnny Panic e a bíblia dos sonhos: e outros textos em prosa. Tradução de Ana Guadalupe. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2020. p. 151.