Tem gavião em São Paulo?
Onde a coruja dorme
E a águia vigia
[...]
É lá que a Lua e o Sol
Dão brilho nas estrelas
É lá que a Lua e o Sol
Traçam a rota dos cometas1
Não, gente, esse não é um título provocativo para os meus rivais corinthianos.
Aliás, quanto mais o tempo passa, mais me sinto capaz de apreciar aquilo que é dos outros. Não, não é o meu time. Mas quem disse que não posso, mesmo assim, admirar? As pessoas ultimamente pensam que têm de encontrar muitos motivos para as coisas. Então, se elas não gostam de algo, sentem uma necessidade absurda de justificar, de alguma forma, que aquilo é “do mal”. Para mim, a vida é meio ao contrário: eu acho tudo de bom, mesmo quando não faz parte “do meu time”. E daí?
Admiro a garra desses torcedores gaviões que não abandonam o time mesmo quando a bola murcha, quando tudo dá errado, quando o clube se mostra pra lá de acabado pelos mandos e desmandos de gente totalmente irresponsável. Não importa, eles estão lá. Ah! Como os são-paulinos têm o que aprender daí! E não é engraçado que, aqui na cidade, mesmo que o São Paulo seja o time do santo que mais se destacou na propagação da fé, os verdadeiros fiéis são os gaviões, famosa ave de rapina conhecida por ser traiçoeira?
Yuri Alberto, Rodrigo Garro (vejam que nome!) e Memphis Depay dão o tom e são a cara do Corinthians. E, mesmo sendo são-paulina, fiquei verdadeiramente triste quando Roger Guedes saiu do clube rival rumo ao futebol árabe – eu achava que jogador, clube e torcida tinham, nesse caso, uma sintonia fina, de imagem, de garra, de força artilheira. O histórico goleiro Cássio? Adorado por aqui também, principalmente pela alma leve, mesmo com os seus quase 2 metros de altura. Para fechar com uma breve volta no tempo: quanto sofrimento já foi criado em mim pelo glorioso Emerson Sheik!!
O atacante Luciano, do São Paulo, fecha esse laço improvável entre a minha paixão e o clube alvinegro. Obrigada, Corinthians, por esse meu grande amor. Jogador sem brilho em Itaquera, Luciano se tornou um dos mais amados pelos torcedores do tricolor paulista. Ele é o responsável pelo tempero exagerado das últimas partidas entre os dois times da capital – e não que seja feito um tremendo esforço para isso, porque esse comportamento provocador já é, digamos, seu temperamento normal.
Luciano é o bagre mais amado da cidade, e é, também, o craque menos reconhecido do Brasil. Luciano é aquilo que o torcedor são-paulino define quando grita, a plenos pulmões, em momentos de alegria e de tristeza: é Luciano!!!

Eu disse para vocês que o texto não é sobre futebol, e, realmente, ele não é. Apenas me perdi nesses breves devaneios apaixonados. O que eu me perguntava, inicialmente, era sobre os gaviões de verdade mesmo, as aves. Será que tem gavião em São Paulo?
Ontem, eu estava com um otimismo inabalável que teceu a seguinte frase: “Tudo nos conformes, no auge do bom humor, mesmo que a vida apresente tantas outras coisas que deveriam nos derrubar”. É, gente, de vez em quando é melhor se resguardar e não “cuspir pra cima”. Comecei a sentir, algumas horas depois de escrever tão motivadoras palavras, que a estrutura inabalável começara a ceder.
Então, antes que “caísse na testa”, resolvi sair de casa para fazer yoga ao ar livre. Depois de alongar, relaxar e fortalecer o corpo, decidi fazer algo que não faço há séculos: ficar deitada olhando para o céu sem fazer nada. Sem música, sem leitura, sem conversa. Só olhando mesmo. E quantos pássaros eu vi no céu! Alguns eram enormes, mesmo que estivessem à longa distância.

Não tem nenhum pássaro na fotografia. É que, quando eles começaram a aparecer, me perdi em encantamento e divagações. Foi aí que fiquei me perguntando: tem gavião em São Paulo? Não que eu saiba de fato o tamanho de um gavião. Talvez fossem urubus, porque as asas eram bem grandes.
Vi, além das aves, uma garotinha soltando bolhas de sabão da janela da casa dela, um gato preto me rondando mais ou menos de perto e uma borboleta linda, com detalhes em amarelo e laranja nas asas.
Cheguei em casa e descobri que tem gavião em São Paulo. Adoro esse Guia fotográfico de aves da cidade de São Paulo. Ele mostra as aves daqui, a localização delas, o que gostam de comer, o seu comportamento, se estão ameaçadas de extinção e em qual período do dia conseguimos encontrá-las.
Há algum tempo fiquei obcecada por pássaros. Queria saber tudo sobre a vida deles. Uma sabiá tinha construído um ninho bem na frente da minha casa e eu acompanhava a sua rotina com os filhotes.
Passei a conversar com os porteiros sobre quais espécies eles conseguiam ver ao longo do dia. Um deles, corinthiano, sabe tudo sobre pássaros e ficou obcecado junto comigo pela rotina da sabiá. Este é outro porteiro, que chamarei de M. O carismático S., que é são-paulino, não tem muita convivência assim com eles. Está mais interessado na vida das gentes. M. é mais pacato, sereno, procura se cercar de bichos em casa e no trabalho.
Nessa minha obsessão, pensei até em comprar um binóculo para observar a vida desses seres de asas. Mas confesso que, ao mesmo tempo, fiquei com receio de meus vizinhos acharem que estou espionando a vida deles, através das janelas, pelas minhas lentes distantes. Não que a vida deles não seja interessante, como me prova S. Mas a vida das aves, ah!... é outra coisa.
E agora mesmo me lembrei de um detalhe curioso, que enlaça essa nossa conversa meio misturada.
Foi também durante uma partida entre Corinthians e São Paulo que o atacante Jonathan Calleri fez, pela primeira vez, a “comemoração do binóculo”. Na hora, interpretei essa comemoração como um “cadê vocês?” destinado ao rival. O São Paulo quebrava o tabu histórico de nunca ter ganhado na Neoquímica Arena em um jogo que venceu por 2 x 1.
Era o dia 30 de janeiro de 2024. 5 dias depois, ganharíamos o jogo contra o Palmeiras e seríamos coroados os primeiros campeões da Supercopa Rei, jogo único que coloca frente a frente o campeão da Copa do Brasil e o campeão do Campeonato Brasileiro. O meu tricolor atingia, com esse jogo, a marca de “campeão de tudo”.
Calleri, depois, explicou a sua comemoração, uma vez que todo mundo dizia por aí que ele tinha inventado o tal do binóculo. Ele disse que se tratava, na verdade, de uma coruja, questão de piada interna combinada com seus amigos. Seria a evocação da famosa expressão futebolística “lá onde a coruja dorme”, aquele ângulo em que o goleiro não chega? Não importa... agora, o binóculo de Calleri já se tornou até imagem de bandeirão da torcida são-paulina. Ele o eternizou na linda história escrita por esses dois “clubes da fé”.

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Jorge Ben. A fonte de Paulus V. Jorge Ben Brasil, 1986.↩