A vida de uma garota de 30 anos

Vai ter faxina!

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las
Qual numa jarra
Nós pomos flores.1


Há dias deixo um pequeno caos se acumular ao meu redor. Com a empolgação da escrita e da leitura, as coisas vão se acumulando. Sempre me perguntei como aqueles autores de obras maravilhosas faziam para manter a ordem do dia a dia. Até que um dia me toquei, ao ler Joan Didion, que talvez eles simplesmente não mantivessem. Joan era casada com John, também escritor, e ambos saíam para comer em restaurantes de hotéis diariamente porque não podiam se preocupar com o processo todo que envolve o preparo das refeições2. Claro que nos perguntamos quanto de dinheiro eles tem que ganhar para manter tal prática, ficamos um pouco indignados ao pensar que alguém possa levar uma vida como essa. Retiramos o nosso olhar passional da jogada e comparamos o valor de um almoço em um restaurante nos dias de hoje com a realidade dos anos 1980 e descobrimos rapidamente que estamos todos fodidos (por falta de palavra melhor, usei essa mesmo, que é perfeita).

Muitos dos escritores tinham ao seu redor constantemente aquelas figuras, majoritariamente femininas, que mantinham a coisa funcionando, a casa limpa, a comida feita, os livros e os escritos organizados. Henry David Thoreau provavelmente era um dos poucos homens à moda antiga que abominasse tal comportamento, justamente porque tinha a sina de fazer tudo com as suas próprias mãos, como relatou em seu belíssimo Walden3. Mas, agora, não digo isso a fim de julgar qual atitude é digna de louvor e qual atitude é reprovável. Trata-se mais de conhecer os diversos caminhos que grandes nomes percorreram para seguir suas paixões e manter a vida acontecendo (se é que mantinham, se é que se preocupavam com isso, e, se sim, como mantinham e como se preocupavam).

Não sou uma pessoa totalmente desorganizada ou que vive em um vórtice de descontrole total. E eu gosto mesmo é de uma baguncinha que dá o charme de uma casa habitada; tenho pavor daquelas casas impecáveis que parecem fotografias de revista. No entanto, não gosto quando sinto que as coisas que se acumulam ao meu redor não estão sendo usadas naquele momento da minha vida e só estão lá paradas porque eu deixei aquilo ali encostado por muito tempo. Gosto da bagunça ativa, de quando você entra em um quarto e fala: essa pessoa está pintando um quadro! Percebo só pelo cheiro de tinta, pela quantidade de panos de limpeza soltos por aí, pelo prato com um lanche comido pela metade que jaz em cima da mesa. Essa outra está escrevendo muito, vejo uma pilha de livros para consulta, canecas de café se acumulando ao redor do notebook, cama por fazer porque ela acordou com uma ideia fresquinha e já foi direto cumprir a sua missão. Essa cozinha é de alguém que se dedica: possui potes e potes de farinha, um cantinho dedicado para a delicada produção do fermento natural, massas frescas secando no varal. A costureira deixa o chão cheio de pequenas linhas, tesouras largadas em todas as direções, moldes de peças espalhados pela mesa. É disso que eu gosto, viram? É diferente de um acúmulo de coisas encostadas, que juntam poeira e você nem se lembra mais por que elas estão ali.

Hayao Miyazaki é o rei da bagunça ativa, e a expõe com beleza exuberante. Entre outras obras, escolhi três cenas de Meu amigo Totoro e O serviço de entregas da Kiki. É disso que estou falando!

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Estou agora numa mistura de duas situações: algumas baguncinhas ativas, outras coisas monumentais se acumulando sem utilidade momentânea. Vejam o tamanho da pilha de livros que não utilizo há meses e que se amontoa na minha mesa de trabalho. Preciso dar lugar a eles. Vejam também a condição atual do meu godê de aquarela (mesmo que alguns pintores digam que não é necessário limpá-lo, pois a mistura de tintas fica interessante, sinto que ainda estou em um nível muito iniciante para permitir tal interferência na minha prática).

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Então ontem me veio aquela vontade virginiana de dar um jeito em tudo! É hoje que eu ponho um fim nessa zona. Ontem de tarde eu encontrei um passarinho amarelo morto no pátio aqui do prédio enquanto eu tomava sol, conforme anunciado no meu cronograma de rotina. Com o tempo que faz em São Paulo, imagino que morreu de frio. Sempre fico bastante impactada ao ver um pássaro morto, seja pela cena em si, seja pelo sentimento que me provoca. Nisso sou meio supersticiosa, acredito no presságio dos pássaros mortos: dizem as lendas que a partir dessa visão nossa vida se abrirá para novos ciclos e deixará para trás o que está morto. Pensei com mais firmeza na minha faxina: é um sinal, devo limpar tudo!

Mas quando começo a mexer com as coisas, percebo que aquela pilha de livros está ali porque, na realidade, não tenho mais espaço na estante para guardá-la. E, com os livros, não tenho desapego!! Quantas e quantas vezes dei um livro e, depois de um tempo, precisei utilizá-lo. Os livros são para os leitores como os vinhos são para os bebedores. Ninguém compra vinhos para beber todos de uma vez. Espera-se pela ocasião certa. O único motivo que me faz doar livros é o fato de considerá-lo fraco para o seu propósito (e aí consigo encontrar outro melhor que cumpra esse papel). Enfim, os livros da pilha da mesa ainda estão ali... preciso decidir o que vou fazer com eles. Sobre o godê sujo: não é justamente “não ter controle” o propósito da aquarela? Por que estou preocupada com a “pureza das cores”, querendo evitar que elas se misturem com “sujeiras”? Talvez eu limpe só um pedacinho, assim tenho a opção do sujo e do limpo... (Percebam como a energia da faxina vai se atenuando conforme penso nos detalhes – detalhismo que é também, devemos admitir, um tanto virginiano).

O signo de virgem preza pela impecabilidade, praticidade, saúde do corpo e da alma. E, no entanto, seu oposto complementar é o signo de peixes, aquela entrega total, rendição completa ao divino. A faxina deve partir da união entre esses dois opostos: organizar o milagre. Permitir que as coisas nos digam o caminho, soltar a corda do nosso dia a dia para que possamos criar o que é verdadeiro para nós, como em uma mistura de Didion e Thoreau. Talvez seja esse o presságio do meu lindo pássaro amarelo, morto de frio no pátio, em um dia qualquer, em uma cidade desalmada que talvez nem tenha notado a sua ausência. A mudança por ele anunciada: encontrar o que é verdadeiro para nós requer retirar da bagunçona a nossa baguncinha particular. E aí? Será que vai ter faxina?



Aproveito para dizer que, no meio da enorme organização de tudo, vou ajustando também as gavetas desse grande armário que inesperadamente se tornou o meu blog. A primeira gaveta é a sessão “No escurinho do cinema...”, onde vou reunir os textos sobre filmes, animações e séries. Ficará como uma page, e você poderá acessar sempre que quiser no menu que fica bem no topo da página do blog.


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  1. Ricardo Reis, pseudônimo de Fernando Pessoa. Poesia completa de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. P. 25.

  2. Joan Didion. O ano do pensamento mágico. Tradução de Marina Vargas. Duque de Caxias: Harper Collins Brasil, 2021.

  3. Henry David Thoreau. Walden ou a vida nos bosques. Tradução de Astrid Cabral. Lisboa: Antígona, 2017.