Deixa acontecer naturalmente
Mais uma manhã na minha vida em que acordo, tomo meu café da manhã e a minha cabeça, sozinha mesmo e sem muito esforço, escreve um texto inteirinho aqui para o blog. Uau! Me pergunto se algum dia eu vou acordar e simplesmente isso não vai mais acontecer. Certamente eu me sentiria um pouco triste, e, a essa altura do campeonato, estranhamente desesperada (?) Eu sempre achei meio absurdo imaginar como alguém mantinha uma coluna em um jornal: como ter tanto para falar? E, mais, como essa pessoa conseguia organizar diariamente todos aqueles pensamentos a ponto de deixar que eles fossem publicados? Será que ela sonhava todos aqueles textos, acordava, escrevia rapidamente e mandava publicar logo cedinho?1 Agora eu entendo. Se você deixar, a coisa simplesmente acontece. Não tem muito mistério.
Hoje o pensamento que brotou enquanto comia pão com queijo branco (pois é, meu fígado ainda não suporta muita variedade) foi: aquarela. Essa técnica de pintura parece muito simples à primeira vista, mas logo te consome em raiva e frustração quando você tenta replicar aquelas coisinhas tão simples, tão suaves, tão delicadas com seus parcos conhecimentos e ferramentas. Infelizmente, é preciso dizer que a aquarela requer algumas ferramentas especiais sem as quais ela simplesmente não funciona: o papel de gramatura alta, os pincéis com cerdas delicadas e as tintas minimamente adequadas, linha estudante. É claro que você pode ser um autodidata esplendoroso e conseguir um resultado magnífico com aquarela escolar, pincéis rudes e papel um pouquinho mais grosso. Na arte, tudo é possível! Mas esse não é o meu caso. Nesse campo, toda a minha “facilidade” veio da rotina que envolve preencher incontáveis sketchbooks, me perder em inúmeros erros, não suportar olhar para várias “obras” que foram por mim. Depois de um tempo, você aprende a amar até essas grandiosas rejeitadas. Mas o começo é duro... você quer ser um pintor, e quer estar em contato com coisas belas. Mas suas mãos e seu grandioso cérebro não conseguem entender como produzir aquilo.
Minha caminhada com a aquarela vem de anos. Desde a pandemia, quando comprei meu primeiro sketchbook e pensei “vou começar a desenhar” (sem saber absolutamente nada sobre isso do ponto de vista prático), eu namorava as pinturas de aquarela que via em perfis de artistas que encontrava na internet. Comecei a me admirar com o sumi-ê e louvava William Turner como se louva um deus. Mas eu estava, evidentemente, longe demais daquilo tudo. Tinha acabado de comprar meu primeiro kit de aquarela, aquele da Pentel em tubo, bem baratinho, porque queria experimentar. Encontrava meus primeiros pincéis de pelo sintético e redondos e o primeiro bloco para aquarela, da Canson, quase escolar.
E, diante de tamanha simplicidade do desejo, eu ouvia de todo os cantos as pessoas dizerem que a aquarela é a mais difícil das técnicas molhadas. Essa frase já se tornou um clichê, mas temos que admitir que talvez ela fale a verdade. As manchas soltas que formam uma figura é um problema de complicação tamanha. Então, no caminhar desses muitos anos, adotei uma solução prática: passei a utilizar a aquarela junto com um meio seco, como o lápis, para que eu pudesse desenhar tudo aquilo que eu não consegui fazer propriamente com a aquarela. No começo desse ano, atingi resultados que me satisfizeram, como esse sketchbook que montei para captar cenas e personagens de um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Meu amigo Totoro.

Não estou aqui para diminuir esse tipo de mistura entre técnica molhada e seca. Inclusive o próprio Studio Ghibli a utiliza em quase todas as suas obras – e isso é absolutamente fantástico. A arte é livre para tudo!! Mas vejam que eu apenas contornei o meu problema inicial, buscando não me frustrar mais com o descontrole proporcionado pela técnica da aquarela pura. Depois de ler a minha listinha de coisas que ando fazendo e perceber que estou afastada das minhas práticas artísticas, resolvi voltar para aquarela. E por que especificamente a aquarela? Porque a minha cabeça já está muito cheia de pensamentos, escritas e leituras (para o blog, para o projeto de pesquisa, para manter a minha compulsão literária). Tenho relativamente mais sucesso com o grafite, os marcadores, os pastéis e até mesmo com a tinta a óleo (apesar de pouquíssima prática, porque não suporto seu cheiro. Quase sonho acordada, com desejos febris, com o dia que conseguirei superar essa barreira). No entanto, esse relativo sucesso vem também de muito pensamento; o pintor carrega, ao lado do seu aspecto “descontrolado”, toda uma mania, uma obsessão pelos detalhes, um esforço mental de concepção. O sonho é também a ambição, e no final das contas, a quimera precisa se apoiar em cima de alguma coisa.
A aquarela bagunça o pensamento do pintor. Inocente, eu acreditava que o pintor dominava essa mancha. Pensava que ele era tão genial que conseguia prever o movimento da aquarela. Imaginava que ele a dobrava a seu gosto meio que na marra, meio que naquele tipo de experiência que constrói um vencedor. Imaginava que o pintor era como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi: garantia a excelência em cima de uma consciência sobre o corpo que parece, para nós, meros mortais, inconsciência.
E lá fui eu, na noite do dia 08, tentar dominar as minhas manchas. Vejam o resultado.
Observem também que quando as coisas querem, elas se voltam contra nós!!! Fui tirar a fita crepe que protegia as margens e ela arrancou algumas partes da superfície do papel. Depois de pensar um pouco, acredito que isso tenha ocorrido por conta do excesso de água, que comentarei mais abaixo.
Larguei tudo! Meio frustrada, meio caindo de sono. A aquarela tinha me vencido mais uma vez.
Na mesma noite, me rendi a um péssimo hábito: assistir a vídeos no YouTube na cama antes de dormir. Sim, eu sei... não me orgulho. No entanto, fui presenteada pelo algoritmo que tudo lê (até os nossos pensamentos e desejos profundos) com um vídeo apelativo: O MAIOR ERRO DOS INICIANTES EM AQUARELA.
Pensei: vou assistir esse aqui e depois durmo mesmo. Acontece que esse vídeo foi tipo “cavalo de Tróia do bem”: parecia furada, mas me salvou!! Fui dormir empolgada, pensando que amanhã daria mais uma chance para a aquarela com base nas dicas obtidas em rápidos 10 minutos. Esse Liron Yanconsky (autor do vídeo) fez tudo parecer tão fácil, tão simples, tão singelo... não falou nenhuma novidade extraordinária, mas falou de um jeito que eu entendi.
Resumindo à minha maneira, as dicas são essas:
- Aplicar a aquarela em blocos, deixá-las interagir e, depois, agir em cima daquilo que acontecer. O pensamento vem em cima daquilo que foi colocado quase que “por acaso”. Messi e Ronaldo são competência, maestria, suprassumo do primor técnico, tático, físico, espiritual etc. etc. Mas, vê-los jogar também parece um sonho.
- Usar mais pigmento, sem dó!! Os iniciantes molham demais a aquarela, o que deixa as cores muito suaves e impede que os contrastes, parte essencial para gerar interessância em toda obra visual, ocorram na pintura.
- Escolher o tamanho de pincel de acordo com a área que você deseja cobrir. Não seja econômico, ou seja, não utilize um pincel pequeno para uma área maior, pois isso vai deixar manchas indesejáveis. Seja generoso.
- Aquarela é amor, é liberdade, não é domínio!!!
Motivada pelo vídeo da noite anterior, no dia 09 me aventurei mais uma vez nas batalhas com a aquarela. Dessa vez, munida dos conhecimentos de meu amigo Yanconsky. E qual foi a minha surpresa quando eu notei uma melhora, ainda que o resultado tenha ficado estranho.
Na realidade, dessa primeira tentativa apreendi mais uma dica que guardo para o meu eu-futuro:
- Saber quando parar. A pera do lado esquerdo tinha ficado legal, mas aí eu fui lá e preenchi tudo com essa mancha esverdeada por cima e todas as camadas de baixo se perderam.
Não desisti2. A primeira pintura é como a primeira panqueca: nunca fica boa, absorve demais o óleo da panela ou gruda no fundo quando não tem gordura o suficiente. A segunda panqueca, no entanto, é sempre deliciosa! Quando percebi que a coisa ia dar certo, já na primeira camada, fiz alguns registros com a câmera do celular. Vejam o processo quase todinho da segunda panqueca.
Eu amei essa pintura de verdade. Do ponto de vista técnico, sei que ela precisa de ajustes em muuuitos aspectos. Mas ela também tem suas qualidades: variações de tipos de mancha, uso de cores pigmentadas, observação de várias camadas, sombras que oferecem contraste. E, de uma perspectiva íntima, ela é um marco do dia em que eu amei a aquarela e não a dominei, como achei por tantos anos que deveria.

Com os colunistas, com Lionel e Cristiano, com os pintores, estou aprendendo a deixar acontecer. Naturalmente. Com a aquarela, deixando “que o amor encontre a gente”.
Caminhei bravamente na direção da batalha, e me deparei com o sonho.
E para quem ficou curioso com o godê de aquarela do texto de ontem: não, eu não limpei as tintas e, ainda assim, as pinturas ficaram incríveis. Talvez os pintores tenham mesmo razão em manter a "sujeira". Mas fiz a faxina de todo o resto! Consegui ajustar a pilha de livros em alguns espaços remanescentes da estante e de outros armários. Troquei lençóis, limpei banheiros etc e tal.
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Alimentando os nossos dados quantitativos inúteis: você, leitor, que me lê desde o primeiro texto do blog, hoje completa 45 páginas de texto editado no Word, com a fonte Calibri, tamanho 12. É, eu falo pra caramba...↩
E procurei uma referência, para não inventar da minha cabeça toda a questão de luz e sombra e contrastes.↩