Vó
Vó,
Os últimos dias foram difíceis, intensos e cheio de gente. Bom, você conhece os outros e conhece a mim, e pode imaginar como eu me sinto agora. Estou naqueles momentos em que todos se foram e eu preciso de um silêncio absoluto. Não estou suportando sequer ouvir vozes, principalmente a voz de gente conhecida. Elas ecoam, mesmo que eu não queira, dentro da minha mente.
Vó, você sabe que a maioria das pessoas é um pouco aquilo que nós duas chamaríamos de “covarde”. E não podemos ser injustas com o mundo, porque até as pessoas mais próximas de nós assim o são. Não podemos falar daqueles que não conhecemos, mas dos que conhecemos, ah, vó, você sabe...
Fui fazer compras com E. esses dias na 25 de Março. Ela me viu fazer uns bordados novos que aprendi recentemente e quis fazer também. Tudo seria uma maravilha, mas, como é de praxe, você sabe que esse interesse dela automaticamente se tornou uma responsabilidade minha, não é, vó? É isso o que chamamos de covardia. De repente, me vi atropelada no meio do centro da cidade, porque eu deveria cuidar não só das minhas compras como das compras dela. E imagina só, vó, quando ela chegou aqui em casa e viu que algumas das compras que ela fez foram equivocadas, justamente porque não foram bem pensadas! Tivemos que escolher tudo na pressa, diante de um vendedor atarefado, dentro de uma loja lotada. Teria como ser a melhor compra do mundo? Pois é...
Depois, E. não sabia que tipo de desenho ela queria fazer no bordado, e sobrou para mim ceder uma das minhas ideias para ela. Ainda tive que fazer o desenho no bastidor para ela, escolher as cores das linhas e tudo mais. Ela perdeu a melhor parte, vó, que é inventar.
Eu não veria problema em fazer tudo o que eu fiz se eu soubesse que estamos no ramo da generosidade. Mas é difícil ser generoso com essa gente (você sabe bem), porque, quando a gente menos espera, te depositam no colo, embrulhada para presente, a famosa culpa.
É, vó, ainda por cima tem todos aqueles almoços e jantares e papos furados infinitos. É verdade mesmo que é melhor ficar em silêncio do que sair falando abobrinhas. Mas entendo que é difícil guardar dentro de si tanta angústia, e por isso essa gente precisa falar sem parar. O silêncio é sempre um incômodo e, quando ele surge, vó, a gente se entope de celular. É... agora existe isso no mundo, acredita?
Estive, nos últimos dias, enfiada até as tampas no meio de um bando de assunto desinteressante. Eu sei que isso é algo que me faz mal, mas só percebo depois que fico só o quanto essas coisas me desgastam. Acabei de fazer yoga para soltar algumas tensões do corpo e acabei soltando também as tensões da alma. Chorei sem parar por muitos minutos. Isso acontece sempre que eu fico nessa “imersão de besteira” (para não dizer outra coisa) sem parar para conseguir ter as minhas coisas, a minha, como dizem, privacidade.
“E você usa a sua privacidade para fazer o quê?”, você pode me perguntar. Nada demais, vó, acredita? Não estou bolando nenhum plano mirabolante, não estou armando uma nave espacial para decolar rumo a outro planeta (mesmo que essa seja, de vez em quando, a minha vontade). Estou só aqui a ler, a pensar, a desenhar, o de sempre...
Mas, nos últimos dias, todo pequeno espaço foi invadido. Toda vez que eu pensava que ia fazer as minhas coisas, eu era solicitada para dar uma opinião, para ouvir que Fulano está gordo e Ciclano está magro, para fazer a janta, para desentupir a privada, para ver qual restaurante é mais legal para sair para almoçar, para ver em quais shoppings estão as determinadas lojas... canseira boba, vó. Coisa à toa. Poderíamos ser mais, não é? Mas não somos.
Você sempre aparece na minha mente e nos meus sonhos muito miúda, com um vestido branco bem bonito e rodeada de coisas lindas. Sei que você está bem onde você está. Não se preocupe comigo, sei que também ficarei bem aqui onde estou.
Todos os meus preferidos estão mortos, você e os cachorros e, recentemente, A. Há os meus outros favoritos que estão ainda vivos, mas de certa forma mortos, porque nunca mais nos falamos, nunca mais sequer nos vimos, porque tudo mudou, você sabe, vó. Agora não acho que ainda posso chamá-los de meus favoritos. Coisa estranha, mas que acontece. De vez em quando sou egoísta e penso que não gostaria de viver toda essa chateação sozinha.
Mas até mesmo você, vó, só foi me entender depois que passamos pelas nossas desavenças. E o mesmo ocorreu com A. Só pudemos nos conectar quando ela esteve em uma cama de hospital. Só os cachorros é quem sempre me entenderam, talvez porque tenhamos a nossa própria linguagem.
Ainda penso em você sempre, vó.
Assinado: Eu.
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