4 meses de blog!
Segundo as más línguas da internet, uma relação está fadada ao seu juízo final ao completar 3 meses. No fatídico momento dos 3 meses, a coisa pode esfriar, a estranheza, pintar por aí. O encaixe perfeito pode parecer não ser mais tão perfeito assim. É aí que, segundo as más línguas, muitos relacionamentos “amorosos” terminam, porque somos apaixonados pela novidade, e não queremos “nos acostumar” com aquela pessoa nas nossas vidas.
Vocês sabem que eu não sou muito fã das más línguas da internet. São muitas regras e muitos motivos que, no fundo mesmo, não fazem a menor diferença. Podem ficar tranquilos: não vou fazer aquela famosa pergunta “afinal, o que somos nós?” para vocês, depois do nosso convívio por 4 meses. Nós não precisamos disso.
O problema com as más línguas da internet é que elas criam minhocas dentro das nossas cabeças sem que a gente mesmo perceba. Podem reparar. E, quando o assunto é relacionamento “amoroso”, estamos diante de uma miríade de comentários, conselhos não solicitados, tiragens de cartas de tarot, vídeos de “terapeutas” que não possuem formação nenhuma. Tudo isso faz com que a gente crie, na nossa cabeça, uma ideia do que é um relacionamento. E passe a comparar, o tempo todo, o que somos com aquilo que nós passamos a pensar que deveríamos ser.
Para mim, tudo já é o que deveria ser, tudo é obra do acaso, essa grande criança que rola os dados da nossa vida1. É claro que se você sente necessidade de fazer a pergunta “o que somos nós?”, do fundo do seu coração, para alguém: faça. É você. E você é o que você deveria ser. Mas, por favor, não faça isso porque alguém te disse que é o que você deveria fazer.
Se para você é importante ganhar flores em datas especiais, deixe isso claro. Se você precisa desesperadamente ser amada de uma forma específica, explicite. Sem medo. Mas entenda que, talvez, essa maneira de amar não seja tão fácil para a outra pessoa. E aí talvez a gente descubra que o amor está também nesse encontro em algum lugar no meio do caminho. Mas, por favor, me prometa que você nunca fará nunca esse tipo de coisa só porque algum desconhecido na internet disse que “se o fulano não te dá flores nas datas especiais, ele não te ama!”. Pelo amor de Deus! O amor é tão vasto em suas possibilidades. Permita ao seu amor ser como ele é.
E o que isso tem a ver com os 4 meses de blog? De uma forma direta, na lata, também não sei. Só pensei que o meu relacionamento com o blog já fez o seu mesversário de 4 meses e, por isso, segundo essas más línguas, já passamos da fase da novidade. Passamos a nos conhecer em nossas faces “mais reais”, sem as empolgações iniciais.
De fato, o blog agora já é, para mim, uma coisa incorporada na minha vida. Ele é parte do que eu considero “normal” no meu dia. Algo que está sempre ali. Isso significa que o amo menos intensamente? Acredito que não. Acredito que amo de maneira mais sólida, mais calma, menos estridente.
Então isso prova que as más línguas da internet estão corretas quanto a isso? Não necessariamente. Sei que de vez em quando eu gosto de contrariar, mas não penso que é só por isso. O blog é, para mim, algo meio indefinido mesmo. Não sei qual é o tipo da nossa relação. Entendo que para o poeta, em meio às loucuras de amor, faça sentido escrever “friends, lovers or nothing”2, mas a vida nem sempre é assim.
Há certo tipo de relação que é especial por não se encaixar em nada do que está previsto. Afinal, o que configura um amor? Talvez a percepção que temos de que aquela coisa é única no mundo.
Percebo hoje que, nesses 4 meses de blog, vocês já me viram passar por poucas e boas. No trabalho, na saúde, nas minhas mudanças de ideia, com os meus sentimentos. Hoje mesmo, que vou ao médico, penso o quanto vocês me ajudaram a modificar a minha relação com a doença. Sem mesmo saber que faziam isso, vocês me tiraram do centro todo aquele ninho de ratos no qual eu estava imersa.
Por algum motivo, mesmo com esse quadro delicado de saúde, continuei a escrever aqui quase todos os dias. E recebi mensagens de vocês que me deram força para não só escrever, mas sentir que a minha vida poderia ser diferente.
Hoje, com o nosso “relacionamento mais maduro”, trocamos por e-mails e no Guestbook palavras lindas. Vocês se abrem comigo sobre as memórias da infância e da adolescência e as questões da vida adulta. Me mandam atualizações de suas gripes e dos cardápios de jantares deliciosos. Recebo notícias de alguns sumidos e choro de felicidade com fotografias de cerimônias de casamento. Papeiam sobre signos e times de futebol. Me transmitem forças para continuar no mundo do trabalho, e me contam os causos que ocorrem por aí. Compartilham sobre os livros, os filmes, todas as artes.
Afinal, cabe mesmo a pergunta “o que somos nós”? Acredito que somos tudo isso e mais um pouco. Tudo isso e mais tudo aquilo que podemos vir a ser. A vida é assim: sem definição.
É trabalho do poeta definir, mas também, e sempre, nuançar. Não considero o blog o meu trabalho (vocês sabem disso porque aqui estou a caminho de me permitir liberdade total), mas eu diria que a minha tarefa aqui comigo mesma é, também, definir e nuançar. Não gosto de ser categórica com tudo, apenas com algumas coisas que para mim são assim como que insuportáveis.
Com o blog descubro o que preciso definir e o que preciso nuançar. Investigo onde preciso apertar as cordas, as rédeas da minha vida, e onde preciso deixar entrar o que é do outro. Os outros da minha vida que já se foram, os outros eus que cabem dentro de mim, os outros que me rodeiam nos dias de hoje (amados ou nem tanto). E, agora, os outros que também são vocês. Não poderia existir companhia melhor.
Obrigada por estar aqui, hoje e nos últimos 4 meses,
Uma garota de 30 anos
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