Ter um blog
No aniversário de 3 meses do blog, penso que finalmente estou começando a aceitar que tenho um blog. Ainda é um pouco estranha essa sensação de ter algo completamente meu. De vez em quando, ainda me pego dando saltos de alegria por conta disso. Ainda ninguém sabe que eu sou blogueira. Não sei se algum dia alguém saberá. Me sinto feliz com isso, como se fosse um segredo meu comigo mesma que dividido com vocês. Gosto de saber que as pessoas que me conhecem na vida real não têm a menor ideia de que eu tenho esse espaço aqui, no qual escrevo todos os dias, e de que tenho, de alguma forma, interlocutores fora de tudo o que me é conhecido.
Mas quando digo que comecei a aceitar que eu tenho um blog, digo isso em um sentido muito mais prático. Comecei a aceitar que tenho um blog porque, durante o dia a dia, penso que posso contar com esse espaço. Em que sentido? No sentido de simplesmente poder existir da forma que eu quiser. E, dessa maneira, tudo que antes eu ficava remoendo dentro da minha cabeça, tudo o que eu despejava em cima dos outros sem saber muito bem o tamanho da avalanche que estava por vir, tudo que me era caro e me era barato, enfim, tudo isso que eu me desesperava para poder falar, começa, aos poucos, a tomar forma, em uma lista mais ou menos organizada de pensamentos, textos, ideias. Me sinto verdadeiramente feliz todas as vezes em que abro a aba [Blog] e posso rolar por tantos títulos variados e, talvez, até um tanto incongruentes entre si.
Vocês sabem que iniciei recentemente o [Microblog], e isso é outra coisa na qual me pego pensando. Tenho medo de me revelar demais, de me tornar chata, inconveniente. Não sei se as pessoas querem realmente saber coisas sobre mim. Não uso redes sociais de forma ativa há pelo menos 10 anos. Recentemente, criei um perfil no Twitter só para acompanhar memes, algumas “notícias” e o fandom de Heated Rivalry. Não tinha a intenção de postar nada, só queria, enfim, ficar “antenada” com o mundo. Achei uma coisa tão louca que logo dei um fim nisso.
Portanto, a última vez em que fiz alguma coisa parecida com o Microblog, eu deveria ter, sei lá, uns 16 anos de idade, no Twitter das antigas, quando eu apenas “seguia” o pessoal do colégio e nada “viralizava”. Ali, ficávamos sabendo um pouco da rotina uns dos outros, coisa boba: fotografias da lição de casa, de sanduíches do Mc Donalds, de manobras de skate, de beijos apaixonados.
Escrever para o Microblog é diferente porque nos textos mais longos do blog eu posso sempre transformar o que é meu em uma linguagem mais geral, mais ampla, fazendo com que se torne uma coisa que é “de todos”. Nos textos longos, posso pegar complicações que me são muito próprias e transformá-las em questões filosóficas, cinematográficas, literárias. E, aí, sinto que vocês estão, sim, me conhecendo, mas através de uma camada. No Microblog me sinto nua. Me sinto, evidentemente que guardadas as proporções, como a Clarice quando começou a escrever diariamente no jornal as suas famosas crônicas. Diz ela:
Maria Bethânia me telefonou, querendo me conhecer. Conheço ou não? Dizem que é delicada. Vou resolver. Dizem que fala muito de como é. Estou fazendo isso? Não quero. Quero ser anônima e íntima. Quero falar sem falar, se é possível. Maria Bethânia me conhece dos livros. O Jornal do Brasil me está tornando popular. Ganho rosas. [...] É bom e não é bom. É que sinto falta de um silêncio. Eu era silenciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa. Eu vou tê-la. É uma espécie de liberdade, sem pedir licença a ninguém.1
Ao mesmo tempo, notei, via pequenas estatísticas e comentários animados, que vocês gostaram da ideia do Microblog, que estão acompanhando etc. e tal. Então talvez eu deva começar a me render. Aos pouquinhos. Afinal, Maria Bethânia e Clarice se tornaram amicíssimas, mesmo que a escritora fosse famosa por ser essa criatura um tanto arredia.
E, no final das contas, eu tenho mesmo é que agradecer, porque essa minha experiência com o blog seria totalmente diferente sem vocês. Obrigada, obrigada, obrigada, gente, por me fazerem companhia nesses três meses.
E (por que não?) talvez eu seja assim também uma criatura um tanto arredia, “bicho do mato”, como escrevi desde a minha primeira “autodefinição” na [Home] do blog. Mas não levem esse termo de uma forma tão literal: nós, os “bichos do mato”, não buscamos, necessariamente, afastar os outros. Penso, ao contrário, que preciso me sentir totalmente em mim para que eu consiga, assim, analisar o outro pelo que ele é, conhecer o outro pelo que ele diz e faz, e, assim, amar verdadeiramente o outro. Se não há diferença, há mesmice, há espelho. E, assim, eu apenas estaria reconhecendo a mim mesma quando eu penso que estou a amar o outro.
Penso sempre que, a partir do que eu reconheço como meu, consigo diferenciar o que é do outro, e, assim, absorvê-lo em mim: somos eu e ele nos transformando nessa troca que ocorre entre nós. Eu e outro saímos dessa relação como que com “pedaços trocados”, e, por isso, quando nos sentimos como nós mesmos, estamos sempre amando também aquilo que é do outro.
Vivo sempre nessa separação, nesse exercício de balança, de pesar o meu, o do outro, o dos outros. De uma forma bem mais bonita, seria mais ou menos isso aqui:
Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.
[...]
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.2
Essa é, enfim, a tão desejada “liberdade sem pedir licença a ninguém”.
Quer comentar esse texto? Dê um alô no Guestbook do blog.
- Para escrever para mim, clique aqui. Caso aguarde uma resposta, verifique também a sua caixa de spam.