A vida de uma garota de 30 anos

Amar em tempos de crise

O São Paulo Futebol Clube é um time de tantas glórias que parece não conhecer algo como uma “época ruim”, um “período de crise”. Hoje, vive um dos piores momentos da sua história, momentos estes que os seus principais rivais paulistas já viveram, em um passado mais distante ou mais recente.

É fácil amar o nosso time quando tudo vai bem, quando enchemos as salas de taças e ninguém nos mete medo em uma partida de futebol. Ontem, durante o primeiro tempo, o time do São Paulo parecia ter medo de ganhar do Boca Juniors, mesmo com a nossa casa lotada com 55 mil torcedores.

Eu poderia falar que o jogo foi roubado pra caramba, que o juiz estava, digamos, “inspirado” pelo futebol argentino, que o impedimento do gol de Ryan Francisco é duvidoso, uma vez que não foi traçado pela tecnologia semiautomática, mas a verdade mesmo é que o São Paulo não fez por onde. Dos 180 minutos, jogou no máximo 90, porque o segundo tempo na Bombonera e o primeiro tempo no Morumbi foram péssimos.

Dorival Júnior, o técnico tricolor, tentou. Montou, no segundo tempo, um time mais pra frente. Tomamos um gol com a nossa defesa completamente ausente. Depois de alguns minutos, novas substituições, e o São Paulo ficou composto praticamente só de atacantes. Quem fez o nosso gol da misericórdia foi o zagueiro Domingos Duarte. É, não ia dar.

A nossa crise é mais do que tática, técnica, física, médica, financeira, política. Vivemos uma crise moral, em todos os setores.

Ontem, diante do desempenho do time em campo, a torcida tricolor achou que a melhor saída era se aproveitar das vozes de 55 mil torcedores e utilizá-las para vaiar o time no meio da partida. Isso é uma coisa que eu não consigo entender. Utilizamos o nosso mando de campo contra nós mesmos. Já disse aqui que temos muito a aprender com os nossos conterrâneos corinthianos. Penso que esse é um dos aspectos. Depois do jogo, vaiamos e mandamos para o diabo. Mas, durante a partida, isso mais atrapalha do que ajuda. Quem é que se motiva com uma vaia do seu próprio aliado? Só aqueles que são muito fortes de espírito. É melhor não arriscar.

Do ponto de vista do time, vemos que não há proposta nenhuma. Qual é o estilo de jogo do São Paulo? O estilo que dá! Qual é o time titular do São Paulo? O que o banco permite!!

Do ponto de vista da instituição... aí é duro. O São Paulo parece um gigante prestes a desmoronar, em pé apenas por conta dos esforços de homens que parecem minúsculos diante do tamanho do problema.

Parece mais fácil amar um time quando ele tem um departamento médico referência no mundo todo, quando se consagra campeão brasileiro, sul-americano e mundial tantas vezes seguidas. É mais fácil amar Luís Fabiano, Rogério Ceni, Cicinho, Lugano, Kaká, Mineiro, Miranda, Dagoberto, Hernanes, Lucas Moura, Adriano Imperador, Leandro Guerreiro, o grandioso Muricy Ramalho.

Quem são, afinal, os nossos heróis nos tempos de crise? Para quem juraremos as nossas juras de amor eterno?

Para mim, os primeiros nomes que me vêm a mente são: Luciano, Calleri e Rafael1. Nessa última semana, os três jogadores tiraram dinheiro do próprio bolso para pagar o salário atrasado dos companheiros, visando jogar de maneira “despreocupada” contra o Boca Juniors, na noite de ontem. De um ponto de vista, podemos imaginar que não lhes cabia tomar essa dívida para si. De outro, podemos dizer que valeu o esforço, mas não deu mesmo assim. Vejam como o problema é também moral, ético, quase espiritual.

Mas Luciano (sempre ele!) nos mostra, mais uma vez, que o caminho do São Paulo sempre foi e sempre será o caminho do amor. Mesmo depois de afirmar que nunca recebeu um salário em dia durante os 6 anos que trabalhou para o clube, se emociona ao dizer as seguintes palavras: “Muitos jogadores vêm pro São Paulo porque querem vestir essa camisa, querem estar aqui. E eu quero estar aqui.” O repórter finaliza: “Luciano, um caso de amor declarado ao tricolor”2. Afinal, não são justamente esses os votos de casamento mais conhecidos do mundo: “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe”?

São Paulo, é famoso o fato de o nosso hino cantar todas as nossas glórias. Os rivais brincam, dizendo que todas elas estão no passado. Mas o nosso hino diz também outra coisa que é talvez até mais importante: nós somos um clube bem amado. Por favor, voltemos para onde tudo isso começa: no coração do são-paulino, sempre perdidamente apaixonado. Tenho certeza que ali reencontraremos aquela “verdade originária”: é impossível não amar você.




Quer comentar esse texto? Dê um alô no Guestbook do blog.


Anterior


  1. E Hernanes, que participou da época gloriosa e da má fase de maneira igualmente decisiva. Há também outros, com certeza, mas no momento em que escrevo essas palavras estou ainda na ressaca do jogo de ontem.

  2. Luciano, em entrevista para o SBT depois da eliminação do São Paulo para o Boca Juniors. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QhrR42ecAT8