A vida de uma garota de 30 anos

Manhã de terça

Ontem de noite recebi a notícia de que a menina que estava fazendo dupla comigo, no setor de validação de revisão na editora maluca, se demitiu, à beira do prazo final do projeto. Fez isso porque, além de tudo aquilo que eu já revelei para vocês sobre as loucuras daquele lugar, ainda tem mais essa: eles atrasam muito o pagamento. E vão prometendo te pagar, mas não pagam. Enfim, imaginem essa rotina toda para não receber no dia combinado? Desde então, todo mundo está em um grande surto, e agora estão desesperados para encontrar alguém para entrar no lugar dela.

Diante disso, tive sonhos alucinados. Entre eles, um bem cedinho, quase de manhã. Sonhei que eu era acordada por um protesto na frente da minha casa, em que várias pessoas faziam muito barulho, com guitarras e baterias no meio da rua, exigindo o pagamento de seus salários. Achei o máximo, pois esse foi o desfecho de uma série de sonhos similares entre ontem e hoje cedo. Eu também, como essa minha colega que se demitiu e os demais que ainda estão lá, estou aguardando o meu pagamento do mês de agosto.

Mas hoje não estou aqui para falar disso, porque esse foi apenas o começo de uma breve manhã de terça que me rendeu muitos momentos bons. Pequenos, mas bons.

Fui tirar sangue no laboratório para fazer exames médicos. Essa rotina, que é delicada para mim por conta de todas as memórias que carrego dessa situação, sempre é atenuada pela gentileza dos funcionários do laboratório. O pessoal de lá já me conhece há uns anos, então me tratam como alguém “da casa”. Não perguntam meu nome, porque já sabem. Nem me pedem os documentos, porque tudo já está salvo ali no computador deles. Mas sempre me perguntam como vão as coisas, me contam de suas filhas grávidas, dos netinhos que nascem com nomes lindos. O último deles: Arthur. Eu amo esse nome, acho de um extremo bom gosto.

Mas antes de saber da vida do neném Arthur, que chegou ao mundo com muita saúde e alegria da família, estava eu caminhando pelas ruas e percebi, de longe, um pai conversando com a sua filha pequena. Ele dizia: “olha que lindona! Já está andando bastante! Para andar sempre, as pernas têm que ficar bem fortes e longas.” E a menina ria de felicidade de ter um pai daqueles, saía correndo atrás das pombas e gritava o “nome” delas: “vejam as pombas! As pombas, as pombas!”

Em seguida, entrei no hospital junto com uma senhora de cabeça bem branquinha. Usava bengala e um cardigã marrom claro. Ela foi atendida pela mais nova funcionária da recepção dos exames. Elogiou muitíssimo a moça, que ainda era auxiliada por um funcionário mais antigo. Disse que ela era muito ágil e atenta com o trabalho. Perguntou se tinha acabado de começar, e a novata disse que sim. Primeiro dia de trabalho. A senhora lhe transmitiu coragem, disse que ia dar tudo certo porque ela era uma garota inteligente. Lhe deu todas as bençãos e sortes. Quando chamaram a senhora para fazer a coleta, escutei de relance o seu nome: Zélia.

O mesmo nome da minha querida e saudosa Dona Zélia, uma freira maravilhosa que me cuidou com muito amor quando eu era bem pequena. Brincava e desenhava com canetinhas junto comigo nas salas de espera de consultórios, saía às pressas para comprar medicamentos, comidinhas e roupas de emergência quando necessário. Ela se vestia com roupas de freira na maioria dessas ocasiões, e usava uns óculos enormes, com lentes grossas, redondas e meio amareladas. Sempre com um sorriso plácido no rosto. Dona Zélia faleceu com seus bons 96 anos, já há muito tempo. Então ela foi, desde sempre na minha vida, uma senhora. Mas sempre tão disposta, tão bondosa, tão sábia.

Aquela outra Dona Zélia ali, transmitindo tamanha força para aquela outra garotinha, que deve ter os seus 20 e poucos anos e começa hoje o trabalho novo, me lembrou da minha amada Dona Zélia. Que saudades!

Depois de fazer o exame, me sentei na cafeteria para comer o desjejum e li algumas páginas de Harry Potter e o cálice de fogo. Estou naquela parte do início da Copa Mundial de Quadribol, quando ainda não deu merda e Harry e seus amigos estão encantados com todos aqueles bruxos reunidos para torcer pelos seus times. Que coisa linda imaginar tantas barracas, roupas e sotaques diferentes. Achei o máximo a conclusão de Arthur Weasley (vejam que coincidência o nome: mais um Arthur!!) ao notar a extravagância das barracas, uma vez que elas deviam ser as mais discretas possíveis para que os trouxas não as estranhassem: “Sempre os mesmos, não conseguimos deixar de nos exibir quando nos reunimos.”1

É ali, naquele ambiente, que Harry percebe pela primeira vez que nunca tinha visto crianças e bebês bruxos, e narra, em algumas linhas, as visões que teve dos pequenos.


Um pirralhinho, que não tinha mais de dois anos, estava agachado do lado de fora de uma barraca em forma de pirâmide, empunhando uma varinha com a qual cutucava, feliz, um caramujo na grama, que ia ganhando lentamente o tamanho de um salame. [...] Um pouco mais adiante, eles viram duas bruxinhas, pouco mais velhas do que Kevin, cavalgando vassouras de brinquedo que se elevavam o suficiente para os dedos dos pés das meninas rasparem a grama orvalhada.2


Por fim, na minha saída do hospital, acabei trombando com essa criatura, que achei um tanto inusitada, mas perfeita para essa manhã: uma mistura de celebração das crianças com momentos agradáveis que até parece que vieram de um mundo mágico.


P1030180



Quer comentar esse texto? Dê um alô no Guestbook do blog.


Anterior


  1. J. K. Rowling (ou, se você preferir, Hermione Granger). Harry Potter e o cálice de fogo. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 67

  2. Op. cit. p. 69