A vida de uma garota de 30 anos

Arriadin por tu

Para mim, os piores dias da menstruação são aqueles que precedem o fluxo intenso. Sabe quando sai só aquela gotinha e você já sabe o que está por vir? Mas a coisa não vem, e você vai ficando inchada, irritada, com cólicas, sem energia. O fluxo em si não é tanto problema, só fica a preocupação com as manchas nas roupas e nos lençóis, a troca de absorventes durante o dia etc. e tal. Mas ali você sabe que tudo já aconteceu. Só mais alguns dias naquele marejar e você estará novinha em folha.

Durante essa semana aconteceu uma coisa louca, que há anos não acontecia comigo. Toda mulher com que eu falei nos últimos dias me disse que está menstruada ou está para menstruar1. Isso acontecia naqueles tempos de colégio. A convivência diária entre mulheres e garotas pode causar uma louca sincronia de hormônios, fazendo com que todas menstruem ao mesmo tempo ou em datas aproximadas. Eu acho isso uma coisa incrível. Mas imaginem vocês, mulheres, como era isso na nossa época do colégio, em que estávamos adentrando esse mundo de sangue, calcinhas, absorventes, oscilações de humor e dores, nossa, quantas dores. Para colocar a cereja em cima do bolo: quase todas as nossas amigas e colegas estariam em uma condição mais ou menos parecida. Quantos desentendimentos, brigas, choros, gritarias não foram influenciados pelo menos um pouco por essa glória da vida?

Hoje, “mais adulta”, quando escuto história de garotas no colégio que falam alto, exageram na dose, são violentas com os garotos, incompreensivas com suas colegas, logo me vem isso na cabeça. Esse corpinho passa por tantas mudanças – e não sem dor! Pobrezinha.

E eu, tão “adulta”, estava, essa semana mesmo, querendo enfiar uma bomba no cu do mundo – expressão que ouvi pela primeira vez lá pelos meus 20 anos e que eu utilizava com maior frequência. Hoje, menos coisas me fazem sentir tamanho sentimento. Mas, agora, me senti como quando tinha vinte anos, quando tudo me irritava profundamente, em seus menores detalhes e maiores absurdos, e eu utilizava palavrões como quem utiliza vírgulas (aliás, como a maioria dos paulistanos).

Sei que não podemos ser irresponsáveis e colocar toda a culpa nos nossos hormônios: é evidente que estamos rodeadas de gente folgada, sem noção, desrespeitosa etc. e tal. Gente e coisas e fatos e situações que merecem sim a nossa raiva, diante de qualquer fase do nosso ciclo menstrual. Mas não podemos negar. Algo acontece em nós que, de vez em quando, sentimos uma fúria desenfreada, uma vontade de esganar o primeiro que aparecer na esquina, uma urgência de chorar pelo menor dos pássaros quando o vemos beber água da chuva que se acumula no vaso de cebolinha que colocamos na beira da janela.

Como vocês já sabem, ontem eu estava assim, querendo enfiar uma bomba no cu do mundo. Mas, como ainda não descobri exatamente onde ele fica, resolvi fazer uma coisa mais fácil: yoga para soltar os quadris e as escápulas, desenho com marcadores de forma bem solta (o que vier na telha mesmo, sem se preocupar excessivamente com o resultado), jogo de futebol no fundo, música por cima.


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Fui desenhando e ouvindo Dominguinho, de João Gomes, Jota.pê e Mestrinho, enquanto a Bélgica finalmente mostrava para o que veio, marcando 4 gols em cima dos anfitriões estadunidenses. E a raiva foi saindo de mim, como quem evapora lentamente. Ultimamente estou gostando dessas músicas super apaixonadas2. Não é engraçado que justo quando estamos tão espinhosas com a vida, o que mais queremos é, no fundo mesmo, nos sentir amadas? Mas não amadas de qualquer jeito: amadas como nós somos. Amadas até mesmo quando estamos cheias de espinhos. Dia desses sonhei que um porco-espinho ficava à curta distância de mim e me lançava suas flechas, que doíam muito. Eu não ia embora, ficava lá tentando entender o que estava acontecendo. A menstruação, que leva o nosso corpo para uma nova perspectiva sobre as coisas, nos faz pensar que talvez nós também queremos que alguém aceite os nossos espinhos, porque, afinal, somos condicionadas desde tenra infância a aceitar os espinhos de todos.

As mulheres guardam muita raiva dentro de si. Desde a época do colégio somos ensinadas que não podemos pôr pra fora. Os garotos encontram, muitas vezes no próprio futebol, vazão para suas emoções. Seus comportamentos violentos são aceitos socialmente, até fora do esporte. As garotas vão se tornando caixinhas que guardam sentimentos gigantescos. Muitas vezes não nos damos conta disso até a vida adulta – e quantas já morreram sem saber que haviam se tornado esses receptáculos que guardam de tudo?

Hoje, se eu fosse uma caixinha, gostaria de imaginar que seria uma de música. Que raiva não se derrete todinha com um “arriadin por tu”?




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  1. Até aqui no Bear Blog cheguei a ler o texto da Yuui que comenta, entre outras coisas, sobre os efeitos da TPM: Hoje, acordei reflexiva.

  2. Se você tiver indicações, por favor, me escreva!!