A vida de uma garota de 30 anos

Jogamos nada

Meu palpite para o jogo era Brasil (3) x (2) Noruega. 2 eu sabia que o Haaland ia fazer para eles, o negócio era só achar mais 3 para nós.

Assisti a todos os outros jogos do Brasil com meu pai. Eu e ele sentados no sofá da sala, cada um em um canto. Em silêncio, breves comentários. Gritaria na hora do gol. Silêncio novamente. Somos daquele tipo de torcedor que se concentra. O futebol é uma das poucas heranças paternas que todos aqueles que tiveram ou têm pai tomam de bom grado. Fora do futebol, cada pai, quando ele existe, é de um jeito, e nem tudo é sempre sonho. Mas é raro encontrar filho que se rebele contra time de futebol do pai. Nisso, herdei tudo dele: do time ao modo de torcer.

Como o jogo de ontem era no final de semana, quiseram reunir pessoal aqui em casa. Vizinhos, parentes, gente desacostumada com as crendices do futebol. Eu, supersticiosa, já fiquei imaginando como eu iria conseguir equilibrar todas essas energias difusas a fim de garantir o resultado. O canarinho, mascote do Brasil, tinha chegado via Ifood ontem de manhã. Bom sinal? Talvez. Mau agouro? Pouco tempo para que ele se adaptasse ao ambiente, ao lado do gorro verde-amarelo e da miniatura da taça – ambos, diga-se de passagem, amuletos que tinham funcionado nos outros jogos. Traria o canarinho um desequilíbrio?

Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Eu não sabia onde colocar o canarinho: na frente ou atrás da televisão? Do meu lado? Virado de ponta cabeça pendurado pelo pé? Não tive tempo de pensar. Enquanto isso, as pessoas aqui em casa repetiam a cantilena das notícias e dos memes da semana: se tremiam de medo do Haaland. O medo foi se transformando em desespero, o desespero, em raiva, a raiva, em violência. Não tardou para que os comentários “mata ele!”, “tem que fuzilar!”, “Haaland é horroroso, muito feio” (esse, repetido à exaustão) e “quebra a perna dele” começassem a surgiu. Meus caros, não é assim que torce um vencedor.

Intervalo.

Supersticiosa, começo a pensar: muda, Ancelotti! Muda, meu povo! É tira gorro, põe gorro, muda de canal, tira a camisa, vira do avesso. Se não muda lá, aqui vai mudar! Alguma coisa precisa acontecer. Como meu pai, torço acreditando que a mudança depende de nós, daqueles que estão em campo e de quem está fora dele. Torcer desejando o mal do outro foi algo que eu nunca fiz na vida. Quero ganhar inclusive dos melhores, sem pernas quebradas, sem ofensas, na altivez. Gosto, sim, da catimba sul-americana, da confusão em campo, da provocação, de comemorar o gol com a torcida adversária, da galhofa quando o outro é eliminado. Tudo isso faz parte. Mas vocês já ouviram algumas vezes eu dizer essas palavras: não me venha ser vil!! A verdadeira batalha só ocorre na igualdade. Que glória há em ganhar do outro se ele estiver com a perna quebrada? Antes de chamar Haaland de feio, sou mais Ronaldinho camisa 9: raspar o cabelo de forma esdrúxula para “ser considerado feio pelos outros”, causando riso, confusão, divertimento, alegria. E aí, é bola na rede. O que era feio, do dia pra noite, vira lindo, e milhares de garotos passaram a ver a si mesmos como mais belos depois de imitar o corte do famoso goleador.

Na hora de torcer, meu pai e eu cobramos dos nossos, viramos técnicos. O adversário é problema todo dele. Assim sentimos que nos deslumbramos mais quando tudo dá certo. Aquele passe se torna mais preciso, o gol, mais bonito, a defesa, mais gloriosa. E, por isso, meu pai, com anos de experiência a mais do que eu, perde a paciência mais rápido. Afinal, ele se orgulha de dizer para quem quiser ouvir que já viu o Brasil ser campeão 5 vezes. Os nossos tempos são outros e ele já viu coisa melhor.

O meu palpite de 3x2 quase se concretizou, não fosse o pênalti perdido e a bola para fora no gol que consagraria Endrick como herói do país. Dito isso, meu pai e eu chegamos em um veredito depois da torcida barulhenta ir embora e ficarmos os dois na sala escura, cada um de um lado do sofá. O veredito: não podemos xingar o jovem Endrick por ter perdido o gol. Ele ainda nos dará alegrias e, para isso, precisa cair, precisa errar, precisa frustrar, criar casca. Bruno Guimarães fez uma ótima copa, não merece a fama de azarão que vai carregar pelos próximos anos. O trabalho geral é que não foi feito ou a proposta é que era ruim. A culpa, se é que ela precisa ser colocada em alguém, é de um coletivo que parece ainda não existir.

A sorte sorriu para eles. E eu, que sou chorona de tudo, mesmo de TPM, não tive vontade nem de derrubar uma lágrima. Revolta? Desânimo? Amuo?

Torcemos mal. Jogamos nada.



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