A vida de uma garota de 30 anos

Carpe diem

Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
com todo o cuidado,
meu amor1


Os últimos dias têm sido uma loucura, uma coisa meio esquisita. Me sinto, de vez em quando, como se estivesse bêbada, mas não estou. A cabeça descolada do corpo, meio que nas nuvens. Seriam os efeitos do eclipse da Lua cheia em Peixes? Fato é que encerrei meu trabalho naquela editora maluca na qual venho me queixando com vocês. De início, estava tudo muito certo, mas as coisas foram se encaminhando para caminhos cada vez mais obscuros, e em pouco tempo.

Trabalho finalizado, mas ainda assim no mal entendido: eu achei que iria trabalhar durante o final de semana, porque me havia sido pedido que eu trabalhasse durante o último final de semana antes do prazo final. Mas, como o prazo final foi prorrogado, esse final de semana não seria mais o último. Fiquei eu e a minha “chefa” sem saber exatamente o que tínhamos combinado, mas eu agilmente me desvencilhei da incumbência. Sendo assim, meu último dia foi na sexta-feira, mas como ninguém (e nem eu) sabia que esse era o meu último dia, acabou que nunca teve “clima de último dia”. Meus colegas, ao contrário, continuaram trabalhando quase todo o horário em que estiveram acordados no sábado e no domingo. E eu sei disso porque ainda estou no grupo do trabalho, já que ainda não “saí oficialmente”. Papo de maluco, né?

Diante de tantas coisas esquisitíssimas, procurei me agarrar aos fatos: o trabalho acabou e eu teria o final de semana todinho diante de mim. Em paz. Pela primeira vez desde junho. Inclusive ontem mesmo eu estava relendo um texto que escrevi logo no começo desse trabalho, e vejam vocês: o que era para ser um teste se tornou quase uma tortura!!




Mas não estou aqui para falar disso. Quero falar de coisas melhores.

Carpe diem, “aproveite o dia”, a frase de Horácio que se tornou extremamente popular com o lindíssimo filme Sociedade dos poetas mortos (1989). Assisti a esse filme pela primeira vez em uma aula de Literatura do Ensino Médio. Minha vida se transformou completamente e para sempre. Ontem mesmo escrevi aqui nesse microblog que queria “aproveitar ao máximo” o dia. Mas, logo depois que escrevi essas palavras, fiquei me perguntando o que seria esse “aproveitar ao máximo”.

Por quê? Porque eu sei que há semanas escrevo aqui para vocês que queria acabar de uma vez com esse trabalho, me curar da gripe e ter tempo para ir ao museu, ao cinema, sair por aí. Mas quando me vi diante da concretude dessa possibilidade, não me senti com vontade de fazer nada disso. Primeiro quis dormir muito, e foi o que fiz no sábado. Depois, notei que meu corpo começou a inchar, os músculos, tensionar. A enxaqueca passeou por aqui, dando seus primeiros indícios. As mulheres que me leem vão entender: tem vezes que a gente acha que está pronta para o mundo e que no dia seguinte vai fazer e acontecer. Mas eis que o dia seguinte chega, e com ele chega aquela sensação de que a menstruação vai descer. A gente se sente com uma vontade absurda de se retrair, e toda aquela vontade de exposição desaparece num piscar de olhos.

Foi o retraimento que ditou o meu dia de ontem, mesmo querendo, talvez na minha outra versão de mim mesma, sair, pegar o metrô, bater perna, ver uns bons quadros, comer hambúrguer. Não fiz nada disso. Mas por que essa escolha, de vez em quando, nos gera certo sentimento de “culpa”, como se não estivéssemos “aproveitando a vida”? Não sei!! Não é estranho? Se é o nosso corpo que exige, a nossa vontade que muda, o nosso desejo que nos move... por que, na nossa mente, não conseguimos ficar tranquilas diante do novo pedido?




Me servi da minha solidão em casa, já que essa ocasião é rara, para me permitir ficar por aqui mesmo. E, então, o que aconteceu nesse meu dia em que eu “aproveitei ao máximo”, mesmo nessas circunstâncias não tão favoráveis do calendário menstrual?

Registrei tudo com a minha nova/antiga câmera LUMIX, como disse que faria no microblog.

Deixo aqui com vocês os registros de um dia de carpe diem preguiçoso.

  1. Pantufa com mancha de pasta de dente na parte de cima da pelúcia (vejam o nível da preguiça!!)

  2. Plantas e flores do pátio em que sempre tomo sol

  3. Embalagem do globo terrestre da National Geographic, que chegou ontem

  4. Chá e materiais para fazer colagem ouvindo música durante a tarde

  5. Leitura com escalda-pés de noite


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Agora, depois de ver esses registros assim reunidos, penso que, por mais que a minha mente diga o contrário, esse dia foi muito bem aproveitado! E aí, foi ou não foi carpe diem?



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  1. Beto Guedes. Amor de índio. Amor de índio, 1978. Amo a versão do Milton Nascimento.