A vida de uma garota de 30 anos

Meta do dia: ser feliz

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Nos últimos dias eu estava entrando em um ritmo insano no trabalho. Como vocês já sabem, um dos meus objetivos com essa experiência é analisar bem os meus limites e os meus desejos nesse tipo ambiente etc. e tal. Acontece que se eu não me cuidar, eu mesma posso esquecer disso! Ainda bem que foi por pouco tempo.

O resumo da história foi o seguinte: esqueci dos meus objetivos, citados acima, porque me perdi nos capítulos gigantes e mal diagramados dos livros (que criança consegue absorver alguma coisa com tanta poluição visual?!), nos manuais diversos de revisão, nas picuinhas internas de chefes e validadores que não se resolvem sobre quais são os parâmetros “corretos” para a correção. Os pontos de conflito são coisas do tipo: fulano reclama: “ninguém está revisando as normas ABNT durante a etapa zero!” Mas foi passado para mim e para os demais revisores que a etapa zero não serve para revisar ABNT, apenas para coisas mais simples (até porque a etapa zero paga menos do que a etapa 1, por exemplo). E é aí que começa o caos, porque ninguém mais sabe quem disse que a etapa zero é para uma coisa, e a etapa 1 para outras coisas. E, como eles não se decidem, ficamos nós aqui, os “obedientes”, à espera de Godot1. E tome mais demanda, e tome mais material. E a ABNT? Fica como? Só Deus sabe. O que importa é “liberar logo”. E a padronização que depende da validação interna? Como fica? Algumas páginas vão ficar de um jeito, outras vão ficar de outro... tá certo isso?

Enfim, na quarta-feira, duas horas antes do jogo do Brasil, me peguei resolvendo pepino de coisa que nem é minha, por conta de ciclano que está “acima de mim” que eu sequer conheço. E, vale lembrar, estou em um “frila”. Aff... gente, quando eu caí em mim, fiquei com uma raiva enorme, um sentimento de traição comigo mesma, uma coisa horrível.

Não sei exatamente o que acontece, mas o fato é que em todo lugar que eu trabalho fico esmagada entre uma pessoa que é “louca”, “grossa”, com muitas metas e parâmetros absurdos e outra pessoa que deveria “comandar”, mas que é “omissa”, “permissiva”, que deixa tudo aquilo acontecer. E eu, que não sou nem o cocô do cavalo, talvez nem a mosca do cocô do cavalo, às vezes só o filhote da mosca do cocô do cavalo, afinal, sou uma frila que chegou na semana passada, acabo ficando “encarregada” de resolver problemas que, a sete dias atrás, eu nem sabia que existiam. Uó, não?

Sendo otimistas: temos um avanço. Tenho que me dar os créditos. Eu percebi essa situação em sete dias, enquanto nas duas situações anteriores demorei anos para perceber o que estava acontecendo. Talvez são os efeitos de ter começado a fazer terapia. Então, ontem, um dia depois do jogo, mais calma, acordei e pensei: eu não tenho que resolver é nada! Deixa estar. Se esse problema surgiu agora, não tem nem como eu ter a ver com ele. Estou aqui há sete dias só cumprindo ordens e recomendações dos manuais de revisão que me deram. Se as coisas estão desandando, não tem como ser por minha conta.

Liguei para uma pessoa para desabafar um pouco, contar os pormenores do resumo da história que fiz acima. Tentei conversar com outra que estava por aqui. Em vão. O problema de quando estamos assim é que queremos que os outros nos resolvam. E eles não são capazes de fazer isso, mesmo quando se compadecem verdadeiramente do nosso sofrimento2. Então, estava tudo em minhas mãos mesmo. Saí para dar uma volta e esquecer um pouco do trabalho. Aproveitei para ler algumas coisas e organizar os fichamentos do meu projeto de pesquisa que está parado por conta de metas alucinadas de uma pessoa “grossa”, “louca”, mas que, no final das contas, todos acabam por seguir o que ela exige. Fui no Starbucks aqui do lado de casa, aquele mesmo, que eu estou há dias querendo ir e não tinha ido, (adivinhem?) por conta das metas e dos prazos de uma pessoa alucinada etc e tal.

Aproveitei para alongar o meu corpo, porque no meio de tantas metas e prazos ele fica esquecido (como se fosse possível esquecer que se tem um corpo!!). Fiz yoga com calma. Pintei uma aquarela demoradamente, coisa que também não se faz quando se tem prazos e tudo mais. Vejam que a felicidade não é uma coisa tão grandiosa assim. Talvez o nosso infortúnio venha do fato de que suprimimos todas essas inúmeras pequenas alegrias por conta desse delírio do trabalho – que, tantas e tantas vezes, nem é nosso. Acabamos ficando mais distantes da não tão grande, mas da pequena felicidade.

Sempre achei genial a frase que muitos yogis3 dizem por aí: se você tem uma rotina que não te dá 15 minutos para se alongar e cuidar do seu corpo, alguma coisa está muito errada. Claro que ela pode soar extremamente alienada e até mesmo elitista em algum contexto. No entanto, ela possui um fundo de verdade. Seja porque o capitalismo te obriga, seja porque você mesmo ama estar sob essa demanda laboral, é cruel demais imaginar que vivemos uma vida assim, em que “não temos” 15 minutos para um alongamento.

Como eu sou “meramente frila”, decidi que eu tenho 15 minutos para me alongar. Aliás, tenho muito mais. Tenho inúmeros minutos para me espichar em um café, tomar um chocolate quente, estudar as coisas que eu gosto. Eu tenho duas horas para assistir ao jogo entre França e Noruega hoje, afinal, eu sou somente uma frila. E, no próximo jogo do Brasil, não me procure duas horas antes do início para descascar o abacaxi, porque eu nem estarei aqui. Eu não recebo para ficar inteirada dos problemas internos da empresa, pautados sempre por aquele tom de “tem uma pessoa louca que controla tudo”. E eu com isso? Te vira! Coragem!!! Eu não sou nem contratada...

Meta do dia: ser feliz.


Foto de capa: Josef Koudelka. Exílios, 1938.


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  1. Samuel Beckett. Esperando Godot. Tradução de Fábio Souza de Andrade. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

  2. Ou estou apenas acostumada a pensar que eu exijo demais dos outros? Não sei. Veremos na próxima sessão de terapia, onde eu repetirei toda essa história mais as minhas tentativas de conseguir ajuda com essas outras pessoas. Ainda bem que é hoje! Também estou usando esse texto aqui como parte do desabafo sobre essas mesmas questões. Ai, gente, a verdade é que isso tudo mexeu mais comigo do que eu imaginava.

  3. Praticantes de yoga.