A vida de uma garota de 30 anos

Felinos entre nós

Durante anos e anos a morte de um gato me fez sofrer tão terrivelmente que eu achei que era meio doida. [...] Aquele gato velho, que salvei da morte lenta nas ruas de Teerã, era meu amigo.1


O texto de hoje é mais um daqueles textos de convergência que vão virando uma farofa geral! Me inspirei nos textos da Mikah e do th para contar, por meio de alguns poucos relances, alguns dos bichanos que cruzaram a minha vida.


Eu nunca tive gatos, apesar da insistência de muitos amigos durante a época da faculdade para que eu adotasse um, ou até vários. No entanto, não deixo de admirá-los, de longe e de perto, de me impressionar com os seus comportamentos e também de me derreter de amores.

O primeiro gato de que tenho lembrança na minha vida é o Jack, um gato soberbíssimo, pomposo, imponente. Angorá cinza, de pelos muito bem cuidados, era o gato da minha madrinha. Jack era companheiro de Nick, um cachorro da raça lhasa apso mais feliz impossível. Jack era totalmente contrário a Nick. Parecia sempre estar o reprovando. Era carrancudo, emburrado, poucos amigos. Todas as vezes em que eu ia na casa da minha madrinha, o reizinho se enfiava no meio do sofá-cama, entre as molas e engrenagens mesmo, e ficava lá por horas a fio.

Minha madrinha é grande fã de filmes, desde a época das locadoras e das fitas. Super adoradora de Jack Nicholson e do filme Um estranho no ninho (1975). Agora que escrevo esse texto que me dou conta de que talvez a escolha do nome de seus bichinhos tenha sido uma forma de homenagem para esse ator.


Depois tive um outro gato na minha vida pelo qual eu era totalmente derretida. Ele vivia no restaurante de pratos praianos ao lado de casa. Não era bobo, ficava sempre próximo aos peixes. Era um gato branco, com manchas enormes nas cores preto e laranja. Ele era muito gordo, com os pelos mais macios que eu já toquei em toda a minha vida. Olhos límpidos, patinhas muito rosas, sempre extremamente bem cuidado. Era idolatrado por todos. Se jogava em cima de qualquer um, não discernia quem podia e quem não podia tocá-lo: amava sem restrições.

Em quantos e quantos dias esse gato que eu nem sabia o nome, mas o chamava por aí de lindinho, tudo-de-bom, magnífico, esplendoroso etc. e tal, me salvou de minhas tristezas adolescentes? Incontáveis! Em um dia qualquer, um descuidado o atropelou no meio da rua, em pleno sol da tarde, ao dar ré no carro. Foi uma desolação geral.


Também tive um amigo (humano) que ficou aficionado por gatos da noite para o dia. Colocava, todas as noites, vários potes de ração na beirada do portão da sua casa e os gatos iam lhe visitar. Entre os visitantes, ele notou um gato branco, todo puído, fraco, com machucados de briga. Adotou o bendito e o nomeou Branquinho.

Os outros continuaram aparecendo para filar boia no portão do meu amigo, mas eles eram os mesmos gangsters que depois perseguiam o pobre do Branquinho. Os potes de ração pararam de ser colocados do lado de fora, visando proteger o queridinho. Dias atrás finalizei o volume 1 do mangá Os gatos do Louvre, de Tayio Matsumoto. Lá tem um gato que se chama Filho da Neve. Ele me lembra muito o amado Branquinho.


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Falando em gatos e livros, acho que todos vocês, amantes de felinos, amariam também o livro Sobre gatos, da Doris Lessing.


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Ele é uma espécie de memória de todos os gatos que passaram na vida dela, bem ao estilo dos textos da Mikah. E, para aumentar os ingredientes da nossa farofa, queria dizer também que sei que a Doris Lessing é uma das autoras que o Igor Medeiroz pretende ler no seu projeto de leitura dos ganhadores do Prêmio Nobel. Eu simplesmente amei a ideia do projeto! Esse livro da Doris é uma delícia, mas eu me apaixonei por essa autora mesmo em seu Debaixo da minha pele, seu primeiro volume autobiográfico, no qual ela narra a vida no Zimbábue durante a infância e a mudança para Londres. É de chorar de beleza.


E, por fim, há a última gata da minha vida e a primeira fêmea. Brisa é a gata que meu pai adotou há alguns anos, e ela é bem magrelinha e listrada. Nasceu em uma ninhada com vários outros gatos que foram distribuídos entre conhecidos, então todos são irmãos.

Eu respeito o nome que as pessoas escolhem para seus bichos. Mas, no caso de Brisa, gosto de adicionar um drama, e a chamo, de vez em quando em tom brincalhão e na frente de todos, mas sempre secretamente e no meu coração, de Briseida.



Post-scriptum

Ah, e enquanto eu escrevia essas palavras, me toquei de uma curiosidade que enlaça Jack e Brisa: depois de muitos anos, eu herdei da minha madrinha o sofá-cama que Jack usava de esconderijo. Depois de mais alguns anos, meu pai herdou esse sofá de mim, e, agora, é Brisa quem se embrenha nos meandros desse sofá que já deve ter lá os seus 25 anos. Não é incrível a quantidade de história de gentes e de bichos que cabe em um mero objeto?



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  1. Doris Lessing. Debaixo da minha pele: primeiro volume da minha autobiografia, até 1949. Tradução de Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.