A vida de uma garota de 30 anos

Coincidências

The night is almost over, I still don't know where you are
The shadows, yeah, they keep me pretty like a movie star
Daylight makes me feel like Dracula
[...]
In the end, I hope it's you and me
In the darkness, I would never leave 1



Hoje o texto seria sobre Marcel Proust e a sua monumental obra À procura do tempo perdido, mas não pude deixar passar a tremenda coincidência que ocorreu aqui comigo no dia de ontem. Ao retirar o meu exemplar de Walt Whitman da estante, pensei: por que não dar uma folheada também em Percy Shelley?

Eis que, algum tempo depois, abro o Bear Blog e dou de cara com o texto do th sobre Frankenstein (1818), de Mary Shelley. O Bear é sempre cheio de coincidências!

De todos os versos de Shelley, deixo com vocês os que seguem, que são os meus preferidos dentre os que eu li no dia de ontem.


É o mesmo! – Tristeza ou alegria

           Abre-se ainda o caminho da saída:

Ontem jamais será o mesmo dia;

           Fica a Mutabilidade e mais nada. 2



O texto do th aborda a questão do abandono que se faz presente na obra de Mary Shelley – e, com razão, ele destaca a morte da mãe no dia do seu parto como um fator relevante para a história da autora.

Agora, apertem os cintos, pois estou prestes a trazer outras coincidências que podem fazer o queixo de vocês ficar no chão. Se preparem!!



A mãe de Mary Shelley era ninguém mais ninguém menos que Mary Wollstonecraft, a autora de Reivindicação dos direitos das mulheres (1792). Esse texto foi escrito apenas três anos depois da Revolução Francesa e da queda da monarquia. Nele, a autora já apontava a gravidade da situação: diante da emancipação do Homem, as mulheres estavam ficando de fora!!

Ela indicava que as propostas revolucionárias eram redigidas pressupondo que as mulheres não tinham direito ao sistema educacional, sendo criadas para ser donas de casa. Uau! Não parece que estamos em 2026 e ainda não resolvemos essa questão? Segundo ela, se as mulheres são seres humanos, elas têm o direito de fazer parte de todas as conquistas revolucionárias. Morreu aos 38 anos de idade, ao dar à luz a sua bebê, Mary.



Mas Mary Shelley não era somente filha de Mary Wollstonecraft. Era filha também de William Godwin, autor de Investigação sobre a justiça política (1793), obra fundamental para a história do romantismo na literatura e da emergência do anarquismo. Nesse livro, Godwin anunciava a sua convicção na educação livre – ou seja, fora da Igreja e fora do Estado. Além disso, foi um dos primeiros a tecer enunciados sobre as relações entre propriedade e poder.3

Godwin e sua Investigação não têm apelo apenas na história desses movimentos do século XIX, mas também nos dias de hoje, quando aparece, vez ou outra, anunciado como um dos precursores do abolicionismo penal.



Vejam, portanto, que a pequena Mary não foi criada em um lar qualquer. Por isso, imaginem o que aconteceu quando a jovem de 17 anos conheceu Percy Shelley, adorador das ideias de seu pai, apoiador de movimentos operários da Inglaterra e sonhador de comunidades de poetas...

Ela e a meia-irmã, Jane (que depois mudou seu próprio nome para Claire), fugiram com Shelley e formaram, no início do século XIX, o que hoje chamamos de “trisal”. Entre a escrita de livros, a composição de poemas, as grandes viagens, foram pululando bebês, crianças, amigos e, infelizmente, também mortes.4

Mas, deixando de lado as questões trágicas, passemos rapidamente pela criação do livro que Mary Shelley escreveu, o famoso Frankenstein, o Prometeu moderno.5

Nessa história, entra em cena um dos amigos do trisal, que passou também a ser companheiro de Claire, o famoso Lord Byron.

No verão de 1816, presos em um castelo pelas chuvas torrenciais e por conta de uma extraordinária erupção de vulcão, Mary Shelley e o médico John Polidori aceitaram o desafio proposto por Byron: criar a história de terror mais horripilante que conseguissem inventar. Daí surgiu Frankenstein, de Mary Shelley, e O Vampiro, de Polidori, que se inspirou em alguns rascunhos do próprio Byron para concluir a sua tarefa. Esse último texto é a base da ideia de vampiro que conheceremos melhor em Drácula (1897), de Bram Stoker.



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Uau! Que constelação de relações, minha gente! Os bons se encontram sempre, não é mesmo? Fico aqui a pensar como Shelley: a vida sempre abre o caminho da saída.

Agora, hoje cedo, para escrever esse texto para o blog, fiz as peregrinações necessárias pela minha mente e pela minha estante. E, assim, notei que meus exemplares de Byron e de Godwin sumiram! Talvez eu os tenha emprestado, em uma época mais despreocupada, a pessoas que reluziram também na minha vida. Nunca mais os vi, nem os livros, nem as gentes. Vou acreditar em Shelley: fica a Mutabilidade e mais nada.



Ahh! E por pensar em “Mutabilidade”, gosto de imaginar que Mary e Percy Shelley, e todos os seus amigos, teriam dançado muito ao som de “Dracula”, do Tame Impala.



Bom domingo para vocês, meus amigos, independentemente de como vocês estão! Se estirados ao sol ou escondidos em um castelo fugindo de um vulcão...



Beijos,

Uma garota de 30 anos



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  1. “A noite está quase acabando, mas eu ainda não sei onde você está / As sombras, é, elas me deixam bonito como uma estrela de cinema / A luz do dia faz eu me sentir como o Drácula / [...] / No final, espero que seja você e eu / Na escuridão, eu nunca iria embora”. Dracula, Deadbeat. Tame Impala, 2025.

  2. Percy Bysshe Shelley. Mutabilidade. Sementes aladas. Tradução de Alberto Marsicano e John Milton. São Paulo: Ateliê Editorial, 2010.

  3. George Woodcock. História das ideias e movimentos anarquistas – vol. 1. Porto Alegre: L&PM, 2014. p. 64-79.

  4. Além da morte da mãe, Mary teve de lidar com a morte de suas duas filhas e de Percy, que faleceu 4 anos depois da publicação de Frankenstein, aos 29 anos de idade. Mary tinha apenas 25 anos quando o poeta se afogou em um naufrágio.

  5. Percy também escreveu sobre Prometeu em um poema que se chama Prometheus unbound, em português, Prometeu desacorrentado. Shelley também foi responsável pela tradução de inúmeros gregos clássicos para o inglês (Alberto Marsicano e John Milton. Shelley: uma vida. Sementes aladas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2010. p. 17).