Costume da ruindade
— Como se faz agora?
— Como antes. É preciso continuar levantando de manhã, indo para a cama à noite e fazendo o que é preciso fazer para viver.
— Vai levar um tempo.
— Talvez uma vida inteira.1
Nos últimos dias, finalmente visitei um museu. Mas dessa vez foi diferente. Ao longo da minha vida, já frequentei muitos museus sozinha, em grupos, com amigos, com colegas, com parentes, com professores. Nos últimos anos, a grande maioria dos museus me viram sem companhia nenhuma, uma vez que me tornei famosa por ser “a pessoa que demora muito no museu”. Na minha época de muitos amigos, eu tinha os meus pares que amavam as obras de maneira tão intensa quanto eu. Já fiquei, com um dos meus amigos mais apaixonados, o mesmo do gato Branquinho, quase 8 horas seguidas vivendo junto com as obras de arte quando viajamos juntos. Ele era o meu par, a minha alma gêmea dos quadros.
Mas eu reconheço que essa atividade é extenuante e que, hoje em dia, eu mesma não conseguiria mais ficar 8 horas dentro de um museu. Éramos jovens, e não precisávamos de comer e descansar. No entanto, a minha fama persiste, e eu mesma prefiro ir para esses lugares na minha companhia, porque gosto de ficar lá o tempo que eu quiser sem sentir que estou deixando a outra pessoa desgostosa. Os museus, para mim, nunca foram instituições intimidadoras, apesar de saber que, para muita gente, eles são espaços hostis. Mas isso é porque eu mesma nunca me senti intimidada pela minha própria burrice. Sei que, em inúmeros casos, nos sentimos mesmo um peixe fora d’água. Isso só me dá vontade de sair perguntando e entendendo. E os museus sempre me mostraram caminhos para as respostas. Eles sabem acolher os curiosos.
Nos últimos anos, portanto, fui sozinha aos museus, às galerias, às exposições de arte. Mas dessa vez foi diferente. Apareceu para mim a chance de ir com um grupo de pessoas por meio de uma visita guiada. Topei, mesmo me sentindo um tanto nervosa com todas essas questões museológicas que expus acima. Pensei: esse pessoal tá me chamando para o museu, eles devem gostar de arte. E, realmente, todos gostavam muito de arte. Foi uma coisa maluca para mim. Além disso, todos queriam conversar sobre arte. Sobre as obras, as técnicas, as impressões. Todos queriam dizer o que sentiram diante de tal quadro, tal escultura. Todos queriam escutar o que os outros tinham para dizer. Gente, eu juro para vocês que fiquei até meio atordoada, tonta diante de tamanha estranheza.
Pode parecer para você, leitor, que eu esteja aqui “gastando a tinta” para falar de banalidades. No entanto, fazia tanto tempo que eu não via uma coisa como essa diante de meus olhos que fiquei assim mesmo, impressionada. Era a primeira vez que esse grupo se reunia. Algumas pessoas até mesmo expuseram que fazia tempo que não sentiam algo assim. Todos estão animados para possíveis próximas exposições.
Eu fiquei em êxtase de felicidade. Mas, ao mesmo tempo, quando cheguei em casa, precisei de algumas horas para me recompor. É engraçado que, de vez em quando, estamos tão acostumados com a ruindade que encontramos uma coisa boa e nos sentimos desestabilizados, sem saber o que fazer. E talvez seja justamente esse costume que faz com que fiquemos até mesmo cansados, física e mentalmente, depois de um encontro como esses.
Sinto que ainda estou processando tudo dentro de mim. Seriam possíveis novas amizades? Seriam possíveis outras almas gêmeas de quadros? Creio que desde a época da pandemia (é engraçado como a gente fala disso como se fosse ontem, mas já se foram 5 anos desde o fim desse tenebroso período) eu não me reunia em grupos maiores, com gente desconhecida, e conseguia uma mínima troca sobre algo que me interessa de verdade.
Fui me acostumando com a ruindade. Fui achando que o que eu tinha para dizer era desinteressante. Que as minhas coisas diziam respeito só a mim. Fui me acostumando a não convidar ninguém para nenhum lugar, e até a me sentir estranha quando fazia isso. Fui me acostumando a ignorar o que me diziam todos os dias, porque responder não mudava nada. O que eu pensava e o que eu sentia não importavam para ninguém. Fui me acostumando a esconder as minhas pinturas, não falar sobre os meus gostos. Vocês aqui no blog sabem que vocês foram os primeiros a me mostrar que a vida poderia ser diferente. E, quanto a isso, creio que nunca vou conseguir expressar exatamente o tamanho da minha consideração por vocês. Mas e se a vida também puder ser diferente na “vida real”?
A verdade é que a gente se acostuma tanto com a ruindade que fica até com medo dessa possibilidade.
Outra coisa que eu fiz nesses dias foi terminar o livro O grande caderno, de Ágota Kristóf e, inevitavelmente, engatar no segundo livro da Trilogia dos gêmeos, o A prova. Como dizem que na vida “nada é por acaso” (eu, ao contrário, gosto de pensar que “tudo é por acaso”, mas isso já é outro assunto), o primeiro volume que eu finalizei depois de visitar o museu trata muito dessa questão do costume com a ruindade.
Ágota trabalha essa ideia de uma forma que eu nunca vi ninguém fazer antes. Ela molda o texto, os corpos, as palavras e os gestos das crianças para nos mostrar como nós nos acostumamos com a ruindade. O que eu quero dizer com isso? Que a gente vai, lentamente, conscientemente ou não, por conta do contexto social ou não, se mutilando, se entortando, se fazendo caber.
O período histórico no qual ela situa o livro não deixa brecha para imaginarmos nada a não ser a mais vil das violências: a Segunda Guerra Mundial e, o que talvez seja mais insano ainda, o seu fim. Como é uma vida depois de ter vivido tudo aquilo? Como as pessoas se relacionaram umas com as outras depois de terem sobrevivido? Como ficam os sentimentos, as emoções, os pensamentos de um garoto que viveu toda a sua infância em uma cidade de fronteira, ou seja, que viu com seus próprios olhos o domínio estrangeiro, os trens carregados de judeus à caminho dos campos de extermínio, a posterior “libertação” que efetivou um novo domínio, e, com isso, uma nova forma de violência, sobre as suas terras?
Como nós podemos nos encontrar com coisas boas, viver coisas boas, encontrar gente boa, depois de termos nos acostumados com tanta ruindade? Um outro mundo é possível?
Depois desses últimos acontecimentos na minha vida (pequenos, mas grandiosos), o fato é que ainda estou digerindo tudo isso, e coloquei todas essas perguntas que são mais retóricas mesmo, ou mais para mim do que para vocês, porque eu mesma não sei a resposta completa para elas. Creio também que foi por conta dessa visita em grupo ao museu que me senti convidada a escrever o texto de ontem, que é um pouco pesado, mas é também muito próximo de questões minhas mais “estranhas”.
Ao mesmo tempo, algo dentro de mim sempre acredita que outra vida é possível, outro mundo é possível, outras relações são possíveis. Sempre são. O que a gente precisa é criar espaço dentro de nós mesmos, e isso talvez envolva, também, mexer em gavetas que estão guardadas a sete chaves, cheias de bichos peçonhentos, sombras muito densas, quartos escuros, gritos que nos deixariam loucos. Mas muita calma! O bom da vida é que todos nós temos o nosso lugar ao sol. Não precisamos revirar tudo isso de uma vez, de qualquer jeito, sem cuidado algum. Vamos juntos e devagarinho. Pode demorar. Talvez uma vida inteira.
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Ágora Kristóf. A prova. Tradução de Diego Grando. Porto Alegre: Dublinense, 2024. p. 8↩