[Caderno de mulheres #2] Sylvia Plath: mulheres, sonhos e loucura
Estrelas se abrem entre lírios
Estas sereias inexpressivas não te cegam?
Esse é o silêncio das almas atormentadas.1
Antes de começar, deixo um alerta aqui. Caso você queira ler uma coisa mais leve, recomendo o último texto do blog, “Filmes e filmaços”. Afinal, não é todo dia que a gente quer entrar em contato com coisas mais densas, e tá tudo certo.
Alerta de temas sensíveis: suicídio e violência contra a mulher.
Acredito que Sylvia Plath seja uma das escritoras cuja fama precede os textos de uma maneira incontornável. Toda a sua vida pessoal salta aos olhos de qualquer leitor, que se espanta diante de seu destino de suicídio e de toda a sua vida recortada por internações psiquiátricas e tratamentos com eletrochoque, prática comum na época. A vida de Sylvia Plath foi a de uma alma atormentada.
De vez em quando relaciono com a vida de Sylvia a de outra mulher tão diferente dela e, ao mesmo tempo, parecida: Amy Winehouse. Nos dois casos, a tragédia vem do fato de que ninguém próximo a elas pareceu ter a capacidade de dizer para aquelas jovens que a vida ainda poderia ser diferente, que estava tudo bem, que ainda teríamos outras possibilidades. As duas artistas aclamadas mundialmente pareceram se afogar, quando paramos para analisar a situação, em questões contornáveis. Fica aquela sensação de que foi uma pena perdermos essas garotas tão jovens, tão apaixonadas pela sua obra, tão entregues àquilo que faziam. Elas só precisavam arranjar uma forma de fazer isso de maneira diferente. São as ferramentas que só o tempo nos dá e, às vezes, não conseguimos esperar.
No entanto, seria um engano, tanto no caso de Sylvia, como no caso de Amy, relacionar todos os aspectos de sua obra com a sua vida pessoal. Afinal, já disse Sylvia que o escritor deve transformar a realidade, o que está dado, em uma forma. Ele deve pegar aquelas palavras como o artesão que molda o barro, e moldar o texto.
De maneira que o resultado final da escrita é sempre uma mistura daquilo que aconteceu com aquilo que inventamos. Em outro momento pretendo abordar mais desse assunto presente nos textos dessa autora, e posso trazer diversos elementos que encontramos em seus diários que voltam a aparecer nas suas personagens. São detalhes, coisas pequenas, mas que, costuradas, dão um caráter único, que só Sylvia seria capaz de dar, para aquelas histórias.
Então hoje, vamos, sim, falar de sonhos e loucura em Sylvia Plath. Temos, sim, em mente que ela mesma foi atravessada por essas questões, mas que a obra não é fruto da realidade. É porque ela passou por isso que foi capaz de escrever sobre esse tema dessa maneira. No entanto, é também a criação, o molde que ela construiu que permite que nós, leitores, nos conectemos com o que ela narra. Caso contrário, como ela mesma diz, o texto seria “desconjuntado”, “vazio de significado”.
No livro Johnny Panic e a Bíblia dos sonhos e outros textos em prosa, há três contos iniciais que abordam os sonhos e a loucura. Esses temas são recorrentes em toda a sua obra, tanto na poesia como na prosa. Ela gosta de trabalhá-los por meio da construção de imagens. Mais velha, a grandiosa escritora Sylvia Plath escreve sobre a sua dívida com o imagismo de Ezra Pound e com a poesia oriental: a construção de uma imagem em um só verso, “o começo e o fim em um só fôlego”2. Mas, ainda aos 18 anos, a incipiente Sylvia escreve em seus diários: “Meu problema? Falta de imagens vigorosas, de ideias novas”3.
É por meio de um texto que quase forma uma cena de um filme que vamos conhecendo, portanto, as histórias e as personagens dessa autora. Vejamos essas três cenas, criadas nos três contos que abordaremos aqui.
Cena 1, de “Johnny Panic e a Bíblia dos sonhos”: uma mulher, cujo nome não é revelado, trabalha como secretária-assistente de um dos departamentos ambulatoriais da ala clínica de um hospital municipal. Seu trabalho é coletar os sonhos dos pacientes psiquiátricos. Ela os anota em seus prontuários e registros. Mas não só isso: ela fica fascinada por aquele mundo onírico, e passa o dia tentando copiá-los para seus cadernos pessoais de maneira furtiva.
Cena 2, de “América! América!”: uma garota, que é a própria Sylvia Plath em sua pré-adolescência, entra em um novo colégio e tem de lidar com os problemas de sociabilidade que estão ali colocados, em um contexto pós-segunda Guerra Mundial, no qual diversos povos se misturam em meio a refugiados e expatriados. Seu sonho é ser aceita pelas outras garotas, ser uma “garota como as outras”.
Cena 3, de “A caixinha de desejos”: Agnes Higgins é uma mulher recém-casada que vive com seu marido, Harold. Desde quando passaram a dormir juntos todos os dias juntos, Agnes fica com uma inveja mortal de Harold, porque percebe que ele sonha todas as noites. Agnes não consegue sonhar com nada desde a sua infância, quando tinha sonhos de menina com um príncipe encantado. Se sente frustrada todas os dias durante o café da manhã, quando o marido fala longamente sobre detalhes oníricos.
Vejam que capacidade imagética tem essa autora! Não dá vontade de mergulhar em cada uma dessas cenas e extrair dali todo o seu suco?
Mas, afinal, vamos para o ponto para o qual nos reunimos aqui hoje. O que esses textos tem a nos dizer sobre mulheres, sonhos e loucura? Na realidade, eu poderia escrever um tratado sobre tudo isso. Mas vou tentar ser breve, afinal, esse é somente um texto para um blog.
Em “Johnny Panic e a Bíblia dos sonhos”, essa secretária-assistente leva a sua busca pelos sonhos até as últimas consequências. Fica fascinada pelos livros de registro de sonhos dos primeiros pacientes. Quer saber com o que aquelas criaturas tão velhas sonhavam. Decide passar uma noite no escritório, depois que todos vão embora, para ler os registros e transcrevê-los em seu caderno. Acaba sendo pega por um médico que estava ali e é submetida ao tratamento de eletrochoque.
Em meio a essa ficção, Sylvia Plath situa o personagem Johnny Panic, o “grande pânico”, aquele que é dono de todos os sonhos, uma vez que ele comanda os nossos medos. Ela diz que todos aqueles médicos que coletam os sonhos e não sabem da existência de Johnny Panic estão equivocados em seus objetivos. Os médicos desejam eliminar aquele tipo de pensamento da cabeça da mulher e, por isso, acreditam que ela está louca. É tratada como tal. A cena final do eletrochoque também possui a força de imagem que Sylvia Plath adora construir. Com certeza as suas próprias experiências forneceram elementos para tal imagem.
Em “América! América!”, o sonho de ser uma “garota como as outras” não demora para se escancarar como uma violência à qual as garotas são submetidas desde a infância. As maldades que fazemos umas contra as outras. Sylvia narra o que ela chama de “semana de iniciação” no novo colégio, com a agressividade corriqueira e comum que ocorre nos corredores das escolas. Em suas palavras: “Estavam me moldando para ser Normal”4. Enfim, o sonho de ser uma garota aceita, vista e admirada aos poucos toma outros contornos: “O privilégio de ser alguém começava a mostrar a outra face – a pressão de ser todo mundo; logo, ninguém”5.
E Agnes Higgins? Um dia, ela resolve que vai voltar a sonhar. Foi ao médico e fez as suas queixas sobre sua insônia, sua ausência de sonhos. O médico lhe receitou umas cápsulas para dormir. Agnes se suicidou no mesmo dia, fazendo uso exagerado dos remédios recomendados pelo médico. Seu corpo foi encontrado esparramado no sofá, e, contrariando tudo o que poderíamos esperar, seu rosto tinha uma expressão serena, “como se, em alguma terra distante que os homens mortais não alcançam, ela estivesse, enfim, dançando uma valsa com o príncipe moreno de capa vermelha daqueles seus primeiros sonhos”6.
Sylvia Plath gosta de jogar com essa dubiedade entre loucura e normalidade, sonho e realidade, beleza e feiura. Gosta de misturar esses dois mundos, de nos mesclar, confundir, fazer pensar. Afinal, estava a enfermeira-assistente louca mesmo, ou são os médicos que não percebem a razão naquilo que ela diz? Seria Agnes Higgins, agora, uma mulher “realizada”? Quando as mulheres conseguirão sonhar como os homens? Só depois de mortas? E o texto autobiográfico, “América! América!”, é uma construção toda intrincada da magnitude e da violência dos Estados Unidos no contexto pós-guerra, visto pelo olhar de uma pequena garota que vai para um novo colégio. Universo minúsculo, problemas gigantescos, mundiais.
Sylvia é mesmo essa escritora avassaladora, que vai derrubando tudo o que está ao seu redor quando a lemos. Ela nos leva para lugares incômodos, mas com uma ironia, uma perspicácia, uma inteligência de quem já esteve lá. É inevitável, em casos como esse, não relacionar vida e obra. É evidente que a sua vida, em seus grandes acontecimentos e nas minúcias, teve uma influência crucial nos seus escritos. Mas ela é também, e ao mesmo tempo, aquela que foi capaz de transformar tudo isso em arte. Caso contrário, estaríamos apenas diante de corpos mortos de mulheres. E, aqui, nos vemos frente a frente com os sonhos e a loucura em toda a sua amplidão: para o bem e para o mal. Ou, ainda, além do bem e do mal7.
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Sylvia Plath. Travessia. Poemas. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Mauricio Arruda Mendonça. São Paulo: Iluminuras, 2007.↩
Sylvia Plath. Uma comparação. Johnny Panic e a Bíblia dos sonhos e outros textos em prosa. Tradução de Ana Guadalupe. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2020. p. 70↩
Sylvia Plath. Os diários de Sylvia Plath (1950-1962). Tradução de Celso Nogueira. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017. p. 108.↩
Sylvia Plath. América! América! Johnny Panic e a Bíblia dos sonhos e outros textos em prosa. Tradução de Ana Guadalupe. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2020. p. 43.↩
Op. cit. p. 46.↩
Sylvia Plath. A caixinha de desejos. Johnny Panic e a Bíblia dos sonhos e outros textos em prosa. Tradução de Ana Guadalupe. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2020. p. 68.↩
Friedrich Nietzsche. Além do bem e do mal. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.↩