A vida de uma garota de 30 anos

Cream cheese no sushi

Tudo de si mesmo
Mesmo que pra nada
Nada pra si mesmo
Mesmo porque tudo
Sempre acaba sendo
O que era de se esperar1


Talvez vocês já tenham notado que a cultura oriental faz parte da minha vida. Já escrevi sobre alguns temas que envolvem esse universo, como nos textos sobre Naruto, Studio Ghibli, Reply 88 e Kill Bill vol. 12. Aproveito para revelar uma coisa que eu pretendia trazer em um texto próximo. De vez em quando, a vida nos solicita em outros caminhos, e cabe a nós atendê-la. Tenho descendência japonesa, por parte de mãe, e italiana, por parte de pai. E, ontem, o confronto entre Brasil e Japão na Copa do Mundo foi um dia especial para mim. Coincidência ou não, os italianos, que não conseguiram classificar a sua seleção para o torneio, enviaram seus representantes por meio da arbitragem. Itália, Brasil e Japão em campo. Três partes de mim em um gramado, uma bola e 25 homens em camisas, calções, meias e chuteiras.

O entrelaçamento Brasil-Japão-Itália ditou a minha vida muito antes de eu nascer. Minha bisa e meu biso chegaram por aqui há mais de 100 anos, no terceiro navio japonês que atracou no porto de Santos. Vieram para trabalhar no interior paulista, e logo se tornaram vizinhos dos italianos. A presença dos italianos no estado de São Paulo é fortíssima, desde os campos no interior às fábricas dos bairros operários. História atrelada, também, ao nascimento de diversos clubes de futebol do estado. E o Brasil possui a maior “colônia” japonesa fora do país do sol nascente, fazendo com que a relação entre dois lugares tão distantes seja estranhamente próxima.

Quando descobrimos que o Brasil enfrentaria o Japão, os porteiros do prédio, meus especialistas em futebol, logo vieram me consultar: vai torcer pra quem? Na verdade, torcer, torcer mesmo, pro Brasil, claro. É sentimento que vem desde pequenininha. Mas, ao mesmo tempo, quem ama futebol sabe interpretar os confrontos e todos os seus simbolismos. Não pude deixar de pensar que é uma alegria imensa poder acompanhar esse enfrentamento inédito na fase mata-mata. Tem o sentimento da torcedora, do amor pelo futebol, da gritaria na hora do gol, do desespero no contra-ataque. Mas, dessa vez, tudo isso veio misturado com muitos outros sentimentos, ancestrais, cotidianos, vívidos. A emoção tomou conta da partida.


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O jogo do Japão é construído na base da disciplina. De uma forma que parecia impossível, marcavam sempre dobrado. Jurei que eles se aproveitavam das vantagens do jutsu do clone das sombras, ensinado pelo ninja número 1 do mundo, Naruto. Os japoneses se multiplicavam, os brasileiros se perdiam. Trombavam uns com os outros, não tinham espaço. Por muitos minutos, ficaram paralisados. Parecíamos os ninjas patifes do anime. É... o Japão tem essa dedicação para a defesa: não é à toa que é mundialmente reconhecido pelos seus mestres das artes marciais, seus artesãos das katanas, seus gloriosos samurais e ninjas. A devoção, a impecabilidade, a limpeza, a retidão e o apreço pela pureza são coisas comuns no Japão. Cada um é samurai de si.

Mas como que para mostrar que nem só de pureza se vive, Suzuki, o goleiro japonês, impressiona. Sim, por trás daquela linha defensiva impenetrável do Japão ainda tinha um goleiro! Nascido nos Estados Unidos, é filho da mistura de pai ganense com mãe japonesa. Ele é como Yasuke, o samurai negro que virou até tema de samba-enredo campeão no Brasil3. Isso, sim, “beleza pura” aos olhos do poeta brasileiríssimo4.

Outros personagens japoneses se destacaram em campo. Daizen Maeda, o camisa 11, não deixa a desejar: é veloz, ousado, inventivo. Kaishū Sano, o nosso carrasco do primeiro tempo, marcou aos 29 minutos. E o técnico japonês, “coisa de anime”! Suas expressões são fantásticas. Ganhou até meme, que circula nas redes, por conta do seu caderninho de anotações. O apelidaram de Light Yagami, personagem principal do incrível Death note. Na ficção, o enredo começa com Light descobrindo que pessoas morrem minutos depois que ele escreve seus nomes no famoso caderninho de capa preta. Bela referência para a “melhor seleção japonesa de todos os tempos”. A expectativa, do outro lado do mundo, era alta: tratavam como o jogo mais importante da história do Japão nas copas.

E do lado do Brasil? Comparado conosco, os torcedores, Ancelloti parecia ter uma paciência oriental. Esperou o primeiro tempo inteiro para mudar o time, mesmo com Casemiro pendurado desde os 13 minutos e o time todo atônito diante de um Japão que avançava, lentamente, mas avançava. No gol japonês, Casemiro, amarelado, não fez falta para conter o contra-ataque. Estava péssimo no jogo, atrapalhado, lento. Fez o gol do empate, foi à loucura, de vilão a herói em instantes meteóricos. Casemiro, clube de base: São Paulo. Quem é são-paulino sabe: São Paulo é isso. Nosso time é recheado de anti-heróis, não caminhamos, como os japoneses, sempre em direção à luz. No São Paulo, vivemos nas penumbras, nas nuances, à la Casemiro. A paciência de Ancelotti provou ter razão.

Iluminados mesmo estavam Bruno Guimarães e Gabriel Martinelli, dupla que arranjou o nosso segundo gol, aos 90+6 do segundo tempo, para desafogar o grito da garganta. E Endrick, aos 19 anos, jogou seu primeiro tempo completo pela seleção brasileira dentro da Copa do Mundo. Na paciência de Ancelotti. O garoto ainda está como o Naruto nas primeiras temporadas: aprendendo a medir suas forças. Preciosos.

Jogo bom, emoção de Copa. No futebol, como em uma mistura de Brasil e Japão, pensamos: resultado não é tudo, mas importa.



Não sou grande fã do cream cheese no sushi, tampouco tenho ojeriza. Come-se bem no Brasil e também no Japão. Sou capaz, como o Naruto, de erguer um templo para o lámen. Posicionaria, ao lado da tigela fumegante do belíssimo macarrão, um prato farto de feijoada. Comporia odes ao tempurá, ao tofu, ao missô, a todos os brotos e peixes. Escreveria cartas apaixonadas para o churrasco acompanhado de farofa e vinagrete, o virado à paulista, o tutu de feijão, o torresmo, o baião-de-dois. E tem coisa melhor do que ir à feira em um domingo de manhã e comer um pastel feito por uma família japonesa? Delícia máxima.

Brasil, classificado. Japão, não cansamos de nos encontrar. Novamente, repito para você essas palavras, que já foram utilizadas em tantas ocasiões e agora cabem mais uma vez: muito obrigada!! Banzai!5



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  1. Gilberto Gil. Meditação. Refazenda, 1975. Esse álbum inteiro pode ser visto como um olhar de Gil para o Japão. Mais uma vez essa mistura maravilhosa. Gil aparece de quimono na capa do LP.

  2. Para encontrar os textos sobre todas essas obras do cinema e da animação, ver: No escurinho do cinema...

  3. Mocidade Alegre. Yasuke. Disponível em: https://www.letras.mus.br/sambas/mocidade-alegre-2023/

  4. Caetano Veloso. Beleza Pura. Cinema transcendental, 1979.

  5. Expressão japonesa utilizada para brindar em festas. De forma literal, significa “dez mil anos”. É algo como “vida longa” ou o nosso tradicional “saúde!”.