A vida de uma garota de 30 anos

[Entreblogs] 10 curiosidades sobre mim

Não, eu não faço parte do Entreblogs, mesmo adorando a ideia e acompanhando vários dos blogs participantes. Isso porque eu ainda não decidi o quanto eu quero realmente me fundir com aquela que escreve aqui para vocês. Claro que, no final das contas, somos a mesma pessoa. Mas há, em certo tipo de escrita, também um afastamento de si, uma dubiedade em relação às coisas, uma separação – liberdade e possibilidade maiores. No momento, como vocês sabem, isso me agrada muitíssimo.

Em seus diários, Virginia Woolf escreve sobre o ato de escrever: “enfio a mão dentro do pote e tiro na sorte o que vem [...] Sim, sou vinte pessoas”. Elena Ferrante interpreta essas linhas em uma conferência lida por uma atriz na Universidade de Bolonha, que fez a vez de Elena. Ela também tem essa síndrome de anonimato. Ferrante ressalta que Woolf associa o ato de escrever à tentativa, à pura sorte e ao fato de não passar pelo crivo de uma pessoa, mas sim de vinte. Virginia prossegue: “É um erro pensar que é possível produzir literatura a partir da matéria bruta. Precisamos sair da vida [...] precisamos nos tornar estranhos a tudo [...] quando escrevo, sou apenas uma sensibilidade. Às vezes, gosto de ser Virginia.”1

Essa é a experiência da literatura, segundo aquela que é, pelo menos para mim, a maior escritora de todos os tempos, Virginia Woolf. Não tenho a audácia de chamar o que faço aqui de literatura. Ainda assim, acredito que esses meus textos podem ser sim um tipo de literatura. E, nesse tipo específico, também sinto que há necessidade dessa espécie de descolamento do eu. Quando escrevo, penso também na forma que eu quero dar para as coisas, como uma artista, uma escritora; como Virginia, também sinto a necessidade de ficar concentradíssima, em um único ponto; sem ter de recorrer às particularidades dispersas da minha personalidade2. Ou seja, me importa mais a obra, e menos a verdade sobre um eu (que, no fundo, se pensarmos bem, não sabemos se existe). A vida imita a arte. Não é o que dizem? Talvez por isso esse nosso “eu” pode nos parecer sempre tão volátil: é porque ele está em um pote da sorte, junto com outras 20 possibilidades.

Agora, o que eu cheguei a conjecturar durante essa semana é que, surpreendentemente, talvez vocês também gostem desse meu anonimato. Sinto que como vocês não sabem quem eu sou explicitamente, com foto, nome, sobrenome, profissão, número de celular, endereço etc. e tal sobra espaço para vocês me imaginarem com tudo aquilo que quiserem acrescentar. E eu me divirto muito com esses acréscimos que vocês parecem fazer. Sinto que vocês se abrem e conversam comigo de um modo agradável e honesto, prolongado, que me sentem uma pessoa receptiva – me contam coisas maravilhosas, jogam conversa fora via e-mail, me confidenciam segredos... enfim, sinto que nós estamos à vontade, assim como somos. Por que mudar, então?

Por isso, pessoal do Entreblogs, saibam que eu admiro demais essa ideia brilhante e torço para que todos continuem blogando! Estou por cá, acompanhando tudo. Por enquanto, gosto de ser alguém que está na vizinhança, mas que ainda não se mudou para o condomínio. Por isso, sinto muito que, além de ter surrupiado o tema de vocês, venho informar que não consegui cumprir a proposta na data correta. Porém, esse pequeno atraso foi por um motivo especial, como vocês logo constatarão. De cá, imagino que uma vez que vocês me conhecem através do anonimato, ficariam felizes com essas 10 pequenas curiosidades que separei para apresentar. Bora lá.


1. Sou mestiça

Mas todo mundo no Brasil é, se não mestiço, meio mestiço. Sim, é verdade. No entanto, cresci ouvindo que eu era mestiça. E, por isso, eu pensei por muitos anos que o termo “mestiça” se referia apenas à mistura dos japoneses com outros povos. Eu sempre fiquei no limiar de ser considerada japonesa. Como eu não era “tão japonesa assim”, as pessoas tinham dúvida. Essa dúvida ficou, para mim, associada ao termo “mestiça”. Portanto, sou mestiça. Como vocês descobriram ontem, de descendência japonesa e italiana. Por isso que esse texto, que era para ser publicado ontem, está sendo publicado hoje: eu não poderia deixar para outro dia o texto do jogo do Brasil contra o Japão.

E o que exatamente eu quero dizer quando digo que “sou mestiça”? Muitas coisas profundas, mas também muitas coisas superficiais. Por exemplo: falo com as mãos e de forma exagerada (o meu eu italiano) sobre assuntos muito sutis, delicados, detalhistas (o meu eu japonês). As coisas profundas deixamos para uma próxima, porque aqui a ideia é ser mais jogo rápido.


2. Acredito, como o Felipe do techdemo, que banho quente cura tudo.

Se não resolver, sugiro um aumento na dose: banho quente no escuro. E o meu “remédio de conforto” é a Doralgina. Mas não tomo desenfreadamente, sem orientação médica e cuidados. Tenho enxaquecas de vez em quando e, antes mesmo delas começarem a ganhar o meu corpo, segundo recomendação médica, tomo uma drágea junto com bastante água. Como tive que fazer isso muitas vezes durante os últimos anos, confesso que sinto certo prazer com o sabor do remédio. Só de sentir aquele sabor eu já sinto que vou ficar boa. Pois é, meio loucura mesmo...


3. Pareço ter traquejo social, mas no meu íntimo, quando vejo esse meu “eu-social”, me sinto sempre deslocada, falsa, incongruente.3

As pessoas que “me conhecem na vida real” talvez nem imaginam que eu tenho esse tipo de questão dentro de mim. Acho que as pessoas me consideram relativamente “normal”, até o ponto em que elas são normais demais e aí eu fico um pouco destoante. Mas, no geral, passo batida, não sou tímida demais, não preciso de muito estímulo para saber lidar com as situações. Pareço até gostar de estar com os outros, mesmo quando penso que tudo aquilo ali é um absurdo. “Para os que convivem comigo, e que julgam conhecer-me, sou alegre, dizem-me alegre, porque sou blagueuse e irônica. Não conto a ninguém esta tristíssima inferioridade de me sentir uma exilada de toda alegria sã, franca; não mostro a ninguém a miséria da minha miséria de inadaptável, de insaciada”.4


4. Tenho Vênus na Casa 12.

Tá, e daí? O que isso quer dizer? Muitas coisas que nem eu mesma sei, gente. Mas o que eu achei o máximo esses dias é a seguinte definição que encontrei em um blog5 que, entre outras coisas, transcreve um livro ótimo sobre todas essas casas, signos e cálculos.


Passar uma tarde chuvosa ouvindo Debussy (Vênus na 12ª casa) lhe dará uma ideia de algo da natureza deste posicionamento.


Fiquei de cara!! Simplesmente toda vez que eu fico triste e meio chorosa antes de dormir eu coloco Debussy pra tocar infinitamente até cair no sono. Gosto de imaginar que ele toca em uma caixinha de música. Achei uma interpretação primorosa.


5. Aprendi a ler com 4 anos de idade, é o que dizem.

Eu mesma não me lembro do que eu li ou exatamente como eu aprendi a ler. Me lembro de estar na escola, no pré, aprendendo as vogais e depois todas as sílabas, unindo com as consoantes. Sempre achei aquilo tudo muito fácil. Quando fui pra primeira série, não errava uma conta de matemática e corrigia a própria professora enquanto ela ensinava os alunos a separar as sílabas. Eu já amava perdidamente os livros. Mas isso nunca me fez uma pessoa exibida, ao contrário, criou dentro de mim certo senso de “obrigação” de auxiliar todos os meus colegas. Aos astrólogos: problema de quem tem Vênus na Casa 12?


6. Como estamos no clima de Copa do Mundo: chorei copiosamente no dia da eliminação do Brasil da Copa de 2006.

Depois de ter sido penta, achei que o mundo estava ganho. Pra mim, foi um absurdo o Brasil ser eliminado da Copa do Mundo. Jovem demais, ainda não conhecia esse sentimento. Como assim existe alguém melhor que o Ronaldinho Gaúcho? A sensação foi meio essa. Nunca mais esqueci o nome de Thierry Henry depois daquele traumático gol que cravou em mim uma tristeza profunda que se arrastou por horas. Chorei de soluçar mesmo, de desespero do mundo ter se acabado, de ter que esperar mais 4 anos (que, naquela época, soavam como a eternidade) para ver de novo o Brasil na copa. Ô dó!


7. E, por falar em futebol, sou mais são-paulina do que é recomendado para a boa saúde.

Não sei se preciso dar muita explicação sobre esse item. Os fatos estão aí... O bom é que tive a glória de ser tricampeã mundial, e disso me lembro bem. Vocês já sabem. O futebol altera meu humor mais do que eu gostaria. E, nessa época, viver era uma alegria desenfreada. Nada era capaz de me parar. Rogério Ceni é uma figura mística na minha vida. Pra sempre o número 1 no meu coração.


8. Preciso ter unhas curtas. Questão de vida ou morte.

Como a Karina do Quase aurora, tenho uma questão com unhas. Penso que se eu deixar com que elas fiquem muito grandes, a minha força vital vai sair do meu corpo para abastecer as minhas unhas. Tá, talvez eu tenha exagerado na loucura nessa aqui. Mas sinto isso desde criança. Acho que inventei da minha cabeça mesmo, ainda em tenra idade. E, por isso, tenho extrema aflição de unhas compridas. Deixo as minhas bem curtinhas. Agora tenho outro motivo para deixá-las assim, que é o fato de mexer com tintas e tudo mais. É infernal quando alguma coisa entra debaixo da unha. Ainda mais se essa coisa for tinta!!


9. Em 2020, em plena quarentena, botei na cabeça que eu ia começar a desenhar e pintar.

Sem saber de nada mesmo. Peguei alguns materiais que eu já tinha comprado e que ficavam guardados, “esperando o momento certo”, e comecei a assistir a alguns vídeos no YouTube. Desde então, nunca mais parei. De vez em quando, desenho e pinto menos; em outros períodos, a vontade vem com uma força avassaladora. Hoje em dia já não me importo tanto com essa oscilação. Não fico me cobrando para pintar e desenhar todos os dias, ou qualquer outra coisa do tipo. Deixo a coisa fluir livre, porque o desejo é assim. Já fiz, durante esse período, algumas obras das quais me orgulho bastante. Quase ninguém as viu. Não sei exatamente porquê. Aproveito para deixar aqui esse quadrinho de peras, que adoro de paixão. Foi um dos primeiros que fiz quando comecei a aprender as delícias do giz pastel oleoso.

peras


10. Tenho mania de grandeza com o amor.6

Não gosto de coisa pouca. Nem me venha regular o que é bom.




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  1. Virginia Woolf in Elena Ferrante. As margens e o ditado: sobre os prazeres de ler e escrever. Tradução de Marcello Lino. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023. Pp. 29-30.

  2. Op. cit, p. 30.

  3. Eu ia dizer que, nesse aspecto, sou como o th, mas acho que derramei uma dose dramática em cima disso que não sei se ele derramaria.

  4. Florbela Espanca. “Cartas nº 43, 44, 147 e 148”. Sonetos completos com um estudo de José Régio. Não estou com o exemplar aqui. No texto do dia 28 de maio eu disse que iria à biblioteca para verificar as informações e completar essa referência de forma correta. Pois é. Ainda não fui.

  5. Faz anos que eles não postam nada novo no blog, mas ele ainda continua excelente como consulta para as mais variadas dúvidas. Segue o link: https://aldebahran-astrologia.blogspot.com/

  6. Por isso adorei esse título do último texto do th (o segundo): Coisa boa é pra sempre. Ok, ok, o texto fala sobre o Corinthians. Sou são-paulina apaixonada, mas acho lindo ver a paixão pelos outros times. Também nesse ponto, sou a favor do amor.