Lámen resolve qualquer coisa
So what's the matter with you?
Sing me something new
Don't you know the cold and wind and rain don't know?
They only seem to come and go away1
Ontem veio um monte de gente almoçar e passar a tarde aqui. Eu sempre me sinto dúbia nesse tipo de situação. Não é raro vir um monte de gente aqui, por inúmeros motivos, nos mais variados horários. Por isso que eu digo que não sou uma pessoa isolada, apesar de não possuir amigos. No entanto, por algum motivo, ou por vários, me sinto invadida por toda a situação que se cria em torno do fato de ter gente aqui. Pois, como já disse, essas pessoas não são exatamente como os amigos, ou seja, no limite, e resumindo, eu tenho que “fazer sala” quando estou com elas. Não sou totalmente mentirosa, mas também não sou totalmente verdadeira. E, quanto mais pessoas se reúnem, mais eu constato que essa é a tendência que se estabelece: ser menos você mesmo.
Muito antes de todas essas pessoas chegarem, há o clima da expectativa dessa chegada. Para quem comanda esse tipo de reunião, tudo “tem que estar perfeito”. E isso é tão estressante. Como não se trata de receber amigos, você não mostra que seu ânimo está mais para ficar de pijamas e assistir ao primeiro mata-mata da Copa. Você não deixa esses não-amigos perceberem que o seu quarto está, na realidade, uma zona, e que você só enfiou um amontoado de coisas dentro do armário para que ninguém veja o seu caos interior. O banheiro não está lá aquelas coisas, a última vez que ele passou por uma limpeza pra valer foi na quinta-feira. A lata de lixo já está cheia; se acumulam, ao redor das escovas de dentes, pincéis para aquarela, secando espetados em alguns copos. Como essas pessoas não são propriamente amigos, mas também não são inimigos, você se aperta em suas roupas “de sair”, mesmo para ficar em casa.
Então, vejam, mesmo que o papo seja relativamente bom e a comida seja deliciosa, eu sempre fico com um gosto de isso não é tão “de verdade” assim. E realmente não é. Não é que eu quero viver em uma caverna isolada do mundo. Pelo contrário. Adoraria receber todo mundo para ficar de pijamas e assistir aos jogos da Copa. Adoraria deixar que todos entrassem no meu quarto, vissem a minha zona. Jogassem, junto comigo, tudo no armário, abrindo espaço na cama para a gente comer pipoca, conversar e dar risada da vida. Falar besteira, andar de meia, comer chocolate, ficar em silêncio e depois sair para uma caminhada na noite, juntos. Ou se o frio estiver demais: sem sair à noite, ficamos em casa, cozinhamos e limpamos tudo juntos. Eu adoraria fazer tudo isso. O que eu não gosto é de uma coisa específica: toda essa mise-en-scène para “receber as pessoas em casa”. Parece o fim de tudo para vocês? Para os meus compatriotas de apartamento, isso parece uma coisa de outro mundo.
Aliás, é preciso dizer que, na verdade, é raro que o papo nesse tipo de situação seja bom. Na verdade, muitas vezes me sinto colocada contra a parede com tudo o que eu supostamente “deveria ser”. Me dizem que sou “muito bonitinha”, que tenho “carinha de 20”. Que eu deveria me expor mais, falar diante de câmeras, viajar o mundo, criar um perfil no TikTok, inaugurar um canal no YouTube para falar sobre artes, mandar um e-mail para o Cazé pedindo emprego porque eu entendo muito de futebol (e sou mulher!! Grande coisa... mulheres amam o futebol há anos... Enfim... deixa pra lá). A verdade é que ninguém quer saber se eu realmente quero todas essas coisas. Mas, para essas pessoas, o que eu quero não importa. O ponto, para elas, é que eu resolva alguma questão real ou imaginária que elas tem com elas mesmas. Eu insinuo: gosto de escrever... Bah! Que é isso?? Ficou doida?!? Isso não vale nada! O mundo não é mais assim.
Estou me conhecendo muito mais desde que fiz esse blog e comecei a falar em voz alta comigo mesma por meio da escrita que faço aqui. Para vocês, eu digo: na realidade nem eu mesma sei o que eu quero, ou o que eu posso querer. Passar anos convivendo com uma doença te coloca em outra perspectiva sobre o desejo. E ninguém quer saber também sobre a sua doença. Ninguém quer saber o que você viveu, o que aconteceu, quais foram as suas angústias, as solidões... a vida tem que continuar, e você vai ficando pra trás, porque não consegue mais correr para acompanhar o passo. No entanto, como por muito tempo eu não consegui fazer muitas outras coisas, passei a observar e a entender infinitamente mais as pessoas. As suas intenções, as suas manias, os seus desejos, as suas necessidades, os caminhos dos seus pensamentos. Sei dizer quando alguém se importa com o que eu necessito e quando não se importa. Então dá para imaginar como todas essas coisas podem sufocar. E, é preciso dizer, esse tipo de papo maluco não ocorre uma vez ou outra, mas quase semanalmente na minha vida. Ocorre em toda “reunião de amigos” desse tipo. Enfim, vivo na casa de outras pessoas, então as coisas são mais do jeito delas.
O fato é que ao mesmo tempo em que luto para recarregar as minhas energias e recuperar plenamente a minha saúde, convivo com certos fatores como esse que sempre exigem de mim um pouco demais. E as pessoas que vivem comigo não entendem que isso é algo que, eu gostando ou não, me custa. Me custa passar horas do meu domingo embalada ao som desse tipo de conversa, ao mesmo tempo em que tenho que entregar não sei quantas páginas de revisão de Matemática. E o que eu queria mesmo, na realidade, não era nem uma coisa nem outra. Queria mesmo assistir ao jogo, me espichar em algum lugar para tomar sol, ir ao museu, caminhar na rua ou no mato. Minha saúde, como ela está, ainda não me permite pegar as coisas totalmente nas minhas mãos. Já avancei bastante, sim – já não estou doente como antes. Mas tem apenas 9 dias que meu estômago passou a aceitar um pouco mais de comida, e não foi por conta própria, mas pela ajuda fornecida pelos remédios. Calma. Preciso lembrar para mim: calma. Estou indo bem.
Em meio a toda essa situação, tento criar amizades: nem todo mundo é tão inconveniente assim. Mas é difícil, porque essas pessoas chegam até mim sempre através desse meio criado para que elas me encontrem. E porque eu mesma, no momento, não tenho muitas condições (físicas mesmo) de criar outro meio, acabo ficando com as mãos abanando. Mas elas (as situações novas e as amizades novas) virão. Elas estão a caminho. (O poeta disse: good love is on the way.2) E, por isso, enquanto desejo outras condições e vivo as minhas atuais, de vez em quando dá sim vontade de fugir de tudo, sinto que não quero ver ninguém, que não quero falar com ninguém. Ou será que eu só não quero falar com essas pessoas, ver essas pessoas, estar com essas pessoas? Calma: good love is on the way...
Com tudo isso na cabeça, acessei a aba dos textos mais recentes do Bear Blog e encontrei “O caminho do lámen”, do cdbm. Instantaneamente, a vontade de comer essa iguaria foi despertada em mim. (Vejam como a perspectiva é tudo: 9 dias atrás eu não poderia nem sonhar em comer um lámen, porque meu estômago, como estava, não suportaria.) Como eu já havia trabalhado mais cedo, em pleno domingo, logo veio aquele pensamento: “eu mereço. Vou pedir no Ifood.” Mas, na realidade, eu não estava tão a fim assim de gastar mais de 60 reais para comer um lámen, uma vez que nem tanta fome eu tinha. Fui tomar um banho e pensei em uma ideia tão óbvia quanto boa: por que eu simplesmente não sigo a receita que o próprio cdbm disse que havia seguido? Dã.
Me animei. Juntei meus ingredientes na cozinha. Um pacote de macarrão de trigo sarraceno que eu tinha comprado para fazer outra receita oriental, mas nunca utilizei. Shoyu, saquê, açúcar, 1 ovo, cebolinha, gengibre, alga. Tudo aqui na minha despensa, prontinho para ser usado. Ouvi meu próprio conselho: “tente! Experimente! A gente nunca sabe quando a vida pode ser maravilhosa.” Me lembrei das palavras que li na Home do novíssimo Away From Keybord: sem pensar muito, só faz!3 Me peguei viajando na minha própria felicidade ao descobrir coisas novas, ao sair, mesmo que um pouquinho, do meu casulo. Ok, ok. vocês entenderam. Eu fiz o tal do lámen.

Valeu, cdbm! Salvou o dia.
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Oasis. Stand by me. Be here now, 1997.↩
John Mayer. Good love is on the way. Where the light is: John Mayer live in Los Angeles, 2005.↩
Aliás, fiquei felicíssima e até emocionada (sou meio boba mesmo) quando vi que fui citada no texto da Home desse blog novinho. É isso aí! Vamos desencaixotar as coisas da nossa cabeça e deixar elas tomarem um ar no mundo. Sem pensar muito no que vai dar. Vai que dá em uma coisa maravilhosa? Aí é lucro em cima de lucro!↩