A vida de uma garota de 30 anos

Dorama ou Chaves?

Ontem, durante a transmissão do jogo México X Coréia do Sul, na CazéTV, surgiu o dilema entre os comentaristas: o que é melhor? Dorama ou Chaves? E eu pensei: por que escolher, se podemos ter os dois em uma obra só? É só assistir a Reply 88!

Reply 88, assim como Chaves, se passa em uma vila que abriga casas de vizinhos que se conhecem a vida inteira. E, assim, como Chaves, é bem humorado, com personagens caricatos, mas que nos marcam como pessoas reais. Quem é que não se recorda, como se tivesse visto ontem, da luta do Seu Madruga para pagar o aluguel, dos choros do Quico de criança mimada, da vontade delirante do Chaves de comer o seu sanduíche de presunto? Reply 88 constrói personagens desse tipo. Marcantes, exagerados, lindos.

Assim como Chaves, Reply 88 aborda também a relação entre pais e filhos e suas variadas formas. E não demora para nós conhecermos o “Chavito” da Coréia do Sul – Deok-sun não é órfã, mas vive em um caos familiar e tem um complexo com o seu nome. O primeiro episódio é uma ode às dores e às delícias de ser o irmão do meio. E, assim como Chaves, Deok-sun será mais ou menos a nossa personagem condutora, nos introduzindo naquela vida de vizinhos e familiares. Ela não é, como se espera em um dorama, perfeita para os padrões orientais. Ao contrário, quebra essa expectativa se mostrando para o público como uma garota brincalhona, extremamente sensível. Ela é uma menina que anda majoritariamente com meninos. Sua personalidade é meio moleca, ela se “iguala” a eles.


Deok


Reply 88 faz saltar à tela a beleza do cotidiano: a construção das casas dos anos 80; o amor pelos objetos, de madeira, firmes, feitos para durar; a vida que gira em torno desses objetos, como a televisão, o rádio, os chinelos de tira única que se acumulam na entrada das casas, os tênis brancos dos estudantes, os calendários de papel pendurados nas paredes, as vasilhas intermináveis nas cozinhas e nas ruas, os bancos ao ar livre para tomar sol, a comida coreana, que, na época, começava a introduzir no seu paladar também traços da comida estadunidense e italiana. Delicadeza da construção: Reply 88 é uma série feita com dedicação e amor. Sem pressa.

Cada episódio gira em torno de um tema central, e as tramas dos personagens se desenrolam em volta disso. Relações familiares, doenças, vestibular, amor, amizade entre irmãos, menopausa, luto, infância. Tudo isso regado à muita filosofia, mas não de modo explícito, maçante: trata-se mais de um modo coreano de ver o mundo e as coisas.

O primeiro episódio apresenta, logo nos primeiros minutos, uma questão que perpassa todo o pensamento e o sentimento oriental. Falo por experiência própria: os coreanos e os japoneses sentem que a vontade de dar deve ser sempre maior do que a de receber, quase como se o seu valor fosse provado pelo fato de você dar mais do que os outros dão. Na década de 1920, o antropólogo Marcel Mauss estudou esse fenômeno na Polinésia, e buscou compreender os caminhos da troca (do dar, do receber e do distribuir) entre indivíduos em uma sociedade. Ele chamou essa relação de potlach, prestações totais de tipo agonístico (agonístico porque você dá como forma de dar mais do que o outro. Não se trata de troca justa, equilibrada, mas de pavimentar os caminhos para a dádiva)1. Reply 88, em poucos minutos, apresenta o “potlach oriental” de forma cômica e exuberante: os garotos entregam os presentes, em forma de alimento, que as mães mandam para as casas dos vizinhos na hora do jantar. Depois de irem e virem inúmeras vezes, com vários potes de comidas deliciosas, preparadas com carinho e despachadas rapidamente, eles trombam uns nos outros, no meio da vila, com os pratos em mãos, e se questionam: por que não comemos todos juntos? Uau! Que abertura de série! Coisa linda!


replu


Se você quer chorar, tirar de dentro de você todas essas lágrimas que estão aí represadas: Reply 88 é pra você. E se você quer rir muito, torcer para alguns casais e se encantar com as bobeiras dos jovens: Reply 88 é pra você! Se você quer se apegar a personagens maravilhosos, complexos e bem trabalhados, ver a beleza nas pequenas coisas do dia a dia, apreender uma perspectiva da filosofia oriental sobre os pequenos detalhes da vida, adivinha? Mas, e se você quiser seguir um caminho totalmente diferente? Conhecer as referências artísticas, cinematográficas, musicais, políticas e estéticas da Coréia nos anos 80/90, vivenciar os primeiros passos do que conhecemos hoje mundialmente como k-pop... Reply 88 também é pra você!! Reply 88 é como Chaves: é pra todo mundo.



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  1. Marcel Mauss. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. P. 192