A vida de uma garota de 30 anos

Matemática

Se eu quiser falar com Deus
[...]
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho...1


Hoje é sábado, e o tempo está lindo, frio com sol. Eu amo esse clima. Meu aniversário é no outono e essa sempre foi a minha estação preferida. Eu gosto de dias cinzas, dias que não são nem pra lá nem pra cá. Hoje é o último dia do outono.

Queria escrever um texto aqui para o blog sobre os meus pincéis de aquarela. Comprei um pincel profissional pela primeira vez, da Princeton. Ontem, entre o jogo do Marrocos e o do Brasil, consegui fazer alguns testes e umas pequenas pinturas. Já estou apaixonada. Não é difícil me conquistar. Mas, em vez de conversar com vocês sobre pincéis, tomar um bom banho, sair para dar uma volta nesse dia maravilhoso e depois assistir a um ou dois jogos, vou revisar capítulos de livros didáticos de Matemática.

Não é que eu esteja reclamando de trabalhar, mas eu digo para vocês: esses empregos em editoras de didáticos, principalmente na área do ensino público, são insanos. Eu ainda estou tranquila, comecei essa semana. Mas tenho colegas que estão nesse ritmo ininterrupto, sem horário para fechar expediente, há meses. É simplesmente inaceitável. E, no entanto, estamos todos lá, cumprindo metas impossíveis e prazos que beiram o ridículo.

Um dos meus objetivos nesse trabalho novo é também me conhecer melhor em relação aos meus limites e desejos em um ambiente como esse. Anteriormente, fiquei alguns anos em um emprego similar e saí de lá entorpecida, totalmente derrotada. Quero que dessa vez seja diferente. Se não por eles, ao menos por mim. Na realidade, já é um pouco diferente por conta deles, sim – não quero ser pessimista. Vejam: no meu trabalho antigo, eu ficava responsável por grande parte das coisas de Matemática (absurdo: mesmo não sendo da área!!!), porque tudo que diz respeito a essa disciplina é mais complicado que as demais. São os símbolos, os gráficos, os cálculos que precisam de correção, a linguagem que deve ser a mais clara possível para que os pobrezinhos consigam entender alguma coisa. De modo geral, a maioria das pessoas teme a Matemática. Isso não é diferente entre os revisores: ninguém quer pegar esse tipo de material. Acho que sou destemida e detalhista na medida certa para esse tipo de problema. Então, fui coroada como a pessoa mais adequada para essa tarefa. Uau, que glória! Será?

Foi fazendo esse tipo de revisão que eu descobri o motivo de tantas pessoas não morrerem de amores por essa matéria. Muitos materiais simplesmente não foram feitos para que você a entenda, quanto mais a ame! Parecem dificultar de propósito. E fico eu aqui, no meu trabalho de formiguinha, fazendo sugestões: coloque a fórmula de maneira visual, e não somente por escrito. Quem vai entender que “a área do triângulo retângulo equivale a metade do produto da medida da sua base pela medida da sua altura”?? A probabilidade que você entenda o que segue abaixo é infinitamente maior.


A=base · altura2


Adivinhem qual das duas opções os responsáveis pelo resultado final preferem. Pois é...

Eu, quando estudante, também odiava a tal da Matemática. Mas estudei em um colégio muito rígido, e acabei aprendendo “na marra”. Eu tinha avaliação todos os dias, e tinha que tirar acima de cinco em todas elas. Esse é o nível de loucura desse colégio. Muitas dessas provas eram de Matemática – e mesmo eu sendo uma amante das Humanas, tive que me contentar com ela também.

Enfim, isso me forneceu esse cargo de “especialista em Matemática”, mesmo não possuindo nenhuma certificação que me garantisse tal competência. Por não ter certificação, tudo fica meio informal, meio diluído. E, no final das contas, nem esse atestado garantiria nada, uma vez que tais empregos são todos regulamentados pelos ditames do neoliberalismo. Enfim... eis que, em um belo dia, no meu antigo trabalho, eu descobri que recebia menos do que meus colegas de equipe, que realizavam “o mesmo trabalho que eu” – tirando o fato que eu ficava com todos os materiais mais difíceis!2 Nessa editora nova, eles pagam a mais (e não “a menos”) pela correção de Matemática. Por isso que eu disse que as coisas podem ser diferentes. Veremos se são mesmo.

Ainda estou em fase de adaptação e, na realidade, nem pretendia revelar tantos detalhes assim dessa vida de ofício para vocês. Porque, por mais que eu goste de ler e de escrever, o que eu gosto mesmo é de ler e escrever para mim, debaixo de uma árvore, tomando sol, pintando minhas aquarelas sem pressa, refletindo sobre os meus assuntos, e não sobre como a fórmula da área do triângulo poderia ser melhor. Penso, meio como o th, que o negócio da nossa geração é que a gente “caiu na real”: dentro do “capetaliso”3, trabalho é trabalho, amor é amor.

Não me leve a mal, Matemática. Eu aprendi a te amar! O inferno (como sempre?) são os outros: eles é que te maltratam, que te deixam toda pisoteada... eles é que te fazem chegar aqui, em minhas mãos, toda amorfanhada, em um dia lindo, no meio da Copa do Mundo.

O texto sobre os pincéis está a caminho, não se preocupem! Só precisaremos adaptar o ritmo das coisas, e fazer a Matemática dançar junto conosco nos próximos meses. Para aliviar vocês, leitores, eu também reviso aulas de História, Ciências, Português etc. e tal. Afinal, nem só de Matemática pode-se viver. Mas a bendita insiste em ser a minha companheira, mesmo que, durante tantos anos, eu tenha fugido dela como o diabo foge da cruz!! A vida, às vezes, nos encontra nos nossos descaminhos. Eu não sei se quero falar com Deus, como sugere o poeta, mas certamente a Matemática pode fazer de mim um cão, a lamber o chão dos palácios, dos castelos, suntuosos do meu sonho...



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  1. Gilberto Gil. Se eu quiser falar com Deus. Luar, 1981.

  2. É claro que eu não gostaria que eles recebessem menos, e sim que eu (pelo menos) ganhasse o mesmo que eles.

  3. Expressão que eu li no blog da mikahgosto e me acabei de rir. Se você é amante de música, vale a pena ler o texto inteiro: Saudades de ouvir música.