Engraçado

Hoje, na sala de espera do consultório médico. Essa é a vista que tenho de lá. Ainda tenho sentimentos ruins dentro de mim: sobre a minha saúde, as minhas relações pessoais, a minha vida. Ainda sofro dos mesmos males de antes e até mesmo de outros mais. Tenho pensamentos que caminham contra minha própria potência. Eu convivo com esses corredores assépticos e com essas salas de espera que se parecem com um hall de hotel mais do que eu gostaria, e ainda, mais do que eu sequer imaginei que um dia conviveria. A verdade é que eu faço mais exames por ano do que qualquer pessoa da minha idade que eu conheço, e preciso de ter um cuidado com a saúde, com a alimentação, com a rotina, com o descanso como tem alguém que está em longa convalescença. Depois que ficamos doentes, vivemos sempre com o fantasma do medo do retorno. Nunca mais quero ficar assim de novo. E aí seguem-se esses extensos estados de alerta, oscilando entre melhoras e pioras, recuperações e recaídas. E sempre esses corredores, essas luzes brancas, esse conforto exacerbado nessas salas de espera que são planejadas para afastar o incômodo que vem de dentro.
A verdade, também, é que hoje eu estou só o caco, à la Fera ferida, de Maria Bethânia: no corpo, na alma, e no coração. Desculpem o baixo astral.
Mas o que é engraçado disso é que, agora, junto com todas essas coisas, eu tenho outra: este blog. Agora, me sinto também meio que uma escritora, na tarefa de escrever para mim e para vocês. Isso não precisa mudar todo o resto. Mas, agora, isso também existe na minha vida. Meio que de repente, essa coisa tão nova e tão boa também precisa se arranjar dentro de mim, dividir o cômodo com toda aquela bagunça do submundo. E hoje, mesmo com as roupas e os sonhos rasgados, estou aqui a digitar essas palavras, sem saber como me despedir depois de colocar na mesa uma porção de objetos que ficam empoeirados, jogados pelos meus cantos. Enfim, a vida precisa de abrir espaço para as coisas novas, ainda que elas se acomodem ao lado de outras tantas deploráveis. E eu me pego vendo isso com certo gosto de incômodo na boca, mas com olhar de aceitação. De perto, isso tudo parece horrível. Mas de longe, vendo através de um olhar saturnino, tal desarranjo não chega até a ser engraçado?
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